bolsonarismo, Política

FALTA ENVIDO!!

Numa das modalidades do Truco, uma dupla pode pedir a Falta Envido. A dupla adversária tem duas opções: não aceitar e perder um ponto, ou comprar a parada e ir pra disputa, caso em que a dupla vencedora ganhará pontos equivalentes aos que faltam para a que está na frente vencer o jogo. Pode parecer meio complicado, mas, como todo jogo de cartas, depois de algumas partidas a gente vai pegando a manha. Mas como no Xadrez, em que saber mover as peças não significa saber jogar, também no Truco não basta conhecer as regras determinadas, porque só a vivência do jogo vai fazer o bom jogador ou a boa jogadora. E do mesmo jeito que acontece no Pôquer, saber blefar é certamente o maior diferencial para ganhar. A Falta Envido, na perspectiva de quem está perdendo o jogo, é um ato de desespero. É o tudo ou nada. Se uma dupla está com 10 pontos à frente, por exemplo, faltando pouco para vencer, a dupla que está atrás pede a Falta Envido a cada rodada, mesmo sem ter jogo (blefe), contando que a outra vai fugir e assim poderá ir avançando ponto por ponto. Caso perca, azar, já estava perdido mesmo…

Ontem Bolsonaro pediu Falta Envido. E, como manda a tradição do truco, gritando.

Os sinais de isolamento estão cada vez mais evidentes. Faz tempo que Bolsonaro e Mourão já não falam a mesma língua, se é que algum dia falaram. O general (ou marechal?) esteve na Expointer na véspera do Dia Sete e exaltou o avanço no número de pessoas vacinadas, que foi fundamental para a realização da Feira com a presença de público, ao lado da adoção dos protocolos sanitários, como observou. Bolsonaro sabota a vacina, incentiva o não uso da máscara, faz questão de promover aglomerações, então a manifestação do vice-presidente teve tom notório de provocação.

Em algum momento de ontem, Mourão disse que por questões éticas não comentaria as declarações de Bolsonaro, como também já evitou em momentos anteriores. É evidente que ao se valer de princípios éticos para não comentar declarações de outra pessoa, está dizendo que é contrário a essas falas. Muitos pares de caserna de Mourão têm adotado a mesma postura, fazendo questão de se distanciar das loucuras bolsonaristas e desvincular as Forças Armadas das diatribes golpistas do estrategicamente tresloucado presidente.

Brazilian President Jair Bolsonaro (L) and his Vice-President Hamilton Mourao attend a ceremony marking the first 100 days of their government at Planalto Palace in Brasilia, on April 11, 2019. (Photo by EVARISTO SA / AFP)
Imagem copiada de: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/breves/julgamento-tse-cassacao-bolsonaro-e-mourao/. Acesso em: 8/9/2021.

O fato de Mourão não ter estado ao lado de Bolsonaro nos palanques que o presidente frequentou ontem, assim como a ausência de outros ministros da linha de frente, mostra que os atos sempre foram articulados pró-bolsonaro e não pró-governo. Aceitar o contrário seria reconhecer que Mourão foi isolado do governo ou que não se importa com os rumos que ele vai tomar, mas a verdade é que quem deixou o governo é Bolsonaro. Se bem que para que isso seja verdade é preciso aceitar que algum dia Bolsonaro esteve à frente do governo, que é exatamente onde ele nunca esteve, uma vez que governa só para o seu cercadinho.

Bolsonaro foi o sujeito certo na hora certa que as elites encontraram para ocupar o espaço deixado pelas Esquerdas nas Jornadas de 2013, quando não souberam – ou acharam desnecessário – disputar o protagonismo dos atos e permitiram que se consolidasse o discurso que é melhor sem partidos. Bolsonaro se adequou tanto para ser a bola da vez que até este requisito cumpriu, sendo eleito por um partido de aluguel.

Não obstante seja um fantoche, Bolsonaro não é um imbecil. Um dos fatos que mais ocupou os/as analistas ontem, e certamente continuará hoje e pelos próximos dias, é a “convocação” pública do Conselho da República. Por que ele largou isso de forma quase aleatória, em meio a um discurso repleto de absurdos, em Brasília, e não repetiu quando se dirigiu a um público bem maior em São Paulo? Repito, Bolsonaro não é imbecil, e lançou um anzol para os peixes da grande mídia. Sabia que as produções dos jornais sairiam em desabalada corrida atrás das assessorias das autoridades que integram o Conselho da República, demandando precioso tempo nisso, e que os/as comentaristas entrevistariam juristas, cientistas políticos e toda a sorte de gente que adora ocupar o palanque midiático explicando durante horas coisas de importância bem menor. Tradução: cortina de fumaça.

