bolsonarismo, Mídia, Política

Jovens conservadores e o amor que diz pouca coisa: os paradoxos da política braZileira

“Dormia a nossa pátria, mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”. Quando Chico Buarque escreveu esse verso, não foi para Bolsonaro. Bolsonaro não existia.

“Se um só traidor tem mais poder que um povo, que esse povo não esqueça facilmente”. Quando Raul Ellwanger verteu essa estrofe para o português, não pensava em Bolsonaro. Também não pensava em Bolsonaro León Gieco, quando escreveu o verso original: “Si un traidor puede más que unos cuantos, que esos cuantos no lo olviden fácilmente”. Existiam Jorge Videla, Augusto Pinochet, Ernesto Geisel e João Figueiredo, mas Bolsonaro não existia.

A gente sabe de trás pra frente o que acontecia nos países da América Latina na época em que essas canções foram escritas. Por que, então, temos que passar por coisas desse tipo de novo? Estaria certa a definição de Marx sobre a história e sua repetição? Os novos generais seriam apenas versões renovadas ou farsantes, como os napoleões de Marx revivendo o Brumário? (Em verdade, muitos deles nem são tão novos e já andavam por aí na época daqueles outros, mas chamemos de novos em termos de protagonismo.)

Dia desses revi o documentário “Intervenção – Amor não quer dizer grande coisa”, de Tales Ab’Sáber, Rubens Rewald e Gustavo Aranda (disponível aqui: https://vimeo.com/264475519). O filme abre com um jovem Kim Kataguiri anunciando uma fala de Reinaldo Azevedo, que trata sobre o chamado controle social da mídia. (Guardem esta palavra: jovem.) Vou reproduzir aqui algumas palavras do jornalista, ditas a mais ou menos 1min45seg do filme: “Que país curioso! Eu debatia a liberdade de expressão num clube militar e num órgão civil de defesa de uma categoria, uma outra súcia defendia censura.” Súcia era uma referência a um grupo que participava de uma reunião concomitante, que ocorria no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, onde, segundo ele, se projetavam mecanismos de implementação de censura. Grifei a construção “outra súcia”, na fala de Reinaldo. Por que ele fala em “outra” súcia? A “súcia” que defendia mecanismos de controle da mídia pela sociedade que protestava no clube militar era a mesma, obviamente, que participava da reunião no sindicato. Eu vejo aqui uma espécie de ato falho. No fundo, Reinaldo sabe que a plateia da sua palestra no clube militar era, esta sim, a verdadeira súcia, e por isso ele usou “outra súcia”. Acerca de atos falhos, Reinaldo Azevedo, o primeiro que chamou petistas de PeTralhas em grande escala, é o mesmo que observou a trapalhada de Sérgio Moro sobre a Lava Jato e seus verdadeiros objetivos, quando disse, em entrevista recente, que a operação combateu o PT. Os princípios constitucionais da administração pública, que se aplicam ao Judiciário (legalidade, moralidade, impessoalidade etc.), assim como as regras mais básicas do direito criminal, como se vê, foram solenemente ignoradas pela força tarefa lavajatiana, que incluiu inclusive, e principalmente, o próprio julgador.

Já que falamos em Sérgio Moro, ele é a tentativa frustrada da Globo de encontrar a terceira via. E essa tentativa só é frustrada porque ele mesmo, o paladino da justiça, bravo guerreiro da cruzada anticorrupção, não se ajuda, seja pela total falta de carisma ou por ser idiota ao ponto de escancarar em uma frase a farsa da Lava Jato, cavalo de batalha da Globo cujo objetivo era derrubar o PT e quebrar setores fundamentais para a autonomia do país, liberando ao aluguel, como Raulzito já dissera em 1980.

Neste ponto, preciso dizer que considero que comete um grave equívoco boa parte das pessoas de Esquerda que afirmam não ver o Jornal Nacional e a programação jornalística da Rede Globo. Tudo o que o editorialismo da casa dos marinhos – e os que mandam nele – querem é que pessoas com capacidade crítica não vejam os seus jornais. Pelo contrário, é preciso, sim, assisti-los, principalmente o JN, de alcance fenomenal, para que se possa entender um pouco melhor como funcionam as coisas na política do braZil. Simplesmente bater no peito e se dizer contra a Globo é deixar o campo livre para as articulações da imprensa golpista que a rede capitaneia. Talvez graças aos espíritos críticos que assistem o JN é que Moro, em que pese ser ele próprio um tiro no pé, não tenha conseguido se consolidar como alternativa viável ao golpismo global – ou globista.

Voltemos uma vez mais aos conceitos históricos marxistas. A Globo apoiou o regime militar desde o primeiro momento. Melhor dizendo, foi nele que a Globo nasceu e se consolidou. Mas, assim como o pré-candidato ao governo do estado do RS, Onyx Lorenzoni, se arrependeu do caixa 2 e foi perdoado pelo próprio Sérgio Moro, também a Globo se mostrou arrependida e reconheceu o erro. Mas, vejam que interessante, esse mea culpa foi anunciado em 2013, algumas semanas depois do auge da onda de protestos que viria a desencadear o golpe de 2016. É bom lembrar que naquelas manifestações a Globo foi um dos alvos da massa descontente. Aqui em Porto Alegre, a esquina da Avenida Ipiranga com a Érico Veríssimo, onde funciona a Globo RS, foi isolada em várias quadras no entorno, protegida por um esquema de segurança digno dos maiores eventos ocorridos na cidade. A alegação do governo do estado para ter designado um aparato tão pesado para fazer a defesa de uma entidade privada (sim, as organizações Globo são privadas), passou, entre outras desculpas bem questionáveis, pela proximidade do prédio da RBS com o da Polícia Federal, que poderia ser alvo de ataques. Antes que algum crítico de plantão aponte, não estou esquecendo que o governador do RS era Tarso Genro, do PT. E isso diz muita coisa, claro que diz. Senão vejamos.

