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Quando é preciso se aliar com o capeta pra derrubar o diabo

Entre as transformações sociais gigantescas que as últimas décadas apresentaram ao mundo, a televisão é das mais impressionantes. Há algumas décadas, as redes eram conhecidas pelo número (canal 12, canal 5 etc.) e os aparelhos transmitiam imagens em preto e branco, muitas vezes sujeitas a interferências que se resolviam com absoluta criatividade, como botar um pedaço de bombril na ponta da antena para estabilizar a imagem. O advento das parabólicas promoveu uma pequena revolução no mundo das transmissões televisivas. Além de garantir uma boa qualidade de imagem (talvez menos do que razoável nos padrões atuais), uma antena dessas possibilitava assistir programas de outros lugares, à vezes até bem remotos, de outros países, por exemplo. Logo em seguida vieram os serviços de assinatura, pelos quais se pagava para ter acesso a uma programação de maior qualidade. Lembro de uma entrevista que li com o Ratinho anos atrás em que dizia que o negócio dele era apresentar programa “povão” mesmo e quem quisesse programação de qualidade deveria assinar “tv a cabo”. Em um sistema que poderia se dizer, por analogia, de dupla ou tripla tributação, apareceram logo os conteúdos disponibilizados em pay-per-view, literalmente “pague pra ver”. Além de pagar a conta da luz, a pessoa precisava assinar um serviço de transmissão especial, a tal tv a cabo do Ratinho, e, caso quisesse um conteúdo mais específico, tinha que desembolsar mais uma grana para aderir ao pay-per-view. Hoje já estamos em outra fase, com as plataformas de streaming (Netflix, Amazon, Globoplay). Sabe-se lá o que vem pela frente.

Nesse tempo todo, uma coisa não mudou: a Rede Globo continua nadando de braçada no mar da grande mídia. E essa hegemonia faz com que nada lhe escape. Digo isso porque vejo muita gente maravilhada com a cruzada anti-bolsonarista promovida pela rede. Eu me paro muitas vezes em frente à tv me deliciando com os ataques do apresentador e editor do Jornal Nacional ao governo bolsonaro. E acho mesmo que isso deve ser saudado, porque quando o inimigo é o diabo, lutar do lado do capeta não é de todo ruim. Mas, como diria Raulzito, conserve seu medo. Basta reparar com alguma atenção e um olhar mais crítico na linha editorial proposta pelo jornal televisivo de maior audiência no país para perceber que, no meio do tiroteio desferido incessantemente contra Bolsonaro, Weintraub (100 mil mensais no Banco Mundial…), Araújo, Salles, enfim, na artilharia contra (nem) todo o séquito do governo bolsonaro, falta um alvo. Nunca, digo de novo e destaco, NUNCA há qualquer crítica ao chicago boy Paulo Guedes e à plataforma econômica do governo fascista. Então eu lembro que naquela reunião ministerial que deveria derrubar a república, o próprio Bolsonaro disse que não passaria pano pra nenhum ministro. Nenhum, com exceção daquela figura quase caricatural, que bem poderia estrelar um filme do Woody Allen (como tantas neste desgoverno), porque, segundo o próprio genocida presidente, com este não precisa se preocupar.

Imagem copiada de https://www.jornalgrandebahia.com.br/2018/11/governo-bolsonaro-paulo-guedes-deve-assumir-funcoes-do-trabalho-e-aniquilar-direitos-trabalhistas-e-sociais/

Num tempo em que as instituições ainda tentavam funcionar nos parâmetros republicanos, no já longínquo 1994, um constrangido Cid Moreira, que já foi a própria Voz de Deus, leu, no mesmo Jornal Nacional, um texto escrito por Leonel Brizola, que por determinação judicial conquistou o direito de se defender das acusações que a rede lhe fazia em tempo integral e que certamente o impediram de ter exercido o cargo máximo da república (a história se repetindo). Aqui uma boa matéria sobre o fato, inclusive com o vídeo: http://memorialdademocracia.com.br/card/quando-a-justica-vergou-a-tv-globo

