Futebol, Política

O futebol moderno: ou no tempo em que a coreia era coréia

O futebol é feito de fases. Na fase atual, os times não atacam e nem defendem: ou estão na fase ofensiva ou na fase defensiva. E o velho e bom contra-ataque, que por aqui já foi chamado de esquema “pega-ratão”, hoje é transição. Falando em esquemas táticos, são um caso à parte. Que coisa linda são os esquemas táticos! Que profusão de emoções provoca nos acadêmicos do futebol moderno passar horas debatendo a complexa e quase hermética matemática dos esquemas: 3-5-2; 4-4-2; – ah, que espetáculo! – ou um 3-6-1, com os três volantes fazendo a diagonal e o extrema esquerdo jogando na extrema direita e o extrema direito jogando na extrema esquerda pra confundir o adversário (e o próprio time…); que maravilha! Mas, atenção, esquema tático é uma coisa, modelo de jogo é outra, por favor, não confunda funda com bunda! Jogo de posição, modelo reativo etc. e tal não devem nunca invadir as conversas sobre esquemas táticos. Os manuais explicam isso direitinho. E se precisar tem vídeo no youtube. De minha parte, tenho grande curiosidade de saber como seria o esquema com esta escalação: Ivo, Alfeu e Nena; Assis, Ávila e Abigail; Tesourinha, Russinho, Vilalba, Rui e Carlitos. 1-5-5? 6-5? 1-10. Na verdade já sei: não seria.

O Gamarra não jogaria no futebol moderno. Pro futebol moderno não basta o cara ser o melhor zagueiro do universo, tem que ser construtor. E até onde sei o Gamarra não tem registro no conselho de engenharia. Mas todo mundo tem que construir no futebol moderno. Lembro quando o Inter trouxe o Oséas e a sua permanência no time se justificava porque ele fazia a parede como ninguém. E o Velho Cabral: Olha aqui ó, dispensa o centro-avante e contrata um pedreiro pagando bem menos. E naquela época o futebol nem era tão moderno…

Lembro também do tempo que atravessar bola na intermediária defensiva era motivo de gancho de 15 dias e que quando a bola era atrasada pro goleiro adversário a gente gritava: “APERTA QUE ELE ENTREGA!”. Hoje o jogador que não sabe trocar passes na frente da área pra atrair o adversário e abrir espaços e não entrega muito não serve: “Ele entrega pouco pro time”, dizem os entendidos do futebol moderno. E o box-to-box? Ah, o box-to-box!!! Chega a causar arrepios pensar num jogador que não saiba fazer o box-to-box. O volante, que já foi centro-médio e tinha só que manter a frente da área limpa, se não fizer o box-to-box não pode estar no time. Seja lá que diabos quer dizer box-to-box (deve ser algo pra não esquecer que o esporte é bretão).

Na hermenêutica do futebol moderno (o futebol moderno não vive sem hermenêutica) o gol é detalhe, mera consequência da maior posse de bola. Se o time tiver 95% de posse de bola durante os 100 e tantos minutos (sim, hoje o jogo não acaba antes dos 100, e isso não tem nada a ver com o saudoso Canal 100), pouco importa se ganhou por 1 a zero, com um frango do goleiro adversário, sem que o centro-avante tenha chutado uma única bola durante todo o jogo. Goleiro, aliás, que pode tomar frango a rodo; tem é que saber jogar com os pés. Se ele deixa a bola entrar bizonhamente na goleira é coisa pra se avaliar depois, o que interessa é que saiba trocar passe com o zagueiro (que deve ser construtor, nunca esqueçamos) e que contribua pra diminuir o espaço do adversário, possibilitando a fase ofensiva ou a fase de transição, que, como visto, já foram grosseiramente chamadas ataque e contra-ataque em tempos de antanho por quem não entende nada de futebol (moderno). Quando o goleiro toca cinco vezes mais na bola que o meia-armador (depois eu posso tentar explicar o que era isso antes do futebol moderno), os teóricos do futebol moderno entram em êxtase: “Este sabe jogar com os pés!” Tudo isso tem uma razão, que se explica pela análise do mapa de calor do camisa 9 (ou 38, ou 44, ou 171) pra ver por onde ele andou em campo e concluir se ele sabe ou não jogar sem a bola. A diferença entre mim e o Pelé é só a bola. (CABRAL, 199…)

No futebol moderno, ala, que já foi lateral e tinha que marcar o ponteiro, é extrema, que, como vimos, pode jogar na direita, na esquerda, no meio, tanto faz, assim como o ponteiro, que também é extrema. Ficou meio confuso? Não te preocupa, vou organizar as referências bibliográficas sobre o assunto e aí tudo vai ficar claro e cristalino. Voltando ao extrema (antigo ala, pré-histórico lateral), se ele não fechar pro meio (ou pro lado, ou pro outro lado, ou pra trás – pra frente, em direção à linha de fundo? Jamais!), pra abrir espaço pro volante – que também tem que ser empreiteiro, ops, construtor – dar aquele passe que quebra as linhas de defesa, pode ter certeza que não vai se criar. Mas se ele fizer isso direitinho, pode ter as próprias linhas quebradas (vulgo bola nas costas) o jogo inteiro que não tem problema nenhum, o importante é o esquema, ou melhor, o modelo (ou será que neste caso é mesmo o esquema?), e, afinal o goleiro está ali pra jogar com os pés. E, convém repetir, o que importa é a posse de bola.