As Jornadas de 2013 tinham como bandeira o apartidarismo e mesmo o antipartidarismo. E para o maior partido do país não era interessante que ganhasse corpo um movimento que se dizia autônomo e prescindia da organização feita pelas instituições partidárias. Só que a estratégia utilizada para neutralizar a ação, que passou pela tentativa de desqualificar e tirar a legitimidade dos pleitos, se mostrou absolutamente equivocada e resultou no golpe que três anos depois derrubaria o próprio PT do governo central.

Ao contrário da Esquerda, que não soube na época avaliar com clareza o poder daqueles atos, a Direita, que desde a ascensão dos governos do PT estava na inusitada condição de oposição, faturou. No ano seguinte, Kim Kataguiri, Fernando Holiday e outros e outras JOVENS, fundaram o MBL. Daí para o aparecimento de tantos grupos de jovens… conservadores foi um pulinho. O filme que citei antes, que, tecnicamente falando, é apenas uma colagem de imagens e vídeos esparsos, retrata bem o papel dessa juventude conservadora na virada à direita que o país deu a partir de 2013. E quem deu a maior força a essa retomada da “conscientização” da juventude brasileira? Plim Plim! A resposta é… Rede Globo!

E, pra não fugir da tese marxista da repetição dos fatos históricos, vamos um pouquinho mais pra trás. Quem era Fernando Collor antes de ser presidente da república? Na res publica não era ninguém. Na vida privada, era diretor de um jornal ligado às organizações Globo. Caçou marajás – menos os seus – e ganhou da Globo um presentinho: a cadeira do Planalto. Com o tempo se mostrou perigosamente autônomo, disposto a voos solo, e teve as asinhas cortadas. (Mas foi só um tempinho de reciclagem. A Globo não desperdiça seus quadros.) Quem exerceu protagonismo na queda de Collor foi uma multidão de jovens, que a Globo, apelidou de “caras-pintadas”. A Globo e a juventude na linha de frente não é, portanto, nenhuma novidade.

Neste momento é interessante retomar uma ideia que já andou sendo pensada aqui na coluna: Bolsonaro está no fim, o bolsonarismo não. E o bolsonarismo é um sistema velho com uma cara jovem. A própria imagem do demente que governa o país passa uma ideia de jovialidade. Mas quando precisa, ele tira (ou põe) a máscara e mostra a própria decrepitude, que chega ao coração das pessoas na figura de um homem saudável que se tornou doente pelo atentado que sofreu por defender o país da ameaça vermelha. Um mártir, um mito que um dia está na praia de jetsky e no outro, hospital, sonda e cara de doente terminal.

Essa dicotomia, milimetricamente desenhada, é reproduzida nas entrelinhas do documentário que embasa a reflexão de hoje. Observem, no filme, as sutis diferenças entre os discursos das pessoas de mais idade e daquelas que estão da casa dos 40 anos para baixo, que, em política, podem ser chamadas de jovens. Enquanto a gente mais antiga propõe uma retórica baseada na experiência de quem viveu tempos melhores, interrompidos pela “trágica experiência comunista dos anos petistas”, e que sofreu as duras penas dessa inflexão histórica, a ala jovem vem com um discurso pesado, que não economiza incitação a ações violentas. Ora, é próprio da juventude um espírito mais aguerrido, que muitas vezes confunde agressividade com violência física. Essa é uma das misturas da receita básica do bolsonarismo: mesclar a suposta sabedoria advinda da experiência de quem já sobreviveu ao “comunismo”, com o temperamento incendiário da massa jovem, que quer tirar os “corruptos vermelhos” do poder nem que seja a pau. Os treinamentos paramilitares promovidos nos templos evangélicos, que aparecem ao longo de todo o filme, mostram que a lavagem cerebral que cria a inconciliável imagem do/a jovem reacionário/a, está em pleno curso.

O paradoxo político brasileiro está posto neste ano eleitoral. De um lado, a incompetência absoluta de Bolsonaro e sua família põe em risco a manutenção do projeto ultraliberal protofascista; de outro, essa mesma incompetência está sendo tratada nos círculos que determinam o poder como a reação contrarrevolucionária para frear a reestruturação das forças de Esquerda. Não é de graça que ao mesmo tempo em que Bonner e Renata, que, a propósito, ostentam imagens e linguagem bastante joviais, desciam a lenha em Bolsonaro na mídia televisiva, preferida do público bolsonarista, o jornalismo escrito, que chega em público diferente, em tese mais politizado, atacava Lula com a mesma virulência. No meio dessa briga, fomentada por ela mesmo, a Globo ganha tempo pra achar a terceira via.

Spoiler: Michel Temer anda sumido e Eduardo Leite foi retirado da linha de frente. Recuos estratégicos de um plano já arquitetado? Temer é culto, se veste impecavelmente, tem uma esposa bela, recatada e do lar, é bom de voto, principalmente em São Paulo, e Leite é o jovem conservador (como é difícil aceitar essa imagem!) adequado ao padrão. É certo que a Globo tem estimulado a polarização em dois lados com muitos e evidentes problemas, Lulismo e Bolsonarismo, que são explorados na mesma medida. Enquanto isso, vendo o barco do ex-juiz e ex-ministro, atualmente consultor para a recuperação de empresas que ajudou a quebrar, naufragar antes mesmo de deixar o porto, nada melhor do que resguardar possíveis candidatos, retirando-os da exposição massiva e mantendo a carta na manga para a hora certa, quando o eleitorado já estiver cansado e desesperançado e assim pronto para aceitar qualquer coisa que se lhe apresente como alternativa. Mesmo que sejam as mesmas velhas raposas velhas, acompanhadas por novas raposas velhas.

