bolsonarismo, Capitalismo, Política

Entre tapas e beijos, a roda da economia gira

Em tempos de séries sobre tudo, ainda há espaço para os filmes? Acho que sim, sempre haverá. Um filme dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio, por exemplo, é um filme que deve ser visto. Na pior das hipóteses será um filme bem feito. Sugiro, então, O Lobo de Wall Street, de 2013, que permite que a gente comece a entender um pouco mais o funcionamento do mundo dos altos negócios.

Mudando de saco pra mala – pero no mucho -, vou transcrever um trecho de um livro que estou terminando de ler:

“Cerca de de dois meses depois disso, pedi ao senhor Hugh o privilégio de alugar meu tempo. (…) após alguma reflexão, ele me concedeu o privilégio e propôs os seguintes termos: eu teria todo o meu tempo para mim, faria todos os contratos com aqueles para quem eu trabalhasse e procuraria meu próprio trabalho; e, em retribuição por essa liberdade, eu deveria lhe pagar 3 dólares ao final de cada semana; arranjar-me com as ferramentas de calafetar e com pensão e roupas. (…) Chova ou faça sol, com ou sem trabalho, ao final de cada semana, o dinheiro deveria ser entregue, ou eu perderia meu privilégio. Esse acordo, será percebido, era decisivamente em favor de meu senhor. Aliviava-o de toda a necessidade de cuidar de mim. Seu dinheiro era certo. Ele receberia todos os benefícios de possuir um escravo sem seus ônus; enquanto eu suportaria todos os ônus de um escravo e sofreria todos os cuidados e ansiedades de um homem livre. Achei que era um negócio ruim. Mas, ruim como era, achei-o melhor do que o antigo método de me arranjar.”

O que está descrito acima aconteceu mais de um século e meio antes do advento da uberização da economia e é o relato feito por Frederick Douglass, no livro “Autobiografia de um escravo”, publicado este ano pela Editora Vestígio, cuja leitura é impactante, dada a riqueza com que o autobiografado detalha os seus tempos de escravidão, nos Estados Unidos do começo do século 19. Esta e outras passagens do livro acabam tratando por linhas diversas de questões da economia, do funcionamento do mercado, de como os interesses das elites econômicas determinam os acontecimentos políticos. Algo que também é retratado no filme de Scorsese.

Os dois séculos e tanto que separam as duas obras, uma de ficção e outra uma biografia verdadeira, mostram que o que muda é apenas a tecnologia e os atores sociais, nunca a lógica do sistema: tudo gira em torno do capital. No Brasil, o processo de colonização teve motivações econômicos, a independência teve motivações econômicos, a abolição do regime escravagista teve motivações econômicas, até mesmo a (nada) heroica Guerra Farroupilha, que está em plena celebração, teve motivações econômicas. Por que hoje as coisas seriam diferentes?

Quando assumiu o governo, o caçador de marajás confiscou a poupança do povo. Não sem antes avisar alguns privilegiados. Por sua vez, o príncipe da privataria, que outrora foi um acadêmico (quase) comunista, promoveu o desmonte de setores importantíssimos da economia do país, fazendo doações ao capital (às vezes nem tão) estrangeiro. Aliás, Raulzito já vinha dizendo desde o final dos 70’s que a solução é alugar o braZil. Já no nosso século, o ativismo judicial e o seu lavajatismo derrubaram uma presidenta e depois elegeram um presidente da república. As motivações? O desmanche dos setores energético, da construção civil, da indústria frigorífica e outros podem dar pistas. Levar ao Planalto um plano de governo cuja agenda econômica privilegia os interesses dos articuladores do ultraliberalismo era mais do que necessário depois de alguns anos de programas políticos com algum comprometimento com causas sociais. Era preciso romper essa estrutura, e para isso, nada melhor que um golpe, honrando a tradição democrática braZileira.

