América Latina, bolsonarismo, Política

Cristóvão ou Jorge, que santo salvará Bolsonaro?

NENHUM!

Os acontecimentos políticos mais recentes na América do Sul escancaram que o braZil de Bolsonaro insiste em andar na contramão da estrada. Essa desorientação pode ter motivos religiosos. A tradição católica consagra o dia 25 de julho a São Cristóvão, que em algum momento foi designado pelo papa da hora para representar os interesses das e dos motoristas no plano divino. Como se sabe, Bolsonaro é terrivelmente evangélico e, portanto, professa fé numa vertente do cristianismo que não reconhece os santos e as santas do panteão católico. Se bem que, se pensarmos melhor, porque deveria aceitar a ajuda de algum intermediário de segundo escalão se ele é o próprio Messias? Crendo ou não nos santos, a vida de Bolsonaro parece estar sob a guarda das Armas de Jorge, já que nem mesmo um vírus letal ou facas pontiagudas podem derrubá-lo.

Em que pese o motivo, se por falta de ajuda espiritual ou mera incompetência, sem descartar a possibilidade de puro banditismo de quem o dirige, o fato é que o carro brasileiro segue em alta velocidade e sem freio ladeira abaixo, ao contrário do que acontece em alguns vizinhos nossos.

Uma breve cronologia (meramente exemplificativa):

  • 8 de novembro de 2020: o nascer do sol viu o povo boliviano reunido na praça Murillo, onde se localiza a sede do governo, celebrando e pedindo a proteção da Pachamama. Naquele momento, a Whipala tremulava forte, altaneira e feliz pelo fim do golpe de 2019 (mais um nessa longa estrada), com a eleição de Luis Arce, professor universitário com histórico político de comprometimento com as causas sociais. O (des)governo brasileiro não mandou representação para a posse;
  • 21 de julho de 2021: Alberto Fernández, que, é bom que se diga, recentemente andou se atrapalhando com palavras e referências, anunciou a reformulação dos registros civis, com um novo DNI (Documento Nacional de Identificação), que vai garantir o direito de não identificação de gênero às pessoas que não se consideram nem homens nem mulheres. Acertando a fala desta vez, o presidente argentino disse: “Existem outras identidades além do homem e da mulher que devem ser respeitadas”. E perguntou: “O que importa para o Estado saber a orientação sexual de seus cidadãos?” Corre à boca pequena que Bolsonaro encaminhou essa pergunta à ministra Damares…
  • 28 de julho de 2021: Pedro Castillo vai tomar posse na presidência do Peru. Se vai fazer um bom governo ou não é coisa que os próximos tempos dirão, mas não é pequeno o simbolismo dele ter derrotado o sangue Fujimori na eleição. Desta vez o Brasil (ou seria o braZiu?) vai estar representado na cerimônia. Bolsonaro designou o general Mourão para o encargo. Um observador incauto poderia pensar que o vice-presidente foi escolhido a fim de prestar um tipo de homenagem ao povo peruano, por conta da sua ancestralidade indígena. Eu tenho cá minhas dúvidas quanto a isso.

Há um fato, porém, que tem uma carga simbólica ainda maior. No ano que vem, quando se espera que pela vacina e conscientização o mundo esteja livre da ameaça do Corona, o Chile vai iniciar um movimento decidido para livrar o país de outro vírus, tão ou mais mortal: o fantasma Pinochet. Em maio foi eleita a assembleia que vai escrever a nova constituição, que substituirá a carta de 1980, um libelo antipovo e lesa-pátria, que só consolidou a política neoliberal do governo fascista e promoveu a entrega do estado às elites econômicas, inclusive, e principalmente, estrangeiras. É bom que nunca esqueçamos que a plataforma entreguista ultraliberal pinochetiana, origem do suicídio de milhares de pessoas que ficaram sem perspectiva diante da destruição das políticas sociais, teve participação efetiva do execrável Paulo Guedes, o “nosso” chicago boy. Mas o Chile está superando essa fase de obscurantismo e violência golpista. Isso se comprova na forte representação popular que terá a constituinte, principalmente dos povos originários. É histórico o fato que a assembleia vai ser presidida por uma Mapuche, a professora universitária Elisa Loncón. Isso mostra que a irresignação do povo diante da opressão pode demorar a mudar o rumo das coisas, afinal as forças do capital são poderosas, mas um dia os ventos mudam de direção. E os ventos que sopram da Cordilheira recolocam o automóvel chileno na estrada da sua história de grandeza.