Que a Esquerda não seja como a pátria mãe, tão distraída…

*Imagem de destaque copiada de: <https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2015/03/em-culto-da-universal-jovens-gladiadores-se-dizem-prontos-para-a-batalha-4710883.html.&gt; Acesso em: 10 de jan. 2022.

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bolsonarismo, Esquerda, Política

O Brasil entre a consolidação do fascismo e a retomada do caminho democrático: o que os números mostram

“Meus amigos essa noite eu tive uma alucinação, sonhei com um bando de número invadindo o meu sertão, vi tanta coincidência que eu fiz esta canção.” Assim Raulzito começa a explanação sobre as coisas dos números, que passa pela Bíblia e as crenças populares, o maniqueísmo ocidental e por aí afora.

Eu, a única vez que rodei de ano foi em Matemática. Teve outras, por faltas e desistências, mas isso é outra conversa. A minha administração financeira é caótica e tenho certeza que se não fossem os compassos compostos eu seria um músico razoável. Mas ao contrário do que isso possa indicar, eu gosto dos números e, fundamentalmente, tenho grande respeito e admiração por quem os trata bem, sejam os estatísticos que fazem os cálculos sobre todas as coisas, ou os engenheiros que calculam a exata quantidade de explosivos necessária para abrir um túnel em meio à montanha. Os números dizem coisas interessantes, tanto nas aplicações práticas quanto nas zonas menos racionalmente explicáveis do conhecimento. A Numerologia, gostem ou não, tem estudos sérios. E lembremos que os gregos, Pitágoras e outros, diziam que o Arché, o elemento fundamental, era um número. Talvez não seja bem isso, Filosofia Clássica também não é o meu forte, mas é alguma coisa por aí.

O meu amigo Douglas, letrado e historiador, colabora muito com as ideias colocadas por aqui, mesmo que às vezes ele nem saiba. Dia desses ele disse mais uma frase muito boa. Indo direto ao ponto, como costuma fazer, sem meias palavras: “Se apertou 17 em 2018, que se dane!” Me fez dar uma atenção especial a alguns números. Em 16 o povo sofreu um golpe articulado pelo 15. Já em 18, a facada foi dada pelo 17. Ou seja, os números nos dizem que desde 2016 (pelo menos desde lá) estamos sempre em retrocesso.

Abstrações numéricas à parte, se formos para os números frios e reais não será difícil constatar que a caminhada em marcha à ré é acelerada e se apresenta em regressão geométrica: em relação a 2016, temos hoje muito menos empregos formais, muito menos investimentos em ciência e educação, muito menos comida na mesa, muito menos direitos sociais e muito menos um monte de coisas. Mas, sejamos justos, se a nossa observação tiver outra perspectiva, a constatação é que os números são altos e avançamos nas mesmas proporções: muito mais miséria, muito mais violência de todas as formas, principalmente contra pessoas vulneráveis, muito mais fome, muito mais inflação, muito mais dólares do Chicago Boy nos paraísos fiscais.

O fato é que o número que deveria aumentar exponencialmente é o das pessoas conscientizadas da grande bobagem que fizeram, do crime que cometeram ao apertar 17 em 18. Anuncia-se que o presidente genocida, isso dito pela CPI, vai se filiar a algum partido por esses dias. Talvez até já tenha se filiado. Eu tenderia, no primeiro momento, a dizer que deve ser uma dessas siglas de aluguel. Nenhum partido minimamente sério, mesmo que ultraliberal e com tendências ao fascismo, aceitaria esse sujeito nos seus quadros. Se aceitar, no momento exato da assinatura, mesmo que seja com Bic, o tal partido terá jogado na lixeira da história o mínimo de seriedade possível.

Imagem copiada de: <https://twitter.com/IvanValente/status/1458585513439285249&gt;. Acesso em: 16 de nov. 2021.

Ele andou se oferecendo ao PP, mas a repercussão dentro do partido não foi das melhores. Parece que o caminho é o PL, do Valdemar Costa Neto, que tem uma folha corrida de respeito e é grande aliado do governo ex-17, eleito em 18 para acabar com a corrupção do 13, sem se preocupar com o 45. Nessa miscelânea numérica, o que menos interessa é a sigla, no fim das contas eles, PL e PP, estarão juntos, afinal ambos, como tantos outros, são rebentos da Arena. Arena que, a propósito, uma estudante, cotista social na Universidade de Caxias do Sul, tentou refundar há alguns anos.¹ Parece que não deu muito certo, porque as lideranças do partido novo, quer dizer, Nova Arena andaram se estranhando e o projeto naufragou. O próprio Bolsonaro não conseguiu gente pra endossar a criação de um partido novo. Não o Partido Novo, que este, que se diz novo apesar das velhas práticas, vingou, mas um que não por acaso ele chamaria de Aliança. Voltando aos números, o do PL é 22 e se poderia investigar se isso não é uma tentativa de mudar o padrão. Em 16, o 15; em 18, o 17; o que significa andar pra trás (é a Matemática que diz), então talvez eles queriam se livrar desse estigma e pelo menos ficar na mesma. Só uma hipótese. Mas prefiro pensar a coisa por outro lado.

Bolsonaro precisa de um partido pra tentar a reeleição. Ele já transitou por vários, inclusive o PP, e se elegeu por um alugado, que logo em 2019 chutou. Agora a coisa é um pouco diferente, ao que tudo indica. Diante da tentativa frustrada de ter um partido pra chamar de seu, o que seria uma prova clara de força, o bolsonarismo deve estar pensando que desta vez vai precisar de uma estrutura mais forte. Quando um político tenta a reeleição, especialmente no Executivo, o seu principal cartão de visitas é o trabalho já realizado. Em três anos de mandato presidencial, Bolsonaro só fez autopropaganda negativa, por isso precisa reverter a própria imagem. A chance de fazer isso num partido sem expressão diminui. Por outro lado, um partido maior, mais estruturado, com trajetória consolidada nos estados e municípios e uma ideologia conservadora e autoritária à prova de qualquer refutação, pode dar melhor sustentação ao prosseguimento da implantação da plataforma nazibolsonarista.