Em se tratando de golpes, a família Marinho tem know-how. As organizações Globo têm atuação decisiva nessa seara desde 64 pelo menos. De uns tempos pra cá, o Jornal Nacional, principal noticioso televisivo do país, pelo menos o mais assistido, bate forte em Bolsonaro. O seu ministério não é poupado, com uma única exceção, justamente a pasta da Economia. Acontece que nos últimos tempos o Chicago Boy vem mostrando falta de força para levar em frente com a rapidez necessária as políticas entreguistas que beneficiam as elites econômicas, que esperavam que tudo fosse mais fácil e ágil, diante do cenário que antecedeu a chegada do governo protofascista ao poder central. Paulo Guedes já não é unanimidade entre o alto empresariado, é questionado pelos banqueiros, enfim, a economia não anda muito bem. Nesse estado de coisas, Bolsonaro passa os últimos dois meses promovendo procissões de morte braZil afora, levando motociclistas enlouquecidos às ruas e estradas, conclamando caminhoneiros a pressionar as instituições, elevando a temperatura no meio rural, literalmente, com as queimadas na Amazônia, e metaforicamente, a partir de discursos virulentos de reis da soja e outros tocadores de berrante golpistas. (Mais um parêntese: aprofunde-se o que há de obscuro no Caso Lázaro.) Um dos objetivos desses movimentos era preparar os grandes atos do dia da independência.

No tão esperado Sete de Setembro, Bolsonaro foi aos palanques com um discurso enfurecido. O alvo principal era Alexandre de Moraes e, por consequência, o STF, que não é outro senão aquele tribunal referido por Romero Jucá na célebre frase: “Com supremo com tudo.” Jucá, como sabe, foi homem forte do governo golpista. A loucura bolsonariana por óbvio teve reflexos na economia, com fuga de investimentos, índice baixo na Bovespa, ações de grandes empresas brasileiras despencando, dólar subindo e tudo aquilo que se sabe que acontece quando a instabilidade política é forte. Apenas dois dias depois, entra em cena o pacificador. Este sujeito, que em 2016 foi declarado inelegível pela Justiça Eleitoral de São Paulo, mas que mesmo assim assumiu a presidência da república pouco depois, e que depois de ganhar o noticiário sendo preso pela PF chefiou uma missão humanitária do braZil em Beirute, preparou o fornilho do cachimbo da paz que selou o armistício entre Bolsonaro e Moraes no Nove de Setembro.

O tempo que vai durar o discurso moderado de Bolsonaro não se sabe, muito menos o namoro com o ministro, mas no aspecto político as repercussões já se fazem notar, com pedido de impeachment engavetado sem prazo, investigação do PGR suspensa, revogação de mandados de prisão e HCs impetrados e por aí vai. Mas isso são detalhes, desdobramentos naturais dos fatos, o mais importante para a felicidade geral da nação é que os investidores que compraram as ações de empresas brasileiras em baixa pela crise provocada por Bolsonaro, abnegados patriotas que amam esta terra acima de tudo (ou seria Deu$?) e que não se importam em perder dinheiro para ajudar o país a sair da crise, devem ter ficado surpresos com o “golpe de sorte” da elevação do Ibovespa e a queda do dólar na quinta-feira. Se vão ganhar algum nessa ciranda econômica, ora é merecido. Ou não é?

Imagem copiada de: <https://www.poder360.com.br/opiniao/governo/o-coronavirus-e-a-crise-que-vai-testar-bolsonaro-e-guedes-escreve-thomas-traumann/&gt;. Acesso em: 14 de set. 2021.

*Imagem de destaque copiada de: <https://steemit.com/pt/@aldenio/com-o-supremo-com-tudo&gt;. Acesso em: 14 de set. 2021.

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bolsonarismo, Necropolítica, Política

O bode na sala: ou ainda mais afinidades entre Trump e Bolsonaro

“Segundo todas as evidências, o _________ foi um dirigente execrável: egocêntrico, eivado de preconceitos, incapaz de empatia, vaidoso, inconsciente de suas responsabilidades. Não parava de mentir, inclusive sobre assuntos facilmente verificáveis, e de se comportar como demagogo, fingindo se preocupar com as classes populares. Usou a função suprema para enriquecer, locupletar os amigos e permitir às corporações refazer as leis conforme seus interesses. E negava a legitimidade de toda eleição cujo resultado não lhe conviesse.”

Se no dia de hoje a elipse da afirmação acima fosse preenchida com Jair Bolsonaro, alguém contestaria, exceto pelo fato do uso do verbo no passado? Engana-se, porém, quem pensa que a descrição original seja sobre o presidente do braZil. Trata-se de um artigo intitulado “Nos EUA, o conspiracionismo dos progressistas”, escrito pelo jornalista Thomas Frank e publicado na edição de agosto do Le Monde Diplomatique Brasil.¹ A análise feita pelo articulista se encaixa perfeitamente em muitos pontos na conjuntura que estamos vivendo no braZil de Bolsonaro.

