bolsonarismo, Direitos Humanos, Política

Gentes

Dizem que os crocodilos derramam lágrimas enquanto devoram suas presas. Daí a expressão “chorar lágrimas de crocodilo” pra dizer que alguém está sendo falso, cínico. Bolsonaro não corre o risco de virar crocodilo (que bom para os animais), afinal (diz que) não tomou a vacina. Mas a lamentação pela morte de Marília Mendonça se encaixa direitinho na definição da expressão.

Como disse o Moisés Mendes, Marília nunca foi uma ativista política e ele mesmo observa que no meio musical em que ela consolidou a sua curta carreira isso seria impossível. Mas ela falou publicamente que não votaria no candidato do fascismo. Não frequento a dita sofrência, sertanejo universitário, baronato da pisadinha ou o nome que tenha o tipo de música que ela fazia, mas tenho razões de sobra pra acreditar que ela tenha sido a única dessa turma a se posicionar assim. E, por óbvio, isso teve consequências, ela foi ameaçada e também a sua família, o que fez com que se recolhesse. Deve ser criticada por isso? Não por mim, porque entendo bem o passo atrás de quem sofre ameaças de assassinos. E que o exército bolsonarista é formado por assassinos, a memória de Marielle e Mestre Moa do Katendê (além de tantos outros e tantas outras) não nos deixa esquecer.

Imagem copiada de: <https://www.conversaafiada.com.br/brasil/sao-paulo-homenageia-mestre-moa-do-katende-e-marielle&gt;. Acesso em: 9 de nov. 2021.

A morte de Marília não vai transformar a música que ela fazia numa coisa boa. E, claro, digo isso apenas a partir da minha perspectiva, porque os e as milhões de fãs da cantora dizem diferente. Mas a morte de uma artista de 26 anos, que construiu a carreira e atingiu o sucesso de forma honesta – essa é a informação que eu tenho – é algo a ser lamentado. Quando se sabe que ela tinha um filho de pouco menos de 2 anos, o lamento vira dor, porque nenhuma criança deveria perder a mãe e muito menos nessas condições trágicas.

A partir da morte da Marília, Moisés Mendes aponta outra questão interessante para uma reflexão. Ele diz que do lado deles ninguém morre, ou morre e ninguém percebe. Como figura de linguagem vale, mas não é de todo verdade. Morre gente deles sim, bastante, e até vítima do vírus da gripezinha. Mas talvez realmente a gente não perceba. Ou se percebe não dá muita bola. Mas o inverso é muito verdadeiro, do nosso lado morre muita gente. A maioria das mais de 600 mil vidas perdidas pela Covid é gente nossa; a maioria das crianças e jovens negras e negros assassinados/as diariamente, sem notícia no JN, é gente nossa. E a nossa gente morre também sem morrer. Cada mulher violentada que tem medo de denunciar é gente nossa morrendo aos poucos; cada gay que é alvo de piadas (e também de violência física), cada pessoa que aparece nas transmissões televisivas das igrejas evangélicas como exemplo do satanismo das religiões de matrizes africanas, é gente nossa que morre; cada jovem da ciência que tem a verba da sua pesquisa cortada é gente nossa morrendo.

Dizer gente nossa aqui não tem necessariamente a intenção de dizer que é gente das nossas amizades e nem mesmo gente de quem gostamos. Tem gente nossa de quem eu gosto pouco ou quase nada. E tem até gente nossa de quem eu não gosto. Gente nossa é uma coisa ampla, é a gente que sofre com o projeto fascista e genocida que se instalou no Planalto e adjacências; é a gente que sabe que se deixar pra ir amanhã no mercado ou no posto de gasolina já não vai pagar o mesmo preço; é a gente que entra num posto de saúde sucateado em que profissionais precisam pagar material do próprio bolso para continuarem salvando vidas, e que depois passa na frente de um prédio do Judiciário que mais parece um Palácio de Versalhes. Se bem que na Justiça Federal, onde estão os prédios mais suntuosos, agora ninguém mais passa sem pagar o pedágio do parque privatizado. Mas, enfim, gente nossa é essa que sofre diariamente pelo abismo que nos separa da gente deles.