Tudo isso se diz e se analisa em tese, muita coisa ainda vai rolar até as eleições. Mas é preciso que as forças de resistência resolvam esse problema, que é muito mais do que meramente matemático. O nome de Lula está longe de ter a aprovação pacífica da Esquerda. Isso mostra uma certa incapacidade do campo democrático de produzir novas lideranças. Estamos sempre às voltas com as mesmas figuras. Entretanto, sem a Rede Globo e o Instituto Millenium no apoio, construir um nome em pouco menos de um ano é impensável. E aqui há outro ponto nevrálgico: qual a ideia da Globo? Pedro Bial lançou um balão de ensaio com o governador gay que não se quer gay governador, mas a coisa não andou, ao que parece. Talvez estejam pensando na refundação da república de curitiba, com os lavajatianos paladinos da cruzada moralizadora. É difícil saber o que passa na casa marinho, mas é preciso atenção, porque a rede mafiomidiática costuma resolver o X da equação a partir dos ajustes na sua matemática privada.

Assim, talvez devamos fazer uma concessão aos aspectos subjetivos e supersticiosos dos números e aceitar o 13 como a possibilidade de travar a escalada fascista. A partir daí, em 2023 começamos a fazer cálculos para traçar a rota rumo ao retorno da democracia. É um caminho longo, não podemos nos iludir, mas em algum momento precisaremos botar o pé nessa estrada. Os números do tempo correm contra nós.

¹(Para maiores informações: https://oximarraoalucinogenocom.wordpress.com/2018/06/12/a-arena-que-nao-e-pro-futebol/)

*Imagem de destaque copiada de: <https://www.metropoles.com/brasil/secretarios-de-saude-lamentam-as-600-mil-mortes-por-covid-negacionismo-perverso&gt;. Acesso em 16 de nov. 2021.

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Entre tapas e beijos, a roda da economia gira

Em tempos de séries sobre tudo, ainda há espaço para os filmes? Acho que sim, sempre haverá. Um filme dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio, por exemplo, é um filme que deve ser visto. Na pior das hipóteses será um filme bem feito. Sugiro, então, O Lobo de Wall Street, de 2013, que permite que a gente comece a entender um pouco mais o funcionamento do mundo dos altos negócios.

Mudando de saco pra mala – pero no mucho -, vou transcrever um trecho de um livro que estou terminando de ler:

“Cerca de de dois meses depois disso, pedi ao senhor Hugh o privilégio de alugar meu tempo. (…) após alguma reflexão, ele me concedeu o privilégio e propôs os seguintes termos: eu teria todo o meu tempo para mim, faria todos os contratos com aqueles para quem eu trabalhasse e procuraria meu próprio trabalho; e, em retribuição por essa liberdade, eu deveria lhe pagar 3 dólares ao final de cada semana; arranjar-me com as ferramentas de calafetar e com pensão e roupas. (…) Chova ou faça sol, com ou sem trabalho, ao final de cada semana, o dinheiro deveria ser entregue, ou eu perderia meu privilégio. Esse acordo, será percebido, era decisivamente em favor de meu senhor. Aliviava-o de toda a necessidade de cuidar de mim. Seu dinheiro era certo. Ele receberia todos os benefícios de possuir um escravo sem seus ônus; enquanto eu suportaria todos os ônus de um escravo e sofreria todos os cuidados e ansiedades de um homem livre. Achei que era um negócio ruim. Mas, ruim como era, achei-o melhor do que o antigo método de me arranjar.”

O que está descrito acima aconteceu mais de um século e meio antes do advento da uberização da economia e é o relato feito por Frederick Douglass, no livro “Autobiografia de um escravo”, publicado este ano pela Editora Vestígio, cuja leitura é impactante, dada a riqueza com que o autobiografado detalha os seus tempos de escravidão, nos Estados Unidos do começo do século 19. Esta e outras passagens do livro acabam tratando por linhas diversas de questões da economia, do funcionamento do mercado, de como os interesses das elites econômicas determinam os acontecimentos políticos. Algo que também é retratado no filme de Scorsese.

Os dois séculos e tanto que separam as duas obras, uma de ficção e outra uma biografia verdadeira, mostram que o que muda é apenas a tecnologia e os atores sociais, nunca a lógica do sistema: tudo gira em torno do capital. No Brasil, o processo de colonização teve motivações econômicos, a independência teve motivações econômicos, a abolição do regime escravagista teve motivações econômicas, até mesmo a (nada) heroica Guerra Farroupilha, que está em plena celebração, teve motivações econômicas. Por que hoje as coisas seriam diferentes?

Quando assumiu o governo, o caçador de marajás confiscou a poupança do povo. Não sem antes avisar alguns privilegiados. Por sua vez, o príncipe da privataria, que outrora foi um acadêmico (quase) comunista, promoveu o desmonte de setores importantíssimos da economia do país, fazendo doações ao capital (às vezes nem tão) estrangeiro. Aliás, Raulzito já vinha dizendo desde o final dos 70’s que a solução é alugar o braZil. Já no nosso século, o ativismo judicial e o seu lavajatismo derrubaram uma presidenta e depois elegeram um presidente da república. As motivações? O desmanche dos setores energético, da construção civil, da indústria frigorífica e outros podem dar pistas. Levar ao Planalto um plano de governo cuja agenda econômica privilegia os interesses dos articuladores do ultraliberalismo era mais do que necessário depois de alguns anos de programas políticos com algum comprometimento com causas sociais. Era preciso romper essa estrutura, e para isso, nada melhor que um golpe, honrando a tradição democrática braZileira.