Mais à frente, Frank diz que Trump foi incompetente e agiu como um idiota ao atacar as forças que o abandonavam. Aqui a relação Bolsonaro-Moro surge naturalmente. Diz ainda o artigo que Trump se apresentava como “um homem forte, sempre pronto a usar seu poder”, mas foi omisso diante da gravidade da pandemia. A diferença para Bolsonaro, neste quesito, é que este não está sendo omisso, antes está usando a crise sanitária para levar adiante a sua necropolítica.

Imagem copiada de: https://istoe.com.br/nome-jair-sobrenome-bolsonaro-acredite-ele-quer-te-matar/. Consultado em: 23/8/2021.

O que o jornalista chama de histeria na guerra contra Donald Trump também acontece por aqui. O domínio dos assuntos antibolsonaristas na grande mídia, Rede Globo, principalmente, impede que outros temas sejam tratados, certamente de forma proposital, pois enquanto se discute por horas, dias, semanas, o risível pedido de impeachment de Bolsonaro contra ministros do STF, a boiada vai passando, de forma metafórica e literal. E se nos EUA essa postura geral permitiu a ascensão de políticos tidos como insignificantes, que só tinham por pauta a oposição a Trump, como observa Thomas Frank, aqui acontece algo em sentido contrário, quando sujeitos absolutamente inexpressivos, como Bibo Nunes, Onyx Lorenzoni e Mário Frias, ganham momentos de fama exatamente por apoiar incondicionalmente o comandante em chefe das forças fascistas.

Frank diz que a elite intelectual estadunidense detectou o eleitorado de Trump formado por pessoas brancas e pobres, cuja motivação era o “medo racista de perderem status”. Por aqui também a manutenção ou a retomada do status quo das elites medianas esteve na base da eleição de Bolsonaro. Quando a socialaite disse que não tinha mais graça ir a Paris porque sempre havia o risco de encontrar o porteiro no aeroporto, e isso foi bem antes de Bolsonaro, estava sintetizando o pensamento da classe média – que se acha classe alta – brasileira. Hoje essa gente deve estar feliz, mesmo que não consiga mais ir a Paris com a mesma frequência, afinal, é melhor turistar menos, mas com a garantia de não ter nenhum encontro indesejado.

Há uma afirmação importantíssima no artigo em análise: “A histeria é também fonte de confusão: desorienta as pessoas e impossibilita o pensamento crítico em um país de individualistas que passam a se comportar como manada.” No nosso contexto político, a histeria é projeto. Do lado do governo fascista, um projeto de sustentação; do lado das corporações, um projeto de desviar a atenção das políticas deletérias ao patrimônio e à autonomia nacional. No fim das contas, claro, estão todos do mesmo lado, porque enquanto são enfatizados os aspectos pitorescos do “caso Sérgio Reis”, a boiada passa (de novo). Em termos de histeria, que se reflete na produção frenética de memes, o que dá mais assunto: a prótese peniana paga pelo povo ou o latifundiário da soja que financia o cauboi braZileiro? É de observar o destaque que o JN dará ao nome de Antonio Galvan nas matérias que tratam das investigações sobre Sérgio Reis. Ou se a Associação Brasileira dos Produtores de Soja – Aprosoja será referida.

Voltando ao caso dos EUA, posso dizer sem medo de errar que Trump X Biden é um caso típico do “bode na sala”. A reeleição do racista genocida seria o pior quadro possível, com poder de transformar o democrata (sim, Biden não é comunista) numa espécie de salvador da humanidade. Lembro, só de passagem, que uma das promessas de campanha da primeira eleição de Obama foi desativar a prisão de Guantánamo. Obama sucedeu George W. Bush, vencendo John McCain, já que o Bush filho não podia mais se reeleger. Biden, que foi vice de Obama, retomou o discurso de desativação da prisão. Alguém acredita nisso?

Trazendo a análise de volta às terras brazilis, a ideia do bode na sala vai impedir, salvo aconteça uma verdadeira revolução popular, qualquer possibilidade de impeachment de Bolsonaro. A Globo seguirá sustentando a narrativa histérica, que passa pela produção de escândalos em nível industrial e a não menos febril confecção de manifestos, notas de repúdio, cartas abertas, tão caras às nossas instituições e grupos de classe. Enquanto isso, os balões de ensaio vão sendo lançados, como o governador gay que não se quer gay governador, cujo ato inaugural da construção da imagem a partir da entrevista no Bial parece ter sido uma explosão de pólvora molhada, que não surtiu o efeito necessário. A mafiomídia deve atentar, porém, que o tempo está passando e talvez o bolsonarismo não tenha um testa de ferro tão burro quanto se quer fazer acreditar.