Paralelamente, Bolsonaro acirrou o discurso de ódio e exortou o seu exército a atos extremos. Quando diz que não vai cumprir as decisões de Alexandre de Moraes, ele sabe que não está se referindo ao ministro de forma singular, mas sim ao Judiciário na totalidade. E, dizendo isso, sabe que a imbecilidade que o apoia vai se achar no direito de fazer o mesmo. Ele joga com a possibilidade de criar um caos absoluto na ordem social, o que vai atrair os holofotes da mídia e a opinião pública. Tradução: cortina de fumaça.

Poderia escrever folhas e folhas destacando cada frase de Bolsonaro cuidadosamente pensada com a intenção de provocar confusão, e cada ato previamente estudado para distrair o povo, como a aparição de Queiroz no meio do público. Mas isso não parece necessário. O que se tem aí de exemplo já é mais do que suficiente para mostrar que o desespero cresce na mesma proporção em que o clubinho começa a ficar restrito. Bolsonaro blefa porque sabe que quem tem o jogo na mão é a dupla adversária, então qualquer avanço de um ponto é motivo de comemoração. Enquanto ganha tempo com essas manobras aparentemente desvairadas, vai chuleando as próximas cartas para ver se a sorte lhe sorri.

Nesse Truco, o povo é a dupla que está na frente. Se souber jogar, o que significa recrudescer a pressão sobre as instituições e, principalmente, os agentes políticos, tomando as ruas em proporção cada vez maior, lotando as caixas de email de deputados e deputadas, senadoras e senadores, usando as ouvidorias dos órgãos, Ministério Público, Judiciário e outros, enfim, avançando em marcha acelerada contra o genocida, estará dando um passo importante para derrotar o bolsonarismo e recolocar o país no trilho da democracia. Entretanto, quem está acostumado a jogar Truco sabe que muitas vezes um bom blefador é capaz de virar um jogo perdido. Bolsonaro agoniza, mas enquanto não der o último expiro não podemos largar as cartas.

Imagem copiada de: https://www.notibras.com/site/multidao-ocupa-ruas-para-pressionar-forabolsonaro/. Acesso em: 8/9/2021.

*Imagem de destaque copiada de: https://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/bolsonaro-raivoso-irritado-amargo.html. Acesso em: 8/9/2021.

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bolsonarismo, Necropolítica, Política

A promissória do diabo

Das versões do Fausto que li, a que mais gostei é a do Thomas Mann, que conta a história do fictício compositor Adrian Leverkhün. O músico é inoculado com o veneno demoníaco na única relação sexual que mantém na vida, com a prostituta que ele chama em seus delírios sifilíticos de Esmeralda. Tempos depois é visitado pelo próprio Diabo, que propõe um acordo, oferecendo-lhe 24 anos de genialidade absoluta, em troca, claro, da danação eterna. O biógrafo e narrador é o seu amigo e profundo admirador Serenus Zeitblom, que escreve durante o Terceiro Reich, anos depois dos fatos que descreve. As reflexões do erudito professor, aliadas a outros tantos elementos simbólicos do livro, acabam se constituindo numa crítica pesada à Alemanha nazista.

Mesmo que por vezes não nomeado, o mito do Fausto inspirou inúmeras obras literárias mundo afora. De Dostoievski a Guimarães Rosa, passando por Machado de Assis, Ariano Suassuna e a literatura de cordel, muitos são os escritores e escritoras e até roteiristas de telenovelas que se valeram da lenda, que, por tratar de questões ligadas a crenças, fés, superstições, criou um imaginário muito rico, havendo até quem defenda a existência de um Fausto real, que teria vivido em algum tempo entre o meio e o fim da Idade Média. Para o bem e para o mal, mitos existem, enfim.

Quando os bolsonaristas elevaram o seu Messias à condição mitológica, eram os ecos de outro mito que estavam latentes. Bolsonaro seria a reencarnação brasileira d’El Rei Dom Sebastião, que ressurgia de batalhas antigas e heroicas para redimir o povo e restaurar a grandeza da pátria, aviltada pelos governos que foram se avermelhando cada vez mais desde que os homens de farda largaram o osso (ou não).