Passado um quarto de século, a luta anticorrupção (?) e a plataforma ultraliberal foram duas colunas de sustentação da eleição de Bolsonaro. Enquanto o discurso de mãos limpas do presidente da república de curitiba falava direto aos corações e mentes da classe mé(r)dia, sedenta pelo sangue da bandidagem, (do colarinho branco e da favela, com preferência para o da última), a plataforma entreguista de Guedes garantia o apoio da elite empresarial, que congrega a tchurma do agronegócio (agro é pop…), da educação, da exploração dos recursos energéticos e outras, com as quais a Rede Globo mantém sólidas relações. A bem da verdade, nessas e em outras áreas, a Globo tem muito mais do que boas relações, tem participação direta, como mostra a série de reportagens veiculadas no Le Monde Diplomatique Brasil em 2018 (https://diplomatique.org.br/investigando-os-donos-da-midia-no-brasil-pos-golpe/).

Tenho pra mim, e converso com pessoas que pensam mais ou mesmo da mesma forma, que os governos Lula e Dilma passaram muito longe do comunismo, e isso é uma obviedade, mas que sequer podem ser considerados modelos de governos de esquerda. Para comprovar isso, basta ver que nomes como Joaquim Levy, Henrique Meirelles, Katia Abreu, Jorge Gerdau Johanpetter, o próprio vice de Lula, José Alencar, entre outros representantes da elite, tiveram trânsito livre e posições de destaque nos anos em que o PT ocupou o Planalto. Sei que alguém dirá, e com certa razão, que é preciso fazer alianças, ceder aqui e ali, abrir mão de algumas coisas em troca de outras mais importantes, enfim, é preciso fazer política em sentido amplo para governar um país. E não tenho dúvidas que os governos de Lula e Dilma foram disparadamente os melhores da história do Brasil. Só que governaram para os dois extremos, o dos muito ricos (os bancos lucraram horrores) e o dos muito pobres (milhões de pessoas deixaram a linha da pobreza absoluta), deixando em segundo plano os interesses mais imediatos de quem não estava em nenhuma dessas pontas. Esse erro acabou sendo fatal, pois na onda das Jornadas de Junho, cujas pautas eram as da classe média (agora sem r no meio), a direita e, pior, a extrema direita, ou pior ainda, o fascismo, soube surfar e o resultado tem nome, Golpe, e sobrenome, Messias Bolsonaro. Da mesma forma que numa concepção clássica do marxismo o socialismo deveria preparar o terreno e fazer a transição para o comunismo, o governo golpista de Michel Temer apenas limpou o mato (e a mata) para o nazifascismo bolsonarista.

Agora, a mesma Globo que vetou Brizola e elegeu Bolsonaro é vista como a salvação da lavoura. De que vai salvar a lavoura há pouca ou nenhuma esperança, mas que ajudará, como ajuda sempre e muito, os donos da lavoura, disso não há nenhuma dúvida. Assim, que aceitemos a ajuda da rede pra derrubar Bolsonaro, mas que fiquemos com as orelhas em pé, sabendo que a turma do Bonner não dá ponto sem nó e que as estratégias que usou no passado vão continuar na ordem do dia neste novo… Millenium.

*Imagem de destaque copiada de https://www.otvfoco.com.br/globo-coloca-bolsonaro-no-bbb-e-coloca-presidente-no-paredao-durante-noite-inteira-na-tv/

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Política

O Bozo é apenas um palhaço

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Esclarecimento inicial: ao dizer que o Bozo é apenas um palhaço, não quis de maneira alguma desmerecer a profissão. Pelo contrário, como se verá adiante, a intenção é justamente fazer um desagravo ao palhaço, cujo nome é frequentemente associado ao ser que (des)governa o Brasil (deveria dizer Brazil?) atualmente, e consequentemente a todos os palhaços e palhaças do Brasil.

Uma tradição do cristianismo diz que os fiéis não devem pronunciar o nome do diabo. No Brasil essa orientação deu origem a um sem número de apelidos para o Coisa Ruim: Maligno, Sete-Peles, Inimigo, Tinhoso, Capeta, Capiroto, Peralta, Desgraçado, Maldito, Anjo-Mau, Pai-da-Mentira, Chifrudo, Mafarrico e por aí afora. 

