Psicologia, Republicados, Saúde

Treze por cento

Dividi a minha vida em ciclos em relação à bebida. Comecei a beber aos 13 anos. Bebi durante 25. Parei aos 38, portanto há 2, e vou me manter abstêmio pelos próximos 23, para totalizar sem beber os mesmos 25 de aventuras etílicas. Depois disso, estando com 63, vou beber por mais 13, para fechar com a conta inicial e morro aos 76 tranquilo. E bêbado!

Obviamente isso não passa de uma brincadeira. Depois que eu descobri que sóbrio posso fazer as mesmas coisas boas e/ou inofensivas que eu fazia quando embriagado e, sobretudo, que eu consigo evitar as bobagens que o álcool me incentivava a fazer, decidi não beber mais, mesmo que vá adiante dos 76.

Por outro lado, não sou exatamente o que se pode chamar de um cidadão polticamente correto. E, honestamente, ainda bem que não sou. Tem coisas que ficaram muito chatas depois que se decidiu que não se pode atirar o pau no gato. Na musiquinha, claro, porque na real não se deve mesmo. Só que tem algumas coisas que vão além desse negócio de ser socialmente certinho. E é disso que eu quero falar.

Quem me conhece ou já leu algo que eu escrevi por aqui sabe que não sou muito fã da companhia jornalística do seu Maurício. Pelo contrário, tenho ene críticas ao tipo de jornalismo que se pratica na esquina da Ipiranga com a Cascatinha, opa, Érico Véríssimo. Só que também não sou maniqueísta o suficiente pra achar que tudo o que os caras fazem é ruim. Algumas coisas boas ou mais ou menos: o caderno de gastronomia, o caderno de cultura, a coluna do Veríssimo, a coluna do Flávio Tavares, a coluna do Marcos Rolim, a coluna do Percival Puggina (esta serve pra manter o nível de raiva na altura certa), a excelente frase  repetida muitas vezes pelo Túlio Milman: não há o que não haja, enfim, algumas coisas que podem ser bem úteis para quem tem o mínimo de capacidade de identificar a linha editorial de um jornal e fazer uma análise crítica disso, separar as pedras do feijão.

Bueno, nessa história toda, às vezes eu leio a coluna da Mariana Kalil. Fazia algumas semanas que não lia, porque em geral, pra não dizer sempre, ela escreve coisas que não me interessam nenhum um pouco, como a combinação possível entre saia e tênis. Mas no domingo retrasado (02/12) resolvi ler. O título era sugestivo: “Delícia de relax”, com relax grifado. E um quadrinho da Mafalda tomando banho de sol. As três primeiras frases me fizeram arrepiar os cabelos. Ei-las:

“Sigo um ritual diário, quando chego em casa à noite. Neste ritual, sempre está incluída uma taça de vinho tinto. Só consigo relaxar depois desse momento.” 

Esta última frase, então, me obrigou a reler quatro vezes esse início. Os meus conhecimentos não exatamente técnicos do assunto me dizem que uma pessoa que só relaxa depois de um copo de bebida é alcoólatra. Separei a folha para conversar com a minha psicóloga na segunda-feira, inclusive porque queria informações técnicas. Mais adiante relato algumas ideias que trocamos, mas tudo o que eu vou dizer aqui está de acordo com o que ela pensa.

Mais à frente, na coluna, a guria diz o seguinte:

“Não gosto de vinho branco e gosto pouco de vinho rosé. Gostaria mais de vinhos branco e rosé se eu conseguisse raciocinar no outro dia e não clamasse desesperadamente pela chegada da morte súbita.”

Em 25 anos adquiri uma razoável experiência com bebidas, mesmo com vinho (sempre preferi os de garrafão), e posso dizer sem medo de errar que é praticamente impossível para uma pessoa acostumada a beber uma taça por dia ter essa ressaca toda apenas por ter trocado o tipo de uva. Ou seja, pra ter vontade de morrer, ela precisa beber mais do que uma taça de vinho branco ou rosé. Mas isso é de menos. Estamos prestes a entrar num campo altamente minado.

Ela cita uma notícia do New York Times;

“Cresce o número de vínicolas que estão adotando um novo caminho para divulgar o vinho para as mulheres, criando rótulos que podem ser consumidos gelados e promovendo a bebida como uma forma de relaxar dos deveres domésticos familiares e profissionais.”