Talvez Bolsonaro se imagine um rei, porque isso tem tudo a ver com uma mente doentia, megalomaníaca em grau elevadíssimo, e também vai ao encontro do fanatismo do seu exército de sequazes, dignos de figurar na lista da Loucura de Erasmo. Mas eu vejo a trajetória do sujeito o afastando cada vez mais de qualquer semelhança com o messianismo sebastianista e chegando muito mais perto de configurar um tipo faustiano. Não podemos deixar de pensar no curto espaço de tempo que separa a epifania macabra de Bolsonaro como salvador da pátria das ameaças cada vez mais concretas de que venha a sentar no bando de réus do tribunal penal internacional por crime de genocídio. Antes da sua ascensão meteórica, pouca gente sabia ou sequer tinha ouvido falar de Bolsonaro, salvo por uma ou outra aparição na mídia, motivada pelas atrocidades que já dizia quando era um um obscuro e inexpressivo parlamentar. Hoje se sabe que desde essa época já se pode questionar a sua propagandeada honestidade, só não tinha ainda a fama de ladrão que muita gente lhe atribui hoje, porém mais do que buscar provas do seu passado de crimes, importa investigar como se deu a sua escalada ao poder.

Imagem copiada de https://catracalivre.com.br/dimenstein/dimenstein-odio-de-carluxo-contra-globo-faz-bolsonaro-passar-vexame/

Na tentativa de explicar Bolsonaro pelo mito demoníaco, precisamos definir os outros personagens centrais. Na nossa versão braZileira do Fausto, o Diabo se chama Instituto Millenium e a sua emissária atende pelo nome de Rede Globo. Nas eleições de 2018, a rede mafiomidiática amargava quatro insucessos em sequência, protagonizados por políticos do tipo sopa de hospital e por um que é o único caso conhecido de tucano com nariz maior que o bico. Cansada das derrotas recentes, a Globo viu nas justas reivindicações das Jornadas de 2013 a oportunidade de distorcer os fatos e subverter a história, e habilidosamente construiu uma narrativa que elevava o povo à condição de senhor do seu próprio destino. Com esse discurso sofismático, convenceu a classe mé(r)dia que o certo é lutar sem partidos e, a partir do enfraquecimento do instrumento de representação democrática por excelência, articulou um golpe parlamentar, levando ao poder outra figura infernal, o vampiresco Michel Temer, em 2016. Com isso, ganhou 2 anos para pensar em alguém capaz de retomar a implementação da agenda ultraliberal, que havia sido parcialmente interrompida pelos governos anteriores. Para isso, não hesitou em apoiar a política nazifascista de Bolsonaro, escorada na retórica fácil do combate à corrupção e do restabelecimento da ordem e da segurança social, afinal, bandido bom é bandido morto.

Protegido pelo pacto espúrio celebrado com as elites, que já haviam bancado os/as patriotas da Paulista e outros patos braZil afora, Bolsonaro não se preocupou nem mesmo em construir um discurso moderado. Pelo contrário, recrudesceu ainda mais a sua retórica fascista, vomitando arrogância, prepotência e autoritarismo, e transformando a sua massa eleitoral num caso singular na história dos regimes democráticos – ou pseudodemocráticos -, já que ela estava votando num candidato pela plataforma que ele não cumpriria se eleito. Por uma razão lógica, os eleitores e as eleitoras escolhem seus e suas representantes acreditando que se manterão fiéis às suas promessas. Em campanha, Bolsonaro continuou a defender a tortura, disse que pessoas deveriam ser assassinadas apenas por militarem em campos políticos opostos, reafirmou a própria homofobia, se mostrou mais misógino do que nunca, fez discursos racistas, enfim, continuou sendo o mesmo facínora de sempre. Confrontado com esse discurso, o seu eleitorado se limitava a dizer que ele não faria tudo o que se comprometia a fazer, que isso era apenas conversa eleitoral. Ou seja, acreditaram que estava mentindo e por isso votaram nele. Hoje se vê que ele pode ser acusado de muitas coisas, menos de estelionatário eleitoral, porque tratou de cumprir cada promessa virulenta feita na corrida ao Planalto.

Imagem copiada de https://www.cut.org.br/noticias/redes-sociais-bombam-com-depoimentos-de-eleitores-de-bolsonaro-ja-arrependidos-4850

Acontece que o Diabo nunca esquece de liquidar uma fatura e o governo de Bolsonaro se aproxima do fim na mesma velocidade em que se degrada a sua saúde e o seu corpo segue o caminho da sua mente putrefata. No caso da nossa adaptação braZileira do mito, o miserável fausto se acreditou mais poderoso que o Chefe e agora vê o chão começar a se abrir à sua frente e a escuridão do inferno cada vez mais próxima. Reafirmo que não desejo que Bolsonaro morra no hospital. Não, ele precisa viver para pagar a conta. Não a promissória assinada para o capeta, que essa pode ficar pra depois, mas a dívida que contraiu com os milhões de pessoas que sofrem a sua necropolítica e que só faz aumentar. Ele precisa estar bem vivo para sorver lentamente o seu próprio veneno e ver a si próprio e a sua família que adora bandidos (que só são bom mortos, lembremos disso) sofrendo lentamente as consequências dos seus crimes, que a CPI e os noticiários divulgam diariamente. É preciso, sobretudo, mantê-lo com as faculdades mentais intactas (trabalho difícil, mas necessário) para saber que não foi mais do que um imbecil útil, usado e descartado quando já não servia mais.

