bolsonarismo, Esquerda, Política

O Brasil entre a consolidação do fascismo e a retomada do caminho democrático: o que os números mostram

“Meus amigos essa noite eu tive uma alucinação, sonhei com um bando de número invadindo o meu sertão, vi tanta coincidência que eu fiz esta canção.” Assim Raulzito começa a explanação sobre as coisas dos números, que passa pela Bíblia e as crenças populares, o maniqueísmo ocidental e por aí afora.

Eu, a única vez que rodei de ano foi em Matemática. Teve outras, por faltas e desistências, mas isso é outra conversa. A minha administração financeira é caótica e tenho certeza que se não fossem os compassos compostos eu seria um músico razoável. Mas ao contrário do que isso possa indicar, eu gosto dos números e, fundamentalmente, tenho grande respeito e admiração por quem os trata bem, sejam os estatísticos que fazem os cálculos sobre todas as coisas, ou os engenheiros que calculam a exata quantidade de explosivos necessária para abrir um túnel em meio à montanha. Os números dizem coisas interessantes, tanto nas aplicações práticas quanto nas zonas menos racionalmente explicáveis do conhecimento. A Numerologia, gostem ou não, tem estudos sérios. E lembremos que os gregos, Pitágoras e outros, diziam que o Arché, o elemento fundamental, era um número. Talvez não seja bem isso, Filosofia Clássica também não é o meu forte, mas é alguma coisa por aí.

O meu amigo Douglas, letrado e historiador, colabora muito com as ideias colocadas por aqui, mesmo que às vezes ele nem saiba. Dia desses ele disse mais uma frase muito boa. Indo direto ao ponto, como costuma fazer, sem meias palavras: “Se apertou 17 em 2018, que se dane!” Me fez dar uma atenção especial a alguns números. Em 16 o povo sofreu um golpe articulado pelo 15. Já em 18, a facada foi dada pelo 17. Ou seja, os números nos dizem que desde 2016 (pelo menos desde lá) estamos sempre em retrocesso.

Abstrações numéricas à parte, se formos para os números frios e reais não será difícil constatar que a caminhada em marcha à ré é acelerada e se apresenta em regressão geométrica: em relação a 2016, temos hoje muito menos empregos formais, muito menos investimentos em ciência e educação, muito menos comida na mesa, muito menos direitos sociais e muito menos um monte de coisas. Mas, sejamos justos, se a nossa observação tiver outra perspectiva, a constatação é que os números são altos e avançamos nas mesmas proporções: muito mais miséria, muito mais violência de todas as formas, principalmente contra pessoas vulneráveis, muito mais fome, muito mais inflação, muito mais dólares do Chicago Boy nos paraísos fiscais.

O fato é que o número que deveria aumentar exponencialmente é o das pessoas conscientizadas da grande bobagem que fizeram, do crime que cometeram ao apertar 17 em 18. Anuncia-se que o presidente genocida, isso dito pela CPI, vai se filiar a algum partido por esses dias. Talvez até já tenha se filiado. Eu tenderia, no primeiro momento, a dizer que deve ser uma dessas siglas de aluguel. Nenhum partido minimamente sério, mesmo que ultraliberal e com tendências ao fascismo, aceitaria esse sujeito nos seus quadros. Se aceitar, no momento exato da assinatura, mesmo que seja com Bic, o tal partido terá jogado na lixeira da história o mínimo de seriedade possível.

Imagem copiada de: <https://twitter.com/IvanValente/status/1458585513439285249&gt;. Acesso em: 16 de nov. 2021.