E enquanto a nossa gente morre, de verdade e simbolicamente, a gente deles entope as contas no estrangeiro com o dinheiro surrupiado de gente nossa. E sabem o que é pior? Essa gente que é deles de direito e de fato é muito pouca. A maioria da gente deles é, na verdade, gente nossa que só ainda não sabe disso. Espero que essa gente, que é nossa e pensa que é deles, entenda logo qual o lado certo para se (re)posicionar. Antes que só sobre gente deles por aí.

Se chegou até aqui, peço alguns segundos de silêncio em honra à memória da Marília Mendonça, da Marielle Franco, do Mestre Moa do Katendê e de tanta gente nossa que se foi; e um pequeno silêncio também para gerar um grande campo de vibração para nos fortalecer nas lutas contra a gente deles, porque… tá difícil, oh se tá! Mas nós não vamos desistir!

Imagem copiada de: <https://pcdob.org.br/noticias/enfermeira-e-atacada-por-funcionario-do-ministerio-de-damares/&gt;. Acesso em: 9 de nov. 2021.

*Imagem de destaque copiada de: <https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-cobra-apoio-de-ruralistas-na-disputa-pela-presidencia-da-camara/&gt;. Acesso em: 9 de nov. 2021.

Padrão
bolsonarismo, Educação, Ideologia, Militarismo, Política

Uma pessoa de terceira categoria

Sei que é uma bela carreira

mas não tenho a menor vocação

se fosse tão bom assim

não seria imposição

Raulzito

Se me perguntarem hoje qual o documento mais importante que eu tenho, digo sem hesitar que é a Carteira de Vacinação (e a carteira do Parque Gigante sempre, obviamente). Mas eu me lembro da emoção quando tirei a primeira identidade. Isso era uma espécie de rito de passagem para a vida adulta (se soubesse que era desse jeito tinha pedido pra ficar na infância, mas enfim…). A emissão da CTPS – Carteira de Trabalho e Previdência Social, que era um livrinho com espaço pra vários carimbos, foi outro momento marcante. Agora já podia bater na porta das firmas pra ver se tinha vaga de boy, profissão que exerci com muito orgulho até os 18 anos. E era justamente o 18 anos que me apavorava. Não que significasse grande coisa passar a ser adulto de fato e de direito pra alguém que já trabalhava desde os 13 (era antes da CF/88) e não tinha muito interesse em ver filme pornô no cinema. O problema é que o ano da maioridade era também o ano do alistamento e muitas noites mal dormidas eu tive pensando que teria que prestar o serviço militar obrigatório. Que pavor! Assim, o momento em que o tenente que coordenava as coisas me disse pra voltar dali a dois ou três dias jurar a bandeira e pegar a “terceira” (certificado de reservista) foi um dos mais felizes da minha vida.

Por que o serviço militar é obrigatório? E por que essa obrigação só existe para as pessoas do sexo masculino? E o que se faz lá dentro do quartel? São perguntas que não têm resposta muito difícil, mas dá muita polêmica, então vamos passar batido por elas.

Há quem aponte a Igreja Católica, mas eu tenho muita convicção em dizer que as Forças Armadas são a instituição mais retrógrada, obsoleta, anacrônica, datada, atrasada etc. etc. etc. que existe. E violenta. Que preparo psicológico e emocional terá um guri de 18, 19 anos pra empunhar um fuzil? Alguém dirá que é justamente essa condição que vai ser trabalhada no quartel. Pode ser, mas uma pesquisa séria sobre os casos de gente que sai transtornada depois de cumprir o serviço militar e outra sobre os casos de acidentes provocados por erro no uso de armamentos e ainda uma terceira sobre o número de suicídios dentro das organizações militares certamente vão flexibilizar um pouco esse entendimento.