Chamo atenção para o fato de que o que se aproxima do fim é governo DE Bolsonaro e não O governo bolsonaro. Há uma sutil diferença aqui, porque muito se tem dito, e com certa razão, que a queda de Bolsonaro agora pode piorar a situação do país e do povo, já que os militares assumirão o poder de forma aberta e legitimados pelas circunstâncias. É bem verdade, então, que o bolsonarismo é maior que Bolsonaro, mas é difícil imaginar algo pior do que a familícia neste momento. E, ademais, é preciso aprender a lidar com um problema de cada vez. O alvo a ser abatido é o potencial genocida e os seus filhos notadamente psicopatas. Depois a gente vê o que faz com o pessoal da caserna.

“Um homem sem juízo e sem noção não pode governar esta nação.”¹

¹Refrão da música “Desgoverno”, de Zeca Baleiro e Joãozinho Gomes. Veja o vídeo completo em em https://www.youtube.com/watch?v=tcPVDQUlGr0&ab_channel=RedeTVT

Imagem de destaque copiada de https://m.leiaja.com/cultura/2018/04/28/com-critica-ao-fascismo-e-bolsonaro-bandas-lancam-disco/

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bolsonarismo, Política, Rede Globo

Quando é preciso se aliar com o capeta pra derrubar o diabo

Entre as transformações sociais gigantescas que as últimas décadas apresentaram ao mundo, a televisão é das mais impressionantes. Há algumas décadas, as redes eram conhecidas pelo número (canal 12, canal 5 etc.) e os aparelhos transmitiam imagens em preto e branco, muitas vezes sujeitas a interferências que se resolviam com absoluta criatividade, como botar um pedaço de bombril na ponta da antena para estabilizar a imagem. O advento das parabólicas promoveu uma pequena revolução no mundo das transmissões televisivas. Além de garantir uma boa qualidade de imagem (talvez menos do que razoável nos padrões atuais), uma antena dessas possibilitava assistir programas de outros lugares, à vezes até bem remotos, de outros países, por exemplo. Logo em seguida vieram os serviços de assinatura, pelos quais se pagava para ter acesso a uma programação de maior qualidade. Lembro de uma entrevista que li com o Ratinho anos atrás em que dizia que o negócio dele era apresentar programa “povão” mesmo e quem quisesse programação de qualidade deveria assinar “tv a cabo”. Em um sistema que poderia se dizer, por analogia, de dupla ou tripla tributação, apareceram logo os conteúdos disponibilizados em pay-per-view, literalmente “pague pra ver”. Além de pagar a conta da luz, a pessoa precisava assinar um serviço de transmissão especial, a tal tv a cabo do Ratinho, e, caso quisesse um conteúdo mais específico, tinha que desembolsar mais uma grana para aderir ao pay-per-view. Hoje já estamos em outra fase, com as plataformas de streaming (Netflix, Amazon, Globoplay). Sabe-se lá o que vem pela frente.

Nesse tempo todo, uma coisa não mudou: a Rede Globo continua nadando de braçada no mar da grande mídia. E essa hegemonia faz com que nada lhe escape. Digo isso porque vejo muita gente maravilhada com a cruzada anti-bolsonarista promovida pela rede. Eu me paro muitas vezes em frente à tv me deliciando com os ataques do apresentador e editor do Jornal Nacional ao governo bolsonaro. E acho mesmo que isso deve ser saudado, porque quando o inimigo é o diabo, lutar do lado do capeta não é de todo ruim. Mas, como diria Raulzito, conserve seu medo. Basta reparar com alguma atenção e um olhar mais crítico na linha editorial proposta pelo jornal televisivo de maior audiência no país para perceber que, no meio do tiroteio desferido incessantemente contra Bolsonaro, Weintraub (100 mil mensais no Banco Mundial…), Araújo, Salles, enfim, na artilharia contra (nem) todo o séquito do governo bolsonaro, falta um alvo. Nunca, digo de novo e destaco, NUNCA há qualquer crítica ao chicago boy Paulo Guedes e à plataforma econômica do governo fascista. Então eu lembro que naquela reunião ministerial que deveria derrubar a república, o próprio Bolsonaro disse que não passaria pano pra nenhum ministro. Nenhum, com exceção daquela figura quase caricatural, que bem poderia estrelar um filme do Woody Allen (como tantas neste desgoverno), porque, segundo o próprio genocida presidente, com este não precisa se preocupar.