Ele andou se oferecendo ao PP, mas a repercussão dentro do partido não foi das melhores. Parece que o caminho é o PL, do Valdemar Costa Neto, que tem uma folha corrida de respeito e é grande aliado do governo ex-17, eleito em 18 para acabar com a corrupção do 13, sem se preocupar com o 45. Nessa miscelânea numérica, o que menos interessa é a sigla, no fim das contas eles, PL e PP, estarão juntos, afinal ambos, como tantos outros, são rebentos da Arena. Arena que, a propósito, uma estudante, cotista social na Universidade de Caxias do Sul, tentou refundar há alguns anos.¹ Parece que não deu muito certo, porque as lideranças do partido novo, quer dizer, Nova Arena andaram se estranhando e o projeto naufragou. O próprio Bolsonaro não conseguiu gente pra endossar a criação de um partido novo. Não o Partido Novo, que este, que se diz novo apesar das velhas práticas, vingou, mas um que não por acaso ele chamaria de Aliança. Voltando aos números, o do PL é 22 e se poderia investigar se isso não é uma tentativa de mudar o padrão. Em 16, o 15; em 18, o 17; o que significa andar pra trás (é a Matemática que diz), então talvez eles queriam se livrar desse estigma e pelo menos ficar na mesma. Só uma hipótese. Mas prefiro pensar a coisa por outro lado.

Bolsonaro precisa de um partido pra tentar a reeleição. Ele já transitou por vários, inclusive o PP, e se elegeu por um alugado, que logo em 2019 chutou. Agora a coisa é um pouco diferente, ao que tudo indica. Diante da tentativa frustrada de ter um partido pra chamar de seu, o que seria uma prova clara de força, o bolsonarismo deve estar pensando que desta vez vai precisar de uma estrutura mais forte. Quando um político tenta a reeleição, especialmente no Executivo, o seu principal cartão de visitas é o trabalho já realizado. Em três anos de mandato presidencial, Bolsonaro só fez autopropaganda negativa, por isso precisa reverter a própria imagem. A chance de fazer isso num partido sem expressão diminui. Por outro lado, um partido maior, mais estruturado, com trajetória consolidada nos estados e municípios e uma ideologia conservadora e autoritária à prova de qualquer refutação, pode dar melhor sustentação ao prosseguimento da implantação da plataforma nazibolsonarista.

Tudo isso se diz e se analisa em tese, muita coisa ainda vai rolar até as eleições. Mas é preciso que as forças de resistência resolvam esse problema, que é muito mais do que meramente matemático. O nome de Lula está longe de ter a aprovação pacífica da Esquerda. Isso mostra uma certa incapacidade do campo democrático de produzir novas lideranças. Estamos sempre às voltas com as mesmas figuras. Entretanto, sem a Rede Globo e o Instituto Millenium no apoio, construir um nome em pouco menos de um ano é impensável. E aqui há outro ponto nevrálgico: qual a ideia da Globo? Pedro Bial lançou um balão de ensaio com o governador gay que não se quer gay governador, mas a coisa não andou, ao que parece. Talvez estejam pensando na refundação da república de curitiba, com os lavajatianos paladinos da cruzada moralizadora. É difícil saber o que passa na casa marinho, mas é preciso atenção, porque a rede mafiomidiática costuma resolver o X da equação a partir dos ajustes na sua matemática privada.

Assim, talvez devamos fazer uma concessão aos aspectos subjetivos e supersticiosos dos números e aceitar o 13 como a possibilidade de travar a escalada fascista. A partir daí, em 2023 começamos a fazer cálculos para traçar a rota rumo ao retorno da democracia. É um caminho longo, não podemos nos iludir, mas em algum momento precisaremos botar o pé nessa estrada. Os números do tempo correm contra nós.

¹(Para maiores informações: https://oximarraoalucinogenocom.wordpress.com/2018/06/12/a-arena-que-nao-e-pro-futebol/)

*Imagem de destaque copiada de: <https://www.metropoles.com/brasil/secretarios-de-saude-lamentam-as-600-mil-mortes-por-covid-negacionismo-perverso&gt;. Acesso em 16 de nov. 2021.

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Política, Republicados

A Arena que não é pro futebol*

Nos últimos tempos, sempre que se fala em Arena neste Continente de São Pedro, a primeira ideia que vem à cabeça é a praça de esportes que está sendo erguida no Humaitá, que, paixões clubísticas à parte, parece ser uma obra muito bem construída. Entretanto, a minha preocupação atual é com outra ARENA, que se costuma grafar com letras maiúsculas.