Acho que ninguém vai negar que a juventude é um momento de grandes inquietações e transformações na vida de uma pessoa. Quem não tem a característica de ser questionador/a na transição para a vida adulta está no grupo das exceções. Um bom exercício de reflexão, então, é dar uma olhadinha rápida em algumas regras básicas de conduta (aparência) para os alunos e alunas do Colégio Militar de Porto Alegre:

*Acervo do autor
*Acervo do autor

Não acho que seja de todo ruim ter certas regras de disciplina em qualquer fase da vida. Somos seres gregários/as, nos relacionamos com outras pessoas durante toda a vida e, obviamente, algumas normas precisam ser determinadas para que possamos atravessar essa vida numa boa. Mas que diferença vai fazer se o guri andar na rua sem a boina do colégio? E se o rabo-de-cavalo da guria não estiver 100% acordo com a norma, que prejuízo isso vai causar para a imagem dela e do colégio?

Passemos para outra perspectiva das observações sobre a educação militar. No Casarão da Várzea, que é o nome por que é conhecido o Colégio Militar de Porto Alegre, o nome que mais se vê referenciado em placas, portas, salas é Castelo Branco. Às vezes CasteLLo Branco, porque dois L talvez confira mais dignidade. Este herói brasileiro se não torturou pessoalmente (e até acho que sim) mandou torturar ou pelo menos autorizou que se torturasse muita gente. A biblioteca chama-se Castel(l)o Branco e ostenta este quadro na parede atrás das estantes:

*Acervo do autor
*Acervo do autor

Peço que atentem para os detalhes da pintura, as expressões dos personagens, reparem particularmente na imagem do sujeito que está no canto esquerdo inferior. E vejam a descrição que está nesta frase: “Imutáveis, apenas a calça garança e a concentração dos alunos, fruto de cultivado senso de dever e disciplina, tal como hoje.” Honestamente, olhei o quadro ao vivo por vários minutos e a partir de vários ângulos e tudo o que vi foi um bando de jovens deprimidos submetidos a uma situação vexatória, fazendo um exercício sem nenhum sentido, vestindo roupas totalmente inadequadas, ouvindo o que deve ser certamente uma marcha exortando à guerra e à violência, enquanto dois superiores (SUPERIORES) conversam com um ar de… superioridade. Será que a calça garança (seja lá que raio é isso) é que mantém a disciplina e a honra da entidade? Ou será a concentração dos alunos?

Essas observações ligeiras sobre a questão geral do militarismo podem dizer muita coisa sobre o braZil bolsonarista. A imposição do respeito pelo medo e pela ameaça permanente de punição, que é a norma da educação militar, se reproduz no discurso de Bolsonaro. Que outra razão que não medo teriam as instituições para não darem fim a um governo que diariamente promove a violência, a ruptura do pacto democrático, propaga mentiras em rede que colocam em risco a vida de milhões de pessoas, enfim, por que ainda não caiu o governo que já cometeu tantos crimes, inclusive aqueles de responsabilidade, pressuposto para o processo de impeachment? Será que se o staff militar do governo não fosse tão grande e não estivesse em permanente processo de crescimento Bolsonaro ainda seria presidente? Não fosse Hamilton Mourão o vice-presidente, o governo já não teria sido destituído?

Parece cada vez mais evidente que o que sustenta Bolsonaro no poder é a caserna. E, sendo assim, pensando que o militarismo tem grande responsabilidade pela tragédia braZileira de Bolsonaro, não posso não sentir orgulho de ser uma pessoa de terceira categoria.

*Imagem de destaque copiada de: <https://maraba.pa.gov.br/semed-colegio-militar-rio-tocantins-realiza-formatura-da-1a-turma-do-ensino-medio/&gt;. Acesso em: 26 de out. 2021. (A imagem foi editada para que não seja possível identificar nenhuma pessoa.)

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