Imagem copiada de https://www.jornalgrandebahia.com.br/2018/11/governo-bolsonaro-paulo-guedes-deve-assumir-funcoes-do-trabalho-e-aniquilar-direitos-trabalhistas-e-sociais/

Num tempo em que as instituições ainda tentavam funcionar nos parâmetros republicanos, no já longínquo 1994, um constrangido Cid Moreira, que já foi a própria Voz de Deus, leu, no mesmo Jornal Nacional, um texto escrito por Leonel Brizola, que por determinação judicial conquistou o direito de se defender das acusações que a rede lhe fazia em tempo integral e que certamente o impediram de ter exercido o cargo máximo da república (a história se repetindo). Aqui uma boa matéria sobre o fato, inclusive com o vídeo: http://memorialdademocracia.com.br/card/quando-a-justica-vergou-a-tv-globo

Passado um quarto de século, a luta anticorrupção (?) e a plataforma ultraliberal foram duas colunas de sustentação da eleição de Bolsonaro. Enquanto o discurso de mãos limpas do presidente da república de curitiba falava direto aos corações e mentes da classe mé(r)dia, sedenta pelo sangue da bandidagem, (do colarinho branco e da favela, com preferência para o da última), a plataforma entreguista de Guedes garantia o apoio da elite empresarial, que congrega a tchurma do agronegócio (agro é pop…), da educação, da exploração dos recursos energéticos e outras, com as quais a Rede Globo mantém sólidas relações. A bem da verdade, nessas e em outras áreas, a Globo tem muito mais do que boas relações, tem participação direta, como mostra a série de reportagens veiculadas no Le Monde Diplomatique Brasil em 2018 (https://diplomatique.org.br/investigando-os-donos-da-midia-no-brasil-pos-golpe/).

Tenho pra mim, e converso com pessoas que pensam mais ou mesmo da mesma forma, que os governos Lula e Dilma passaram muito longe do comunismo, e isso é uma obviedade, mas que sequer podem ser considerados modelos de governos de esquerda. Para comprovar isso, basta ver que nomes como Joaquim Levy, Henrique Meirelles, Katia Abreu, Jorge Gerdau Johanpetter, o próprio vice de Lula, José Alencar, entre outros representantes da elite, tiveram trânsito livre e posições de destaque nos anos em que o PT ocupou o Planalto. Sei que alguém dirá, e com certa razão, que é preciso fazer alianças, ceder aqui e ali, abrir mão de algumas coisas em troca de outras mais importantes, enfim, é preciso fazer política em sentido amplo para governar um país. E não tenho dúvidas que os governos de Lula e Dilma foram disparadamente os melhores da história do Brasil. Só que governaram para os dois extremos, o dos muito ricos (os bancos lucraram horrores) e o dos muito pobres (milhões de pessoas deixaram a linha da pobreza absoluta), deixando em segundo plano os interesses mais imediatos de quem não estava em nenhuma dessas pontas. Esse erro acabou sendo fatal, pois na onda das Jornadas de Junho, cujas pautas eram as da classe média (agora sem r no meio), a direita e, pior, a extrema direita, ou pior ainda, o fascismo, soube surfar e o resultado tem nome, Golpe, e sobrenome, Messias Bolsonaro. Da mesma forma que numa concepção clássica do marxismo o socialismo deveria preparar o terreno e fazer a transição para o comunismo, o governo golpista de Michel Temer apenas limpou o mato (e a mata) para o nazifascismo bolsonarista.

Agora, a mesma Globo que vetou Brizola e elegeu Bolsonaro é vista como a salvação da lavoura. De que vai salvar a lavoura há pouca ou nenhuma esperança, mas que ajudará, como ajuda sempre e muito, os donos da lavoura, disso não há nenhuma dúvida. Assim, que aceitemos a ajuda da rede pra derrubar Bolsonaro, mas que fiquemos com as orelhas em pé, sabendo que a turma do Bonner não dá ponto sem nó e que as estratégias que usou no passado vão continuar na ordem do dia neste novo… Millenium.

*Imagem de destaque copiada de https://www.otvfoco.com.br/globo-coloca-bolsonaro-no-bbb-e-coloca-presidente-no-paredao-durante-noite-inteira-na-tv/

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