Aí ela diz assim:

“EU SOU NORMAL!”

E cita uma vinícola, da qual eu não vou fazer comercial, que adotou a ideia para a América do Sul, com uma “grande sacada”:

“Qual é a grande sacada: o teor do álcool é moderado, em torno de 12% [N.A.: MODERADO??], o que possibilita tomá-lo gelado sem alterar o gosto ou o aroma.”

Daqui a pouco vou mostrar porque a vínicola em questão optou pelos “moderados” 12% de graduação alcoólica. Mas quero avançar na questão das citações da moçoila. Como diria o Jorge Ben, opa, Benjor (já disse que sou velho), deu no New York Times:

“Segundo pesquisa do NYT, a Chateau Ste. Michelle, fez um anúncio que explica o meu desespero e o desespero das mulheres em geral: ‘O momento de beber o vinho é o momento em que ela pode se tornar ela mesma – nem mãe, nem colega de trabalho, nem motorista, nem cozinheira.’”

Perguntei para a minha psicóloga o que ela acharia se eu reescrevesse a afirmação ali de cima assim: “Ser mãe, colega de trabalho, motorista, cozinheira é uma merda, então nada mais justo que oferecer uma coisinha para a mulher se livrar desse peso e se tornar por alguns momentos ela mesma, mesmo que esse estado psiquíco cahamado ‘ela mesma’ seja obtido apenas com o auxílio de uma bebida de álcool.” Talvez se o crack fosse liberado a mulher-alvo da propaganda pudesse ser ela mesma gastando bem menos…

Pouco antes de encerrar a coluna, a editora do caderno Donna botou a mesma fotinho de uma moça berrando que ela usou antes pra dizer:

“EU SÓ QUERO RELAXAR!!!”,

dizendo agora:

“EU SÓ QUERO ME TORNAR EU MESMA!!!”

Tá, a partir de agora vamos a algumas coisas que eu pesquisei e outras que eu fiquei sabendo com a ajuda da minha terapeuta, para quem eu perguntei de cara quais os critérios para diagnosticar a alcoolemia. Não vou adentrar por informações muito técnicas, mas o que eu queria saber é se a guria não estava se declarando alcoólatra já no início do texto, quando diz que só relaxa bebendo, embora uma taça apenas. A resposta confirmou o que suspeitava, que fica evidenciada, no mínimo, uma dependência psicológica. Para quem quiser ir mais a fundo, bota no google “Ronaldo Laranjeira”. O cara é o cara do assunto no Brasil e um dos caras do assunto no mundo. Vale a pena dar uma olhada, nem que seja pra confirmar que eu não estou querendo ser o joãozinho-do-passo-certo e nem dar uma moral de politicamente correto. A coisa é científica.

Eu disse que ia explicar o porquê dos 12% do vinho. Acontece que a propaganda de bebida aloólica é proibida no Brasil. Sim, não estou bêbado pra dizer isso, no Brasil não se pode fazer propaganda de bebida alcoólica. É o que diz a Lei nº 9.294, de 15/07/1996 e o Decreto nº 2.018, de 01/10/1996, ambos em plena vigência. Acontece que para os nossos iluminados legisladores, a bebida só é considerada alcoólica, para os efeitos da legislação referida, se o teor de álcool for superior a 13%. Ou seja, será que foi coincidência a fabricação do vinho com 12%?

Lá pelas tantas, na conversa com a minha psicológa, ela falou em xamanismo, uma fração de segundo antes que eu fizesse uma referência ao Castañeda e ao Don Juan, com a história de despertar outros níveis de consciência a partir do uso de certas substâncias, no caso deles, particularmente, o peiote. Pois é isso que parece, porque o jornal, a fábrica de vinho e a nossa colunista falam que a mulher só pode relaxar bebendo, quer dizer, sem o auxílio mágico do vinho, com seus módicos 12%, a vida dela vai continuar em permanente estresse. Ora, quem não quer relaxar? Quem não quer se tornar “eu mesmo”? Então “vamos beber” é a mensagem. Ou não?