Em se tratando de golpes, a família Marinho tem know-how. As organizações Globo têm atuação decisiva nessa seara desde 64 pelo menos. De uns tempos pra cá, o Jornal Nacional, principal noticioso televisivo do país, pelo menos o mais assistido, bate forte em Bolsonaro. O seu ministério não é poupado, com uma única exceção, justamente a pasta da Economia. Acontece que nos últimos tempos o Chicago Boy vem mostrando falta de força para levar em frente com a rapidez necessária as políticas entreguistas que beneficiam as elites econômicas, que esperavam que tudo fosse mais fácil e ágil, diante do cenário que antecedeu a chegada do governo protofascista ao poder central. Paulo Guedes já não é unanimidade entre o alto empresariado, é questionado pelos banqueiros, enfim, a economia não anda muito bem. Nesse estado de coisas, Bolsonaro passa os últimos dois meses promovendo procissões de morte braZil afora, levando motociclistas enlouquecidos às ruas e estradas, conclamando caminhoneiros a pressionar as instituições, elevando a temperatura no meio rural, literalmente, com as queimadas na Amazônia, e metaforicamente, a partir de discursos virulentos de reis da soja e outros tocadores de berrante golpistas. (Mais um parêntese: aprofunde-se o que há de obscuro no Caso Lázaro.) Um dos objetivos desses movimentos era preparar os grandes atos do dia da independência.

No tão esperado Sete de Setembro, Bolsonaro foi aos palanques com um discurso enfurecido. O alvo principal era Alexandre de Moraes e, por consequência, o STF, que não é outro senão aquele tribunal referido por Romero Jucá na célebre frase: “Com supremo com tudo.” Jucá, como sabe, foi homem forte do governo golpista. A loucura bolsonariana por óbvio teve reflexos na economia, com fuga de investimentos, índice baixo na Bovespa, ações de grandes empresas brasileiras despencando, dólar subindo e tudo aquilo que se sabe que acontece quando a instabilidade política é forte. Apenas dois dias depois, entra em cena o pacificador. Este sujeito, que em 2016 foi declarado inelegível pela Justiça Eleitoral de São Paulo, mas que mesmo assim assumiu a presidência da república pouco depois, e que depois de ganhar o noticiário sendo preso pela PF chefiou uma missão humanitária do braZil em Beirute, preparou o fornilho do cachimbo da paz que selou o armistício entre Bolsonaro e Moraes no Nove de Setembro.

O tempo que vai durar o discurso moderado de Bolsonaro não se sabe, muito menos o namoro com o ministro, mas no aspecto político as repercussões já se fazem notar, com pedido de impeachment engavetado sem prazo, investigação do PGR suspensa, revogação de mandados de prisão e HCs impetrados e por aí vai. Mas isso são detalhes, desdobramentos naturais dos fatos, o mais importante para a felicidade geral da nação é que os investidores que compraram as ações de empresas brasileiras em baixa pela crise provocada por Bolsonaro, abnegados patriotas que amam esta terra acima de tudo (ou seria Deu$?) e que não se importam em perder dinheiro para ajudar o país a sair da crise, devem ter ficado surpresos com o “golpe de sorte” da elevação do Ibovespa e a queda do dólar na quinta-feira. Se vão ganhar algum nessa ciranda econômica, ora é merecido. Ou não é?

Imagem copiada de: <https://www.poder360.com.br/opiniao/governo/o-coronavirus-e-a-crise-que-vai-testar-bolsonaro-e-guedes-escreve-thomas-traumann/&gt;. Acesso em: 14 de set. 2021.

*Imagem de destaque copiada de: <https://steemit.com/pt/@aldenio/com-o-supremo-com-tudo&gt;. Acesso em: 14 de set. 2021.

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bolsonarismo, Necropolítica, Política

O bode na sala: ou ainda mais afinidades entre Trump e Bolsonaro

“Segundo todas as evidências, o _________ foi um dirigente execrável: egocêntrico, eivado de preconceitos, incapaz de empatia, vaidoso, inconsciente de suas responsabilidades. Não parava de mentir, inclusive sobre assuntos facilmente verificáveis, e de se comportar como demagogo, fingindo se preocupar com as classes populares. Usou a função suprema para enriquecer, locupletar os amigos e permitir às corporações refazer as leis conforme seus interesses. E negava a legitimidade de toda eleição cujo resultado não lhe conviesse.”

Se no dia de hoje a elipse da afirmação acima fosse preenchida com Jair Bolsonaro, alguém contestaria, exceto pelo fato do uso do verbo no passado? Engana-se, porém, quem pensa que a descrição original seja sobre o presidente do braZil. Trata-se de um artigo intitulado “Nos EUA, o conspiracionismo dos progressistas”, escrito pelo jornalista Thomas Frank e publicado na edição de agosto do Le Monde Diplomatique Brasil.¹ A análise feita pelo articulista se encaixa perfeitamente em muitos pontos na conjuntura que estamos vivendo no braZil de Bolsonaro.

Mais à frente, Frank diz que Trump foi incompetente e agiu como um idiota ao atacar as forças que o abandonavam. Aqui a relação Bolsonaro-Moro surge naturalmente. Diz ainda o artigo que Trump se apresentava como “um homem forte, sempre pronto a usar seu poder”, mas foi omisso diante da gravidade da pandemia. A diferença para Bolsonaro, neste quesito, é que este não está sendo omisso, antes está usando a crise sanitária para levar adiante a sua necropolítica.

Imagem copiada de: https://istoe.com.br/nome-jair-sobrenome-bolsonaro-acredite-ele-quer-te-matar/. Consultado em: 23/8/2021.