Acho que todos devem saber, ou pelo menos deveriam, que a Aliança Renovadora Nacional – ARENA, congregou as forças “revolucionárias”, que a partir de 1964 implantaram no Brasil um sistema de trevas, conhecido como ditadura militar, anos de chumbo, regime de exceção etc. Pois esta ARENA era o partido o oficial do regime, que sufocou todas as outras manifestações ideológicas em qualquer nível. A saída para os contrários ao sistema linha dura era trabalhar na clandestinidade ou militar no partido de oposição autorizado pelo comando central da caserna, o MDB – Movimento Democrático Brasileiro. A partir do fim do regime autoritário, a ARENA dissolveu-se e gerou vários partidos, PDS, PFL, PP, DEM etc. O pluripartidarismo vigente no país permite (e até incentiva, em nome de certos interesses) o surgimento de partidos de programa e ideologia confusos, que geram alianças e apoios no mínimo esquisitos (Ana Amélia – PP, apoiando Manuela – PC do B). Essa confusão ideológica faz com que a divisão entre esquerda e direita soe um tanto quanto anacrônica aos meus ouvidos, embora ainda seja necessária, principalmente quando se pretende contextualizar as coisas.

De qualquer forma, no aspecto histórico, temos um partido, ARENA, que sustentou o regime repressivo, e que deu origem a diversas agremiações, dentro daquilo que o Brizola costumava chamar de “filhotes da ditadura”. Pois é esse partido que a jovem Cibele Bumbel Baginski, estudante de Direito da Universidade de Caxias quer reconstruir.

Quando ouvi as primeiras notícias sobre isso, não dei bola. Achei que era coisa de grupos neo-nazistas, neo-fascistas ou outros neos que andam por aí, que são perigosos, evidentemente, e precisam ser combatidos, mas que acabam não tendo o potencial necessário para um ato dessa monta. Todavia, a edição de 13 de novembro de 2102 do Diário Oficial da União, traz nas páginas 202 e 203 da Seção 3, a publicação do Estatuto da ARENA, que é um ato prévio ao recolhimento de assinaturas para a fundação de um partido. É isso mesmo, a guria publicou o estatuto do partido. Está lá, disponível para quem quiser conferir:

http://www.in.gov.br/visualiza/index.jsp?data=13/11/2012&jornal=3&pagina=202&totalArquivos=240

Trabalhei durante um tempo na Biblioteca da Procuradoria Regional do Trabalho (cabe uma referência à excelente Bibliotecária, Sachi, para quem pedi auxílio para encontrar a publicação oficial) e sei que a publicação de uma matéria na imprensa oficial não é algo que se possa considerar muito barato. Há notícias que a Cibele levantou o dinheiro através de campanhas nas redes sociais. Isso mostra a força do projeto e aponta de forma inequívoca para o sucesso da empreitada.

Examinei o estatuto e destaquei alguns pontos sobre os quais acho interessante fazer algumas observações.

O artigo 1º define o partido e é, de certa forma, uma síntese de toda a proposta. O parágrafo 2º diz: “A ARENA possui como ideologia o conservadorismo, nacionalismo e tecno-progressivismo, tendo para todos os efeitos a posição de direita no espectro político, devendo as correntes e tendências ideológicas ser aprovadas pelo Conselho Ideológico (CI), visando a coerência com as diretrizes partidárias.”

A minha amiga Karen Pereira, jovem estudante, que eu conheço apenas pelo mundo virtual, me mandou um mail com um link para um texto de um professor de Relações Internacionais, Leonardo Dutra, publicado no clicrbs (http://wp.clicrbs.com.br/doleitor/2012/11/22/artigo-arena/?topo=13,1,1,,,13), que, entre outras coisas, diz o seguinte: “Apesar de despertar a repulsa de diversas camadas da atual sociedade brasileira acostumada à preponderância de ideias de centro-esquerda, a necessidade de representação do pensamento conservador é tão importante quanto a defesa da mudança na sociedade. É tão danoso para um país um governo de direita onde a esquerda é reprimida quanto um governo de esquerda, onde a direita não existe.”  E ainda: Como explicitado nos últimos pleitos, especialmente nas últimas eleições presidenciais, a inexistência de uma direita com representação política no país deixa sem voz uma parcela significativa da população, partidária da defesa da liberdade entre os cidadãos brasileiros, e pouco simpática ao atual esforço político no poder, que elegeu a igualdade como bandeira principal de seus programas políticos.”