Vocês podem até achar que eu estou exagerando ou que isso tudo é bobagem, mas, pensem bem, o caderno Donna é lido por muita gente, inclusive por gente que está em processo de formação da personalidade (minhas filhas, por exemplo). A coluna da Marian Kalil, particularmente, atrai a atenção de um público jovem, porque ela fala de moda, de lugares legais etc., numa linguagem moderna, descolada. Imaginem, então, uma guria de 12, 13 anos lendo que a Mariana Kalil só relaxa com uma taça de vinho e que faz propaganda de vinícolas especializadas na divulgação dessas ideias. Seria exagero imaginar que um dia antes da prova final essa guria chegasse em casa e tomasse um “traguinho” pra relaxar? Mas pai, a Mariana diz que não tem galho, que ela toma uma tacinha de vinho sempre pra ficar relax.”

Concordamos, a minha psicóloga e eu, que essa coluna foi um desserviço à comunidade e é extremamente perigosa, apesar de ser aparentemente ingênua. Aliás, de ingenuidade não há nada nos veículos da rbs. E se os Sirotsky chegaram na Mariana dizendo: “Olha só, tem uma vinícola afim de investir no jornal. Dá uma forcinha na tua coluna.” Alguém duvida?

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 11/12/2012.

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Esportes, Imprensa, Jornalismo, Republicados

Ouro de Tolo (Será?)*

Esperei o fim da olimpíada para escrever um pouquinho sobre o assunto.

Começo dizendo que a virada das gurias do vôlei em cima da Rússia foi uma das coisas mais emocionantes que eu já vi no esporte, com exceção dos jogos históricos do Inter, é claro, mas isso é conversa pra outro blog (interdetodos.blogspot.com). Assim como também me emocionei ao ver um pódio formado por três jamaicanos. Um tapa na cara de quem acha que a Jamaica é só a terra da Grace Jones! E sempre me emociono quando vejo atletas de países pobres, principalmente os africanos, no pódio, e mesmo só pela sua participação, e aqui chamo o Brasil e faço o gancho para o que eu quero falar.

Lá pelas tantas, no meio das competições, antes de um jogo da seleção masculina de futebol, ouvi um comentário do Edegar Shimidt dizendo que o Mano Menezes andava preocupado com a pressão sofrida pelos jogadores por uma medalha de ouro, diante do “fracasso” dos outros esportes.

Em 07 de agosto saiu no Blog do Prévidi uma postagem com o seguinte título: “FIASCO”. Ele começa dizendo: 

Os governos brasileiros jamais deram bola para os esportes – exceção para o futebol.” 

Depois o cara se contradiz:  

O Governo coloca milhões e mais milhões nesses atletas e os resultados são pífios.”

E encerra com esta pérola:

“GOSTARIA DE SABER QUANTO O GOVERNO BRASILEIRO INVESTE NESSES “ATLETAS”??
NA MAIORIA, UNS INÚTEIS!!

Assim mesmo, em letras garrafais e negrito.

Eu botei um comentário lá dizendo que inútil era o comentário dele. Em 10 de agosto ele disse: 

Tem alguns leitores que não gostaram do meu Bom Dia de terça passada, “Fiasco”, sobre as participações dos brasileiros em Olimpíadas.
Fiz uma pergunta fundamental: Apenas nesse século, o que o Governo federal gastou com os atletas? O que Eletrobras, Petrobras, Caixa, Banco do Brasil e muitas outras estatais gastam por ano – não apenas com os atletas, mas os patrocínios nas TVs, que “incentivam os esportes olímpicos”?Ora, por favor, os resultados são pífios.Para terem uma ideia, até hoje de manhã, os Estados Unidos conquistaram 90 medalhas. Apenas nesta Olimpíada.De 1920 até hoje o Brasil conseguiu um pouco mais de 100 medalhas!!Não é um fiasco?Fiz uma pergunta fundamental: Apenas nesse século, o que o Governo federal gastou com os atletas? O que Eletrobras, Petrobras, Caixa, Banco do Brasil e muitas outras estatais gastam por ano – não apenas com os atletas, mas os patrocínios nas TVs, que “incentivam os esportes olímpicos”?Ora, por favor, os resultados são pífios.Para terem uma ideia, até hoje de manhã, os Estados Unidos conquistaram 90 medalhas. Apenas nesta Olimpíada.De 1920 até hoje o Brasil conseguiu um pouco mais de 100 medalhas!!Não é um fiasco?”

Está tudo lá em previdi.blogspot.com.br, para quem quiser conferir.

Vamos examinar essa questão com um pouco mais de cuidado.