Disso tudo, o que fica é novamente o alerta que somente o povo tem o verdadeiro poder de mudar o quadro terrível e que se avizinha ainda pior. Delegar esse poder para as instituições é terceirização inútil, que vai servir apenas para dar continuidade à ilusão de que a Rede Globo e o STF estão de fato na trincheira certa.

¹FRANK, Thomas. Nos EUA, o conspiracionismo dos progressistas. Le Monde Diplomatique Brasil. São Paulo, ano 14, n. 169, p. 30-32, ago. 2021.

*Imagem de destaque copiada de: https://horadopovo.com.br/bolsonaro-diz-que-nao-vai-reagir-a-trump-porque-e-o-pobre-da-historia/. Consultado em: 23/08/2021.

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bolsonarismo, Política, Rede Globo

Quando é preciso se aliar com o capeta pra derrubar o diabo

Entre as transformações sociais gigantescas que as últimas décadas apresentaram ao mundo, a televisão é das mais impressionantes. Há algumas décadas, as redes eram conhecidas pelo número (canal 12, canal 5 etc.) e os aparelhos transmitiam imagens em preto e branco, muitas vezes sujeitas a interferências que se resolviam com absoluta criatividade, como botar um pedaço de bombril na ponta da antena para estabilizar a imagem. O advento das parabólicas promoveu uma pequena revolução no mundo das transmissões televisivas. Além de garantir uma boa qualidade de imagem (talvez menos do que razoável nos padrões atuais), uma antena dessas possibilitava assistir programas de outros lugares, à vezes até bem remotos, de outros países, por exemplo. Logo em seguida vieram os serviços de assinatura, pelos quais se pagava para ter acesso a uma programação de maior qualidade. Lembro de uma entrevista que li com o Ratinho anos atrás em que dizia que o negócio dele era apresentar programa “povão” mesmo e quem quisesse programação de qualidade deveria assinar “tv a cabo”. Em um sistema que poderia se dizer, por analogia, de dupla ou tripla tributação, apareceram logo os conteúdos disponibilizados em pay-per-view, literalmente “pague pra ver”. Além de pagar a conta da luz, a pessoa precisava assinar um serviço de transmissão especial, a tal tv a cabo do Ratinho, e, caso quisesse um conteúdo mais específico, tinha que desembolsar mais uma grana para aderir ao pay-per-view. Hoje já estamos em outra fase, com as plataformas de streaming (Netflix, Amazon, Globoplay). Sabe-se lá o que vem pela frente.

Nesse tempo todo, uma coisa não mudou: a Rede Globo continua nadando de braçada no mar da grande mídia. E essa hegemonia faz com que nada lhe escape. Digo isso porque vejo muita gente maravilhada com a cruzada anti-bolsonarista promovida pela rede. Eu me paro muitas vezes em frente à tv me deliciando com os ataques do apresentador e editor do Jornal Nacional ao governo bolsonaro. E acho mesmo que isso deve ser saudado, porque quando o inimigo é o diabo, lutar do lado do capeta não é de todo ruim. Mas, como diria Raulzito, conserve seu medo. Basta reparar com alguma atenção e um olhar mais crítico na linha editorial proposta pelo jornal televisivo de maior audiência no país para perceber que, no meio do tiroteio desferido incessantemente contra Bolsonaro, Weintraub (100 mil mensais no Banco Mundial…), Araújo, Salles, enfim, na artilharia contra (nem) todo o séquito do governo bolsonaro, falta um alvo. Nunca, digo de novo e destaco, NUNCA há qualquer crítica ao chicago boy Paulo Guedes e à plataforma econômica do governo fascista. Então eu lembro que naquela reunião ministerial que deveria derrubar a república, o próprio Bolsonaro disse que não passaria pano pra nenhum ministro. Nenhum, com exceção daquela figura quase caricatural, que bem poderia estrelar um filme do Woody Allen (como tantas neste desgoverno), porque, segundo o próprio genocida presidente, com este não precisa se preocupar.