Olha, embora não saiba em que instituição o professor leciona, creio que ele seja uma pessoa esclarecida e com condições de exercer o magistério. Entretanto, parece faltar-lhe uma visão mais acurada do panorama político brasileiro. Como ele pode dizer que o conservadorismo não está representado no país? Ali em cima eu falei apenas de alguns partidos de tendência reacionária. Examinando a composição das casas legislativas pelo Brasil afora, veremos que esses partidos representam uma parte muito significativa delas. O Rio Grande do Sul é representado no Senado por um parlamentar identificado com a esquerda (Paulo Paim), um com histórico de lutas sociais, mas que pertence a um partido que, não sendo o único, é hoje um verdadeiro balaio de gatos (Pedro Simon) e uma senadora direitista até a medula (Ana Amélia Lemos), defensora dos interesses da classe ruralista, que se elegeu graças ao poder do grupo jornalístico em que trabalhou a vida inteira, que não é outro senão a sucursal gaúcha daquele grande conglomerado que ajudou a sustentar o regime “revolucionário” de 1º de abril. Ou seja, um terço da bancada gaúcha do senado é de direita, o outro terço é indefinível e apenas um terço é claramente identificado com políticas marxistas. Fora isso, um dos parlamentares que mais tem espaço na mídia gaúcha é o senhor Onyz Lorenzoni, um dos caciques do DEM. E falo apenas do Rio Grande porque é a realidade que mais domino, mas no Brasil não é diferente, haja vista as pressões da turma do campo acerca do Código Florestal. Falta representatividade à direita? Por favor, professor… As palavras finais do trecho citado metem uma dúvida na cabeça: afinal, o professor acha mesmo bom a existência de um partido que represente os grupos pouco simpáticos “ao atual esforço político no poder, que elegeu a igualdade como bandeira principal de seus programas políticos.” Ora, a igualdade não é a aspiração máxima da sociedade? A quem, interessa, então, barrar um projeto que tem como finalidade aquilo que todos os brasileiros desejam e que é, inclusive, um dos primados da Constituição Federal?

Seguindo adiante no estatuto, vemos que o parágrafo 3º do artigo 1º prevê que “A ARENA, em respeito a convicções ideológicas de Direita,não coligará com partidos que declaram em seu programa e estatuto a defesa do comunismo, bem como as vertentes marxistas (…).” Até aí nenhum problema, a definição é plenamente coerente com os ideais do partido. O problema é o artigo 2º, que no item IV diz que a ARENA tem por objetivos “incentivar o desenvolvimento da cidadania, opinião crítica e social, a formação da personalidade dos jovens (…)” Tudo bem que não coligue com comunista, mas para estimular a opinião crítica e social é necessário que se apresentem de forma clara e isenta as correntes contrárias ao pensamento do partido, e qualquer um que ler com atenção o citado § 3º vai entender que ali está, nas entrelinhas, que o comunismo, o marxismo, a esquerda, enfim, não presta. Coerência: 0!

O item VI do mesmo artigo diz: “Resguardar a soberania nacional, o regime democrático e o pluralismo político de toda a forma de unanimidade de pensamento ou hegemonia política.” Desconfio que a moça e seus seguidores desconhecem o que aconteceu no Brasil entre 64 e 85. Como pode alguém pregar o pluralismo de ideias justamente tentando recriar um partido que elegeu o pensamento único como um de seus mais eficientes mecanismos de manutenção no poder? Tem algo errado aí…

Já na parte do Programa Nacional de Atuação, no item referente aos Direitos Humanos (?), o estatuto diz que o partido vai buscar a “Abolição de quaisquer cotas raciais, de gênero, ou condições ‘especiais’” Bueno, primeiro, falta esclarecer o que são condições “especiais” (está entre aspas no original). Há quem defenda (eu!) e há quem seja contra as cotas. Sem problema. Fica engraçado é quando uma pessoa é contra os programas sociais, propõe a (re)criação de um partido que tem entre seus objetos extingui-los, mas está na universidade por intermédio do PROUNI. Sim, meus amigos, a guria é beneficiária do PROUNI e acha que não tem nenhuma contradição nisso. Eu é que não entendo nada de nada mesmo…