A declaração atribuída ao Mano, cuja autenticidade não posso atestar, pois ouvi de terceiro, é simplesmente ridícula. O futebol masculino é o único esporte que deve obrigatoriamente trazer a medalha de ouro para o Brasil. E há diversas razões pra isso. O Brasil é uma verdadeira fábrica de jogadores (isso talvez até atrapalhe um pouco, mas não deveria). Enquanto as outras seleções são, em regra, formadas por jogadores ainda não suficientemente experimentados, em função do limite de idade, o Brasil leva praticamente o que tem de melhor. Neymar, Oscar, Damião, Sandro, etc., são jogadores da seleção principal. A CBF oferece uma estrutura que duvido alguma outra confederação ofereça. Os salários são milionários. Ou seja, eles só tem que se preocupar em jogar futebol. E embora eu tenha dito que o ouro é obrigação, a derrota até poderia acontecer, é do jogo, mas nunca nas condições em que ela invariavelmente acontece, com uma tremenda badalação em cima dos jogadores e tudo mais. Isso que desta vez a plim-plim nem tinha tanto acesso. É preciso dizer ao seu Mano Menezes que essa estratégia de se vacinar dizendo que há muita pressão em cima dos jogadores é muito batida. Eles são muito bem pagos e muito bem tratados para suportar essa pressão. Além do mais, falar em fracasso dos outros esportes, se é que ele realmente falou isso, é, no mínimo, um pouco de falta de ética. Também não sei se ética é o forte do técnico canarinho, porque depois que sucumbiu aos encantos do Corinthians e da máfia da CBF ele mudou radicalmente a sua postura, mas isso também fica pra outra hora.

Vamos ao seu Prévidi. Ele diz que os governos jamais deram bola pro esporte e depois afirma que o governo coloca milhões e mais milhões nesses atletas, que ele chama de inúteis. Alguém entendeu o que ele quis dizer? Ou o governo investe milhões e mais milhões ou não dá bola. As duas coisas são excludentes.

Adiante ele diz que a Caixa Federal, O Banco do Brasil e outras estatais investem fortunas no esporte olímpico. Só que ele não diz pelo menos por cima o quanto seria essa fortuna. Perguntei isso em um comentário, já que ele é tão bem informado, e não obtive resposta. Seria bem mais fácil fazer uma análise do desempenho dos atletas, se foi ou não satisfatório, sabendo quanta grana eles recebem. Se é que recebem, porque todo mundo sabe que os caminhos percorridos pelos recursos destinados a algum setor no Brasil são por estradas muito escuras, o que faz com que muito se perca pelo caminho. Basta perguntar o que se fez da dinheirama arrecada pela finada CPMF, que deveria financiar a saúde.

Quanto aos atletas, entendo eu que com exceção do citado futebol masculino e de alguns esportes de elite, praticados por gente de classes sociais privilegiadas (iatismo, hipismo, tênis), os que chegam a uma olimpíada são vencedores só por isso. Quando eles sobem ao pódio, independentemente do metal, são verdadeiros heróis nacionais. Disseram que o Cielo fracassou, conquistando “só” o bronze. Como “só” o bronze? Esse bronze quer dizer que ele é o terceiro melhor do mundo naquela modalidade! Isso é pouco? Então, tá, e qual foi a diferença entre ele e o primeiro colocado? Tão pequena que a gente não consegue nem contar a fração de segundo que o separou do ouro.

Os atletas dos esportes menos privilegiados fazem esforços astronômicos para chegar a uma olimpíada. Economizam anos a fio, treinam em condições bem adversas, se privam de muita coisa pra chegar lá. Quanto desse dinheiro fabuloso referido pelo seu Prévidi chega realmente nos centros de treinamento? Eu tenho certeza que é muito pouco.

Durante um curto período que antecede os jogos e enquanto eles estão acontecendo, a mídia pinta uma fantasia muito bonita. Quando um atleta de quem não se esperava nada (considerando que chegar à olimpíada pra essa gente é nada) ganha uma medalha de ouro, se fala em incentivo para os atletas jovens, patrocínios, etc., etc. etc. Passada uma semana da festa de encerramento, lá estão os caras treinando nos seus clubes e em geral pagando pra isso. E o investimento milionário? Deve andar em algum bolso ou bolsa por aí. Quem sabe alguma cueca?…

Vamos ver que espaço o seu Prévidi vai dedicar nos seu prestigiado blog aos esportes olímpicos nos próximos quatro anos.

Enquanto isso, na Jamaica…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 16/8/2012.

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