Imagem copiada de https://www.jornalgrandebahia.com.br/2018/11/governo-bolsonaro-paulo-guedes-deve-assumir-funcoes-do-trabalho-e-aniquilar-direitos-trabalhistas-e-sociais/

Num tempo em que as instituições ainda tentavam funcionar nos parâmetros republicanos, no já longínquo 1994, um constrangido Cid Moreira, que já foi a própria Voz de Deus, leu, no mesmo Jornal Nacional, um texto escrito por Leonel Brizola, que por determinação judicial conquistou o direito de se defender das acusações que a rede lhe fazia em tempo integral e que certamente o impediram de ter exercido o cargo máximo da república (a história se repetindo). Aqui uma boa matéria sobre o fato, inclusive com o vídeo: http://memorialdademocracia.com.br/card/quando-a-justica-vergou-a-tv-globo

Passado um quarto de século, a luta anticorrupção (?) e a plataforma ultraliberal foram duas colunas de sustentação da eleição de Bolsonaro. Enquanto o discurso de mãos limpas do presidente da república de curitiba falava direto aos corações e mentes da classe mé(r)dia, sedenta pelo sangue da bandidagem, (do colarinho branco e da favela, com preferência para o da última), a plataforma entreguista de Guedes garantia o apoio da elite empresarial, que congrega a tchurma do agronegócio (agro é pop…), da educação, da exploração dos recursos energéticos e outras, com as quais a Rede Globo mantém sólidas relações. A bem da verdade, nessas e em outras áreas, a Globo tem muito mais do que boas relações, tem participação direta, como mostra a série de reportagens veiculadas no Le Monde Diplomatique Brasil em 2018 (https://diplomatique.org.br/investigando-os-donos-da-midia-no-brasil-pos-golpe/).

Tenho pra mim, e converso com pessoas que pensam mais ou mesmo da mesma forma, que os governos Lula e Dilma passaram muito longe do comunismo, e isso é uma obviedade, mas que sequer podem ser considerados modelos de governos de esquerda. Para comprovar isso, basta ver que nomes como Joaquim Levy, Henrique Meirelles, Katia Abreu, Jorge Gerdau Johanpetter, o próprio vice de Lula, José Alencar, entre outros representantes da elite, tiveram trânsito livre e posições de destaque nos anos em que o PT ocupou o Planalto. Sei que alguém dirá, e com certa razão, que é preciso fazer alianças, ceder aqui e ali, abrir mão de algumas coisas em troca de outras mais importantes, enfim, é preciso fazer política em sentido amplo para governar um país. E não tenho dúvidas que os governos de Lula e Dilma foram disparadamente os melhores da história do Brasil. Só que governaram para os dois extremos, o dos muito ricos (os bancos lucraram horrores) e o dos muito pobres (milhões de pessoas deixaram a linha da pobreza absoluta), deixando em segundo plano os interesses mais imediatos de quem não estava em nenhuma dessas pontas. Esse erro acabou sendo fatal, pois na onda das Jornadas de Junho, cujas pautas eram as da classe média (agora sem r no meio), a direita e, pior, a extrema direita, ou pior ainda, o fascismo, soube surfar e o resultado tem nome, Golpe, e sobrenome, Messias Bolsonaro. Da mesma forma que numa concepção clássica do marxismo o socialismo deveria preparar o terreno e fazer a transição para o comunismo, o governo golpista de Michel Temer apenas limpou o mato (e a mata) para o nazifascismo bolsonarista.

Agora, a mesma Globo que vetou Brizola e elegeu Bolsonaro é vista como a salvação da lavoura. De que vai salvar a lavoura há pouca ou nenhuma esperança, mas que ajudará, como ajuda sempre e muito, os donos da lavoura, disso não há nenhuma dúvida. Assim, que aceitemos a ajuda da rede pra derrubar Bolsonaro, mas que fiquemos com as orelhas em pé, sabendo que a turma do Bonner não dá ponto sem nó e que as estratégias que usou no passado vão continuar na ordem do dia neste novo… Millenium.

*Imagem de destaque copiada de https://www.otvfoco.com.br/globo-coloca-bolsonaro-no-bbb-e-coloca-presidente-no-paredao-durante-noite-inteira-na-tv/

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Política

O Bozo é apenas um palhaço

famiglia

Esclarecimento inicial: ao dizer que o Bozo é apenas um palhaço, não quis de maneira alguma desmerecer a profissão. Pelo contrário, como se verá adiante, a intenção é justamente fazer um desagravo ao palhaço, cujo nome é frequentemente associado ao ser que (des)governa o Brasil (deveria dizer Brazil?) atualmente, e consequentemente a todos os palhaços e palhaças do Brasil.