O que o jornalista chama de histeria na guerra contra Donald Trump também acontece por aqui. O domínio dos assuntos antibolsonaristas na grande mídia, Rede Globo, principalmente, impede que outros temas sejam tratados, certamente de forma proposital, pois enquanto se discute por horas, dias, semanas, o risível pedido de impeachment de Bolsonaro contra ministros do STF, a boiada vai passando, de forma metafórica e literal. E se nos EUA essa postura geral permitiu a ascensão de políticos tidos como insignificantes, que só tinham por pauta a oposição a Trump, como observa Thomas Frank, aqui acontece algo em sentido contrário, quando sujeitos absolutamente inexpressivos, como Bibo Nunes, Onyx Lorenzoni e Mário Frias, ganham momentos de fama exatamente por apoiar incondicionalmente o comandante em chefe das forças fascistas.

Frank diz que a elite intelectual estadunidense detectou o eleitorado de Trump formado por pessoas brancas e pobres, cuja motivação era o “medo racista de perderem status”. Por aqui também a manutenção ou a retomada do status quo das elites medianas esteve na base da eleição de Bolsonaro. Quando a socialaite disse que não tinha mais graça ir a Paris porque sempre havia o risco de encontrar o porteiro no aeroporto, e isso foi bem antes de Bolsonaro, estava sintetizando o pensamento da classe média – que se acha classe alta – brasileira. Hoje essa gente deve estar feliz, mesmo que não consiga mais ir a Paris com a mesma frequência, afinal, é melhor turistar menos, mas com a garantia de não ter nenhum encontro indesejado.

Há uma afirmação importantíssima no artigo em análise: “A histeria é também fonte de confusão: desorienta as pessoas e impossibilita o pensamento crítico em um país de individualistas que passam a se comportar como manada.” No nosso contexto político, a histeria é projeto. Do lado do governo fascista, um projeto de sustentação; do lado das corporações, um projeto de desviar a atenção das políticas deletérias ao patrimônio e à autonomia nacional. No fim das contas, claro, estão todos do mesmo lado, porque enquanto são enfatizados os aspectos pitorescos do “caso Sérgio Reis”, a boiada passa (de novo). Em termos de histeria, que se reflete na produção frenética de memes, o que dá mais assunto: a prótese peniana paga pelo povo ou o latifundiário da soja que financia o cauboi braZileiro? É de observar o destaque que o JN dará ao nome de Antonio Galvan nas matérias que tratam das investigações sobre Sérgio Reis. Ou se a Associação Brasileira dos Produtores de Soja – Aprosoja será referida.

Voltando ao caso dos EUA, posso dizer sem medo de errar que Trump X Biden é um caso típico do “bode na sala”. A reeleição do racista genocida seria o pior quadro possível, com poder de transformar o democrata (sim, Biden não é comunista) numa espécie de salvador da humanidade. Lembro, só de passagem, que uma das promessas de campanha da primeira eleição de Obama foi desativar a prisão de Guantánamo. Obama sucedeu George W. Bush, vencendo John McCain, já que o Bush filho não podia mais se reeleger. Biden, que foi vice de Obama, retomou o discurso de desativação da prisão. Alguém acredita nisso?

Trazendo a análise de volta às terras brazilis, a ideia do bode na sala vai impedir, salvo aconteça uma verdadeira revolução popular, qualquer possibilidade de impeachment de Bolsonaro. A Globo seguirá sustentando a narrativa histérica, que passa pela produção de escândalos em nível industrial e a não menos febril confecção de manifestos, notas de repúdio, cartas abertas, tão caras às nossas instituições e grupos de classe. Enquanto isso, os balões de ensaio vão sendo lançados, como o governador gay que não se quer gay governador, cujo ato inaugural da construção da imagem a partir da entrevista no Bial parece ter sido uma explosão de pólvora molhada, que não surtiu o efeito necessário. A mafiomídia deve atentar, porém, que o tempo está passando e talvez o bolsonarismo não tenha um testa de ferro tão burro quanto se quer fazer acreditar.

Disso tudo, o que fica é novamente o alerta que somente o povo tem o verdadeiro poder de mudar o quadro terrível e que se avizinha ainda pior. Delegar esse poder para as instituições é terceirização inútil, que vai servir apenas para dar continuidade à ilusão de que a Rede Globo e o STF estão de fato na trincheira certa.

¹FRANK, Thomas. Nos EUA, o conspiracionismo dos progressistas. Le Monde Diplomatique Brasil. São Paulo, ano 14, n. 169, p. 30-32, ago. 2021.

*Imagem de destaque copiada de: https://horadopovo.com.br/bolsonaro-diz-que-nao-vai-reagir-a-trump-porque-e-o-pobre-da-historia/. Consultado em: 23/08/2021.

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bolsonarismo, Política

Sei até que parece sério…

Vou me permitir começar a conversa de hoje contando rapidamente uma história pessoal. Em 1999 encaminhei um Compact Disc, vulgo CD, com a música para a minha formatura: “Pastor João e a Igreja Invisível”. Esqueci (será?) que mesmo que o velho Romeu tivesse levado muitos dos seus princípios educacionais junto com ele pro caixão, a Ritter dos Reis ainda era propriedade de uma família adventista. (Sim, no braZil, a Educação tem proprietários.) A música foi vetada. Escolhi outra parceria do Raul e do Marcelo Nova: “Muita estrela e pouca constelação”. A exemplo dos seus homólogos da linha dura, os censores universitários não primavam pela inteligência e não entenderam qual o sentido de “Sei até que parece sério, mas é tudo armação, o problema é muita estrela pra pouca constelação” numa formatura de Direito.