Talvez por motivos semelhantes, e não sem razão, muitas pessoas evitam pronunciar e até escrever o nome do presidente da república. Bozo é um apelido que se consagrou na linguagem popular. É uma tremenda sacanagem com o palhaço Bozo que o seu nome seja usado para referir o fascista que se instalou no Planalto.  Porém, mais do que correr o risco de desagradar ao criador do personagem palhaço, não chamar Bolsonaro pelo próprio nome cria um certo distanciamento entre o homem e o personagem, que neste caso é um palhaço no mau sentido. 

O hábito de dar apelidos às pessoas e coisas é caro ao povo brasileiro e em geral advém de uma manifestação de carinho. Por vezes o próprio apelido é apelidado: Zezinho é Zé, que já é o apelido de José. Em geral quando se chama um José de José há uma conotação mais formal. Na intimidade, o José é simplesmente Zé, e se ela for ainda maior, vira Zezinho. Mas quando a mãe está braba, ela chama o sujeito pelo nome verdadeiro. Se for Zé e tiver outro nome junto, vão os dois: José Carlos! Se a gravidade da chamada for extrema, vai até o sobrenome: José Carlos de Tal!!! 

Há casos em que os apelidos são usados para associar elementos negativos ao verdadeiro nome. A Ação Penal 470 ficou conhecida no Brasil e no mundo por Mensalão. Mensalão é um nome pesado. Em outros momentos o efeito é contrário e se transforma praticamente em eufemismo. Chamar de “rachadinha” o esquema de corrupção praticado por muitos (e muitas) agentes políticos brasileiros, inclusive por Flávio Bolsonaro, de certa forma atenua a gravidade do crime. No mínimo alivia um pouco a carga.  

Temos, você e eu, algum carinho pelo presidente da república ou qualquer intenção de melhorar a imagem dele? Não. Então por que vamos chamá-lo pelo nome de um personagem criado para o público infantil, que tende a despertar certa simpatia nas pessoas? Por outro lado, Bolsonaro não precisa de nenhum apelido para tornar a sua imagem ainda mais nojenta e asquerosa. Então, se começarmos a chamar Bolsonaro de Bolsonaro, é provável que em pouco tempo este nome esteja inapelavelmente associado ao que ele de fato representa: um clã de bandidos. 

O Professor João Cezar de Castro Rocha* vem estudando o bolsonarismo há algum tempo, em especial a guerra cultural, que é por onde se consolida esse projeto de poder, cuja estrutura de linguagem foi criada e sistematizada por Olavo de Carvalho, muitas vezes menosprezado, talvez em face da caricaturização que ele tratou de fazer de si próprio ao longo do tempo, mas que é, na verdade, um homem de inteligência superior, podendo-se mesmo dizer que o bolsonarismo seria melhor caracterizado se chamado de olavismo. Estes dois termos, caricaturização e caracterização, são centrais no pensamento do Professor João Cezar, que defende que devemos justamente passar de uma à outra, ou seja, devemos deixar de tratar o bolso-olavismo, e os próprios personagens (família Bolsonaro, Olavo de Carvalho, ministros aloprados do governo etc.), como caricaturas e passar a caracterizá-los como instrumentos de uma plataforma política nefasta, que tem na produção de escândalos e notícias absurdas um dos mais fortes artifícios para levar em frente a sua implementação. Enquanto o povo se distrai com as pataquadas de Weintraubs e Ernestos Araújos da vida, o chicago boy Paulo Guedes vai passando a boiada do seu plano econômico que atende aos interesses das elites, sem ser importunado nem mesmo pelos neopaladinos da justiça social que apresentam o Jornal Nacional. (Quantas vezes o ministro da economia e a sua pasta foram criticados no telejornal mais assistido no Brasil?)

Chega de dourar a pílula, porque é chegada a hora de dar nomes aos bois, mesmo que eles sejam palhaços (novamente no mau sentido): Bozo é Bozo; Bolsonaro é Bolsonaro. 

*Para conhecer ou aprofundar o pensamento do Professor João Cezar de Castro Rocha, algo que recomendo muito, pode-se começar por aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=kMRFjMDfpMs 

(Foto de destaque copiada de https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50810066, visitado em 7/6/2021)

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