Uma tradição do cristianismo diz que os fiéis não devem pronunciar o nome do diabo. No Brasil essa orientação deu origem a um sem número de apelidos para o Coisa Ruim: Maligno, Sete-Peles, Inimigo, Tinhoso, Capeta, Capiroto, Peralta, Desgraçado, Maldito, Anjo-Mau, Pai-da-Mentira, Chifrudo, Mafarrico e por aí afora. 

Talvez por motivos semelhantes, e não sem razão, muitas pessoas evitam pronunciar e até escrever o nome do presidente da república. Bozo é um apelido que se consagrou na linguagem popular. É uma tremenda sacanagem com o palhaço Bozo que o seu nome seja usado para referir o fascista que se instalou no Planalto.  Porém, mais do que correr o risco de desagradar ao criador do personagem palhaço, não chamar Bolsonaro pelo próprio nome cria um certo distanciamento entre o homem e o personagem, que neste caso é um palhaço no mau sentido. 

O hábito de dar apelidos às pessoas e coisas é caro ao povo brasileiro e em geral advém de uma manifestação de carinho. Por vezes o próprio apelido é apelidado: Zezinho é Zé, que já é o apelido de José. Em geral quando se chama um José de José há uma conotação mais formal. Na intimidade, o José é simplesmente Zé, e se ela for ainda maior, vira Zezinho. Mas quando a mãe está braba, ela chama o sujeito pelo nome verdadeiro. Se for Zé e tiver outro nome junto, vão os dois: José Carlos! Se a gravidade da chamada for extrema, vai até o sobrenome: José Carlos de Tal!!! 

Há casos em que os apelidos são usados para associar elementos negativos ao verdadeiro nome. A Ação Penal 470 ficou conhecida no Brasil e no mundo por Mensalão. Mensalão é um nome pesado. Em outros momentos o efeito é contrário e se transforma praticamente em eufemismo. Chamar de “rachadinha” o esquema de corrupção praticado por muitos (e muitas) agentes políticos brasileiros, inclusive por Flávio Bolsonaro, de certa forma atenua a gravidade do crime. No mínimo alivia um pouco a carga.  

Temos, você e eu, algum carinho pelo presidente da república ou qualquer intenção de melhorar a imagem dele? Não. Então por que vamos chamá-lo pelo nome de um personagem criado para o público infantil, que tende a despertar certa simpatia nas pessoas? Por outro lado, Bolsonaro não precisa de nenhum apelido para tornar a sua imagem ainda mais nojenta e asquerosa. Então, se começarmos a chamar Bolsonaro de Bolsonaro, é provável que em pouco tempo este nome esteja inapelavelmente associado ao que ele de fato representa: um clã de bandidos. 

O Professor João Cezar de Castro Rocha* vem estudando o bolsonarismo há algum tempo, em especial a guerra cultural, que é por onde se consolida esse projeto de poder, cuja estrutura de linguagem foi criada e sistematizada por Olavo de Carvalho, muitas vezes menosprezado, talvez em face da caricaturização que ele tratou de fazer de si próprio ao longo do tempo, mas que é, na verdade, um homem de inteligência superior, podendo-se mesmo dizer que o bolsonarismo seria melhor caracterizado se chamado de olavismo. Estes dois termos, caricaturização e caracterização, são centrais no pensamento do Professor João Cezar, que defende que devemos justamente passar de uma à outra, ou seja, devemos deixar de tratar o bolso-olavismo, e os próprios personagens (família Bolsonaro, Olavo de Carvalho, ministros aloprados do governo etc.), como caricaturas e passar a caracterizá-los como instrumentos de uma plataforma política nefasta, que tem na produção de escândalos e notícias absurdas um dos mais fortes artifícios para levar em frente a sua implementação. Enquanto o povo se distrai com as pataquadas de Weintraubs e Ernestos Araújos da vida, o chicago boy Paulo Guedes vai passando a boiada do seu plano econômico que atende aos interesses das elites, sem ser importunado nem mesmo pelos neopaladinos da justiça social que apresentam o Jornal Nacional. (Quantas vezes o ministro da economia e a sua pasta foram criticados no telejornal mais assistido no Brasil?)

Chega de dourar a pílula, porque é chegada a hora de dar nomes aos bois, mesmo que eles sejam palhaços (novamente no mau sentido): Bozo é Bozo; Bolsonaro é Bolsonaro. 

*Para conhecer ou aprofundar o pensamento do Professor João Cezar de Castro Rocha, algo que recomendo muito, pode-se começar por aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=kMRFjMDfpMs 

(Foto de destaque copiada de https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50810066, visitado em 7/6/2021)

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