Hoje a gente vê o inqualificável Roberto Jefferson sendo preso com direito a espetáculo midiático, bem ao gosto das nossas instituições. Este sujeito já foi apresentador de programa policial sensacionalista, defensor de primeira hora do caçador de marajás, se abraçou com o PT e depois deu início ao processo do mensalão (o petista, porque o tucano anda esquecido faz tempo), defendeu pautas polêmicas, como o desarmamento e até o casamento homoafetivo, antes de conhecer o Messias, claro. Enfim, é uma figura contraditória, patética e ridícula, como tantas desta república braZileira.

Não vou questionar a prisão do Bobjeff a não ser pela temporalidade. Ele deveria estar guardado há muito tempo. Ou melhor, deveria PERMANECER guardado desde muito tempo. Importa agora é examinar as razões por que ele foi encarcerado de novo.

Quem mandou o bolsonarista Jefferson para a cadeia foi o Ministro Alexandre de Moraes, que quando eu estava na faculdade, nos anos 90, já vinha se consolidando como um grande constitucionalista. Depois disseram que ele andou plagiando outros autores, mas isso também não vem ao caso agora. Moraes tem fortes ligações com o PSDB, o que motivou duras críticas à sua indicação para o STF, feita por Michel Temer. Ninguém imaginaria naquela época que ele seria um dos grandes algozes do bolsonarismo na Corte. Aliás, naquele tempo pouca gente imaginava o próprio bolsonarismo.

Imagem copiada de: https://pt.org.br/alexandre-de-moraes-passado-controverso-e-repleto-polemicas/. Acesso em: 17 de ago. 2021.

Voltando ao caso, nos fundamentos da prisão do petebista, Moraes diz que ele está no núcleo político de uma organização criminosa que provoca a desestabilização das instituições republicanas, que está sendo chamada de “milícia digital”. Esta rede atua nas mídias, principalmente as alternativas, pregando a ruptura institucional, que, como se sabe, é o nome bonito usado para dizer golpe. Desde a decisão forte e pesada do Ministro Alexandre, uma pergunta se tornou recorrente na minha cabeça: o que tem os bolsonaros que o Jefferson e o Daniel não têm? Como é difícil dar conta de tanta coisa, dada a produção frenética de fatos escabrosos no braZil, lembro que o deputado Daniel Silveira foi preso por determinação do mesmo Alexandre de Moraes, por ter feito ataques ao Supremo e aos seus integrantes, ou seja, a mesma motivação que levou o presidente do Partido Trabalhista Brasileiro à cadeia agora.

Já li que a prisão de Roberto Jefferson é um recado aos bolsonaros. Será que não há uma inversão aí? Rauzito também disse, sem o Marceleza, que “tem gente que passa a vida inteira travando a inútil luta com os galhos, sem saber que é lá no tronco que tá o curinga do baralho”. Mandar prender figurante parece o mesmo que cortar galho pra matar a árvore (diversionismo?…). Sei que prender um presidente da república não é o mesmo que prender um coadjuvante, mas a essência dos fatos não muda. Bolsonaro, o presidente, também ataca as instituições e os ministros do Supremo diariamente, e ameaça com golpe com uma frequência nunca vista, assim como faz a familícia. Só que Jefferson e o Daniel não têm o aparelho institucional sempre a postos para sua defesa, o que comprova que são coadjuvantes. De luxo, mas coadjuvantes. Não fosse, certamente o PGR teria saído em sua defesa, ou o presidente do Congresso, como fazem essas duas figuras sempre que o nome Bolsonaro aparece na linha de tiro.

Então, aceitando por mero efeito de argumentação, que ainda não haja elementos suficientes para a prisão do Bolsonaro Messias, talvez seja o momento de perguntar porque os bolsonaros filhos ainda estão livres? E os generais do staff bolsonarista, por que ainda andam livres, leves (alguns nem tanto) e soltos? Talvez uma pequena lista ajude neste momento:


–  “Uma afronta à autoridade máxima do Poder Executivo e uma interferência de outro poder na privacidade do presidente da República e na segurança institucional do país […] poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional” (General Heleno, maio de 2020);¹

– “Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta. E uma resposta, ela pode ser via um novo AI-5” (Eduardo Bolsonaro, outubro de 2019);

– “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos” (Carlos Bolsonaro, setembro de 2019).

O que essa gente toda tem, então, que falta a Jefferson e Daniel? Um Aras ou um Lira? Sim, mas talvez haja pedra nesse feijão. Enquanto se manda prender no segundo escalão, a boiada vai passando e os direitos trabalhistas, por exemplo, vão acabando. Não esqueçamos das ligações do ministro com o liberalismo tucano, enfim. E aí começa a fazer sentido de novo o refrão: “sei até que parece sério, mas é tudo armação…”

¹ O que os celulares da famiglia teriam de tão poderoso para abalar as estruturas da república?

*Imagem de destaque copiada de https://passandonahoradf.com.br/2021/04/18/tudo-pronto-pra-ffaa-agir-bolsonaro-da-sinal-david-salomao-e-roberto-jefferson-convocam-exercito/. Acesso em: 17 de ago. 2021.

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bolsonarismo, Política

A fantástica fábrica de fumaça: ou de como se arma um golpe

O assunto do momento é a promoção dos generais ao marechalato. Ou era, já que a produção de bombas de fumaça tem ritmo industrial e enquanto este texto estiver no prelo talvez já haja outro tema fundamental a ser discutido nas rodas e nas redes. Verdade? Mentira? Está no portal da transparência, este sistema hermético a que só iniciados têm pleno acesso? Não está? É legal? O Dr. Tibiriçá pode ser marechal, furando a fila, já que encerrou a carreira como coronel? Enquanto a opinião pública entra na onda da mafiomídia, sempre ávida por assuntos que distraiam a audiência enquanto a pátria é subtraída em tenebrosas transações, e se perde nesse debate que parece que sai de lugar nenhum e chega a nenhum lugar, a boiada vai passando, e pastando. Sim, é importante saber a verdade sobre esse absurdo, mas a GUERRA do momento se trava em outras frentes.