Imagem copiada de https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2021/07/4936829-elisa-loncon-constituicao-deve-reconhecer-a-pluralidade-do-chile.html

Acervo do autor

Comecei essa conversa com uma efeméride religiosa. Acontece que o mesmo dia de São Cristóvão marca outra celebração, muito mais significativa: 25 de julho é o DIA DA MULHER NEGRA, LATINA E CARIBENHA. No Brasil, a celebração faz referência à Tereza de Benguela. Não vou aprofundar a data e nem a biografia da homenageada, porque implicaria em estender demais o texto. Uma pesquisa na internet é suficiente para conhecer melhor a história dessa celebração e da gigante braSileira que foi Tereza. A relação que faço aqui diz respeito ao que vi no último sábado nas ruas de Porto Alegre: milhares de mulheres negras, caminhando ao lado de outras e outros, e outres, brancas, brancos, negros, negres, indígenas, asiáticas, para derrubar o governo desgovernado de Jair Bolsonaro. O vento sul-americano sopra forte em alguns países vizinhos e aqui está começando a se transformar no furacão que vai varrer o fascismo que resiste no braZil e empurrar o carro que transporta Bolsonaro e seu exército de bandidos para a lata de lixo da história.

¡VIVA EL PUEBLO LATINOAMERICANO!

*Imagem de destaque copiada de https://www.grupoescolar.com/pesquisa/a-america-latina-e-suas-lutas-sociais.html

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Arte, Literatura, Política

Vida e arte, quem imita?

Infelizmente as notícias e os fatos perderam a capacidade de nos surpreender. Há algo que imaginamos não possa acontecer? Não. E tudo acontece.

Uma ONG chamada Rio de Paz fez uma instalação na Praia de Copacabana para homenagear as pessoas – mais de 40 mil pessoas – que perderam a vida em função daquilo que o chefe do Executivo chamou de gripezinha. Mais do que isso, a exposição tinha por objetivo dizer para as pessoas que perderam entes queridxs que essas vítimas não foram esquecidas e que não morreram em vão. Não era uma obra bonita, conforme o que convencionamos chamar bonito por aqui. Mas qual é a beleza da arte? Qual a função da arte? É possível que uma obra de arte não atenda uma função social? Atendendo essa função, a obra deixa de ser artística? Não, não vou propor aqui um debate sobre a estética da arte. É uma boa discussão, mas não é a questão que quero trazer.

Um sujeito chamado Héquel da Cunha Osório, um senhor de 78 anos, bastante jovial, entendeu-se no direito de ir lá e destruir a instalação. “Vou tirar essa aqui. Se eles têm direito de botar… A praia é pública. Eu tenho direito de tirar. Isso aqui é um atentado contra as pessoas. Isso aí é um terror. Tá criando pânico. Usando as cruzes… A cruz de Jesus para aterrorizar o povo. Sacanagem” Eis o argumento.

A afirmação “A cruz de Jesus para aterrorizar o povo.” precisa de uma atenção especial. Ao dizer isso, o senhor Héquel deu mostras de ser cristão. E como cristão deve saber quem foi Jesus (personagem histórico) e porque ele morreu (personagem bíblico). E deve saber também – ou pelo menos deveria saber – porque a crucificação foi o método escolhido para sacrificar o Messias, de acordo com o texto bíblico. Não vou entrar nessa seara da discussão religiosa também, basta por aqui lembrar que a cruz era um instrumento de tortura que o Império Romano utilizava nos piores criminosos. Então, se a ideia da instalação fosse de fato espalhar o terror entre a população, nada mais adequado.