Há algumas coisas no futebol moderno que obviamente estão fora das quatro linhas (ainda são quatro, né?). Hoje, quando o teu time fizer um gol, é prudente esperar alguns minutos pra abraçar e beijar aquele sujeito de quem há meio minuto tu queria morder a orelha e cuspir arquibancada abaixo (cuidado com os stewards, que os campos, desculpa, as arenas do futebol moderno estão cheias deles à espreita de qualquer deslize – nome feio nem pensar!). Sempre há chance do bandeira (assistente de arbitragem) levantar o seu instrumento de trabalho e mandar o lance pro VAR (acrônimo de Vamos Ajudar o Rubro-negro, embora alguns autores digam que se originou da ideia: vamos acabar com o futebol de VÁRzea). Vezes há em que o próprio interrompe o contra-ataque, ops, transição, pra chamar o juiz (árbitro principal) pra revisar se aquela pisada que o zagueiro (construtor) deu no pescoço do extrema (que fechava pelo meio) dentro da área foi proposital ou não. Aí, se não for contra o mengão (neste caso a orientação é deixar o var solenemente no vá(r)cuo), o juiz vai lá olhar e durante os próximos 18 minutos ficaremos esperando se foi pênalti ou não. Ou melhor, esperando se o juiz vai dar o pênalti ou não, afinal, a regra é clara mas tem que se interpretada, principalmente se o pênalti for contra o mengão. É tempo suficiente pra ir lá na copa – espaço que os antigos frequentadores chamavam de bar – comprar um cachorro-quente ou uma pipoca, gourmets, que no futebol moderno só se aceita coisa gourmet, e tomar uma ceva. Sem álcool, por óbvio, e de preferência que não seja Brahma, porque Brahma pode trazer reminiscências de tempos de outrora, quando se agradecia à Antarctica pela caixa de Brahma e o centro-médio marcava o meia-atacante. E quem sabe dá tempo até de ir no banheiro, que agora é limpinho e tem até sabão líquido. (Dizem que em algumas arenas se chama toilette e são oferecidos lencinhos umedecidos, mas isso pode ser intriga da oposição.) Na volta, talvez dê tempo até pra ouvir o narrador gritando goooooooool com aquela emoção toda, mesmo que o tento tenha sido anotado há mais de 15 minutos. Ah, importante dizer, ouvir o narrador pelo aplicativo, claro, afinal, radinho de pilha no futebol moderno? Nem pensar! Se o narrador estiver fazendo tubo, melhor ainda.

Outra coisa muito importante no futebol moderno é o marketing. O futebol moderno precisa estar sempre criando cases de sucesso, como camisas amarelas, cor-de-rosa a até pretas. O time há 100 anos é vermelho? Mi mi mi… Essas camisas, roxas, verdes, cor-de-laranja, serão, como se disse, cases de sucesso entre os clientes, que são o equivalente no futebol não moderno aos torcedores. Clientes, a propósito, que podem desfrutar de todo o espaço das arenas (antigos estádios) durante o match day. Se quiserem ou não entrar na arquibancada, quer dizer, cadeira, pouco importa, desde que consumam, consumam, consumam e, no final, consumam mais um pouco. (E.T.: dizem que em certos locais do high society das arenas, o drink é liberado, às vezes até na faixa.)

Por fim, o futebol moderno não admite modelos (ou seriam esquemas?) anacrônicos, idealizados por técnicos ultrapassados que pararam no tempo em que zagueiro e goleiro só tinham que defender a meta e que só por golpe de sorte, ou talvez pela surpresa causada por um sistema tão retrógrado, tenham sido capazes de conquistas mundiais. Não, de jeito nenhum!

Dizem que foi o futebol moderno que levou o acento da coréia.

*Imagem de destaque (Coreia) copiada de https://twitter.com/barrabrava_net/status/1334210367275282432, visitado em 12/6/2021.

E mais uma vez as mulheres mostraram como é que se faz.

Foto da seleção feminina copiada de https://esportes.yahoo.com/noticias/selecao-feminina-protesta-contra-assedio-sexual-antes-de-partida-192452154.html?guccounter=1&guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLmNvbS8&guce_referrer_sig=AQAAAIzxlmz6q4olnlfjjs9EqGUKVGkt9rfrdKyVUBlxMmLqYDhUDR-V3sPAhblv40M9xJrvvdxMiLVLf0EmVW-FIvYTrPb-CUKi8IyTen0hufOAKaGuBQ-KazH1rsXvnJTIM3pNYQDLkMDevF8AxRzxB0ZbJZdGXSQZnyxgPtldbj0v, visitado em 12/6/2021

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