Logo em seguida, o partido defende a maioridade penal aos 16 anos, outro tema polêmico, que não vou abordar agora, e abre um campo para falar de Educação e Cultura. Aí eles querem o “Retorno ao currículo escolar das disciplinas de Educação Moral e Cívica e Latim.” Eu e muitos dos que vão ler este meu escrito, frequentamos o colégio na época da ditadura. Na faculdade, ainda como resquício do governo dos milicos, estudei Realidade Brasileira, que era o nome novo de Estudos de Problemas Brasileiros. Sobre o que eu vi na faculdade, desnecessário falar, porque na época eu já tinha melhores condições de discernimento. Mas na Moral e Cívica eu “aprendi” que o amor à pátria é um “sentimento” imposto e obrigatório, não uma manifestação espontânea; “aprendi”, também, que a família é a célula nuclear da sociedade. Será que a nova Moral e Cívica vai aceitar as uniões homoafetivas como famíliase, portanto, células nucleares da sociedade?

Sobre o Latim, vejam o que disse um dos comentadores do texto do professor, citado ali em cima: “Exceto pela aula de latim (base para entender não só o português corretamente mas também o italiano, francês, espanhol e quiçá o inglês), de resto é puro nonsense.” Gostaria que essa pessoa explicasse um pouquinho melhor o que é entender corretamente o português e no que o latim pode ajudar nessa tarefa. Salvo se o cara pretende ler o Camões ou as coisas escritas antes dele, o latim vai ajudar muito pouco a entender a(s) língua(s) portuguesa(s) falada hoje no Brasil. Ressalvados, é claro, os interesses científicos, como os dos linguistas, mas isso é outra conversa. Talvez para entender este “quicá”, que só ele ainda deve usar, talvez para isso o latim também deva servir. De resto, para estudar inglês, olha, o latim está para o inglês moderno (acho que é esse que interessa, né?!) assim como o bacalhau está para o vatapá. Aliás, essa me lembrou uma que o Doutor Cláudio Moreno me disse em resposta a uma crítica que fiz a uma das suas colunas, há alguns anos: “Essa foi de fazer chorar bacalhau em porta de venda!”)

Por fim, na parte destinada à Soberania Nacional, a “nova” ARENA entende que é necessário “reaparelhar as Forças Armadas, tirando-a do seu sucateamento e pouco efetivo.” A moçoila acha que a caserna está mal equipada e com pouca gente? Fico com medo do que ela dirá se um dia entrar num posto de saúde do SUS…

Bueno, já falei demais. Vou deixar que vocês reflitam sobre essa coisa toda. Antes de encerrar, porém, quero dizer que tive a oportunidade de ler, há alguns dias, o relatório da CPI que apurou a morte do sargento do Exército Manoel Raymundo Soares, que, em 1966, apareceu boiando perto da ponte do Guaíba, com as mãos amarradas pra trás, o que fez com que o episódio ficasse conhecido como “O caso das mãos amarradas”. É considerado o primeiro crime cometido pela ditadura oficialmente reconhecido (não pelos homens da farda, claro, porque eles nunca cometeram nenhum crime). O documento é impressionante, e eu posso falar mais em outra ocasião, mas quero destacar apenas um pequeno trecho, que diz muito sobre o partido que dona Cibele quer trazer de volta. Na época da CPI, que aconteceu antes da instituição do AI-5, logicamente, uma comissão do Instituto dos Advogados do Brasil foi examinar algumas instalações do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e a Ilha do Presídio, onde o sargento Manoel passou mais ou menos cinco meses, e de onde o seu corpo foi arremessado nas águas do Jacuí. O relatório do IAB, enviado à Procuradoria Geral do Estado, atesta, entre outras coisas, que “Nos campos de concentração da Alemanha nazista matava-se com mais humanidade os judeus que eram remetidos às Câmaras de Gás de que o infeliz sargento que foi jogado às águas encapeladas e frias do Rio Guaíba, do sombrio agôsto [grafia original]. A êste [idem] foi primeiro ministrado o ‘tratamento prévio’ que durou de março, data da prisão, a agôsto, data de sua morte.” (Série “Memórias do Parlamento”, agosto de 2011.)

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 27/11/2012.

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