Ao senhor Héquel, porém, não bastava ser naquele momento um imbecil, precisava que as pessoas soubessem da sua imbecilidade. “Alguém viu minha indignação, derrubando cruzes que a esquerda montou em Copacabana hoje? Não resisti”. Com essa chamada ele botou fotos e/ou vídeos nas suas redes sociais. Uma andorinha sozinha não faz verão. E um boi sozinho não faz boiada. Não que o senhor Héquel seja um boi, muito menos uma andorinha. Jamais faria essa comparação. Acho muito inadequado quando as pessoas fazem esse tipo de relação. O que os pobres animais têm a ver com essas coisas, afinal?

O fato me lembrou de uma passagem do livro “Cinzas do Norte”, do Milton Hatoum. Livro maravilhoso. Num dos momentos marcantes da história, Mundo, que é artista, cria uma instalação num bairro que foi aberto pelo coronel-prefeito-dono da cidade em que critica a destruição da floresta e dos povos originários. Chama-se “Campo de Cruzes” essa obra, que tem o seguinte destino: “No dia seguinte, bem cedo fui ao Novo Eldorado. O ‘Campo de Cruzes’ havia sido destruído pela polícia na tarde do feriado.” O relato é feito por Lavo, outro personagem central, e o fato acontece em meio ao nebuloso tempo da ditadura militar, quando autoridades sem autoridade se achavam no direito de fazer esse tipo de coisa. Nossas autoridades sem autoridade não fazem mais isso. Não porque hoje seja melhor, mas porque têm idiotas que fazem o trabalho sujo.

Tanto no livro quanto na praia, o que se escancara é um sentimento muito ruim, que faz as pessoas misturarem tudo, acharem argumentos onde eles são mais improváveis para destilar o seu ódio. O sr. Héquel, provavelmente eleitor do presidente atual, é mais uma prova de que o que levou Bolsonaro ao poder foi o ódio e não o antipetismo. Quando associa à Esquerda o manifesto feito na areia, ele passa por cima de tudo o que aquele trabalho representava, inclusive, e principalmente, do sofrimento humano. Ele simplesmente enxerga naquilo o que o ódio lhe permite ver. O resto é cegado por esse veneno.

Como tantas vezes se diz, a arte é a representação da vida. Casos há, porém, em que o caminho é inverso. Parece que a vida se vale do que o artista criou para ela traçar a sua história. Infelizmente, neste caso, a parte da obra que foi tirada do livro para descer à vida real foi a mais cruel. Pena que isso não nos surpreenda mais.

*Imagem de destaque copiada do site http://serfelizeserlivre.blogspot.com/2019/08/chamas-na-amazonia-cinzas-de-mentiras-e.html, visitado em 16/6/2020.

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Cultura, Música, Republicados

Oro Mimá*

Quando eu era criança

Minha mãe cantava pra mim

Uma canção yorubá

Cantava pra eu dormir

Uma canção muito linda

Que o seu pai te ensinou

Trazida da escravidão

E cantada por seu avô

Era assim:

ORO MIMÁ

ORO MIMAIO

ORO MIMAIO

ABADÔ IEIEO

Essa canção muito antiga

No tempo da escravidão

Os negros em sofrimentos

Cantavam e alegravam seu coração

Presos naquelas senzalas

Dançando ijexá

Aquela canção muito linda

Com os versos em yorubá

Era assim:

ORO MIMÁ

ORO MIMAIO

ORO MIMAIO

ABADÔ IEIEO

Cantava quando era criança

Fiquei homem eu não me esqueci

Aquela canção yorubá

Que não sai de dentro de mim

É assim:

ORO MIMÁ

ORO MIMAIO

ORO MIMAIO

ABADÔ IEIEO

E DEUS É O MA

DEUS É O MAIOR

DEUS É O MAIOR

ME AJUDOU A VENCER

ORO MIMÁ

ORO MIMAIO

ORO MIMAIO

ABADÔ IEIEO

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em /7/2013.

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