Na semiótica perversa do bolsonarismo, esta é mais uma “mensagem subliminar”. O pressuposto para a existência dessa excrescência bem ao gosto da caserna, uma patente extraordinária concedida a militares com “notáveis serviços prestados à nação”, é a guerra. A guerra pode viver sem marechais, embora isso seja improvável, mas marechais não vivem sem guerra. Estamos em guerra. Com ou sem novos marechais.

Entendido que o tempo é de guerra, vamos para outra ponta da análise. A narrativa da ameaça vermelha, que esteve na base de todos os golpes aplicados na democracia brasileira desde a república – também ela originada num golpe – foi requentada por Olavo de Carvalho nos anos 90 e levou Bolsonaro ao poder. Pouco menos de um século antes, um dos maiores embustes da história mundial foi engendrado a partir dessa retórica fantasiosa: o Plano Cohen, que sustentou a instalação do Estado Novo. É possível pensar no discurso do voto impresso como um plano cohen bolsonarista, guardado na manga como uma carta a ser lançada na mesa, caso a lavagem cerebral de parte da população que pode sustentar a reeleição seja refreada e o resultado seja adverso? Desconfio que sim. Não com a sofisticação do mentiroso documento getulista, que os generais (seriam marechais?) de agora são bem menos inteligentes que os de 30. Mas a ameaça que ele encerra tem a mesma essência golpista.

Em O Presidente Negro, escrito nos anos 1920, Monteiro Lobato já antevia em mais de 300 anos o sistema eletrônico de votação como um mecanismo de extrema segurança na eleição estadunidense de 2228¹:

– Eram ainda as eleições no nosso sistema de hoje?

– As eleições do século 23 em nada lembravam as de hoje, consistentes na reunião dos votantes em pontos prefixados e no registro dos votos. Tudo mudara. Os eleitores não saíam de casa – radiavam simplesmente os seus votos com destino à estação central receptora de Washington. Um aparelho engenhosíssimo os recebia e apurava automática e instantaneamente, imprimindo os totais definitivos na fachada do Capitólio.

De há muito se havia eliminado as hipóteses de fraude, não só porque a seleção elevara fortemente o nível moral do povo, como ainda porque a mecanização dos trâmites entregava todo o processo eleitoral às ondas hertzianas e à eletricidade, elementos estranhos à política e da mais perfeita incorruptibilidade.

Como convinha a um racista empedernido e entusiasta da eugenia, a temática central do livro é a supremacia branca (e também masculina), visível no trecho em destaque, que coloca a seleção racial como elemento central na erradicação da corrupção, mas que atribui, também, à inviolabilidade do sistema eletrônico a impossibilidade de fraudes. Hoje, cada meme que as brilhantes mentes brasileiras lançam nas redes com esse motivo, longe de desagradar Bolsonaro e seus sequazes, mostram que a estratégia diversionista é cada vez mais certeira. Não há dúvida da grande capacidade do nosso povo de fazer piada de quase tudo. E isso é bom. É bom rir. Mas enquanto se perde um precioso tempo tratando a volta do voto impresso como mais uma das patacoadas risíveis de bolsonaro, e inventando piadas sobre isso, deixa-se de pressionar efetivamente o aparelho parlamentar bolsonarista a instaurar um, somente um, dos cento e tantos pedidos de impeachment engavetados pelo presidente da Câmara, que alguns reputam somente como um sabujo do (des)governo no Legislativo.

Não sou bom em cálculos, mas não tenho receio de afirmar que o tempo que demanda a discussão sobre o voto impresso é imensamente superior ao debate, se é que existe, sobre a recondução do emissário bolsonarista à PGR. Aliás, qual a parcela do eleitorado que conhece minimamente a função do Ministério Público da União e do seu chefe, o Procurador-Geral da República, na estrutura democrática do país? Alguém sabe que essa conversa absurda de volta a voto impresso poderia ser facilmente encerrada se houvesse um PGR autônomo e zeloso das suas funções determinadas pela Constituição Federal e não fosse apenas uma espécie de posto avançado da presidência no Ministério Público?

Imagem copiada de: https://eassim.com.br/para-aras-e-lira-bolsonaro-nao-comete-crimes-ao-atacar-democracia-e-ofender-autoridades/. Acesso em: 9/8/2021.

De outro lado, vejo pouquíssimo debate sobre o avanço ianque na Amazônia, que atenta ostensivamente contra a soberania nacional, e ainda menos sobre as reformas devastadoras que a agenda do chicago boy promove, que entregam o estado brasileiro ao capital privado, e contam com forte apoio do Congresso golpista.

No Judiciário, a reação patética do presidente do STF aos ataques bolsonaristas à Corte foi mais um ato dessa ópera bufa (que sequer merece essa comparação) e escancarou a covardia das instituições diante da violência do monstro fascista. E neste caso mostra que o filho número 171 tinha razão quando disse que não precisa nem de um jeep pra fechar o Supremo. Enquanto isso é visto como uma verborragia estúpida do sujeito que disputa com o pai e os irmãos o posto de demente maior da familícia, o efeito prático é o mesmo, porque escancara um tribunal acovardado e inerte, que se limita a pronunciamentos que provocam tantas gargalhadas na canalha quanto os memes do voto impresso. Tribunal que aceita com naturalidade um dos seus ministros, não por acaso o presidente do TSE, ser chamado de filho-da-puta pelo mandatário genocida (https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/bolsonaro-chama-barroso-de-filho-da-puta-mas-apaga-video-assista/).

Talvez tenhamos nos próximos dias (mais) uma poderosa nota oficial da OAB exigindo respeito às instituições, (mais) um forte manifesto da ABI pela liberdade de imprensa, ou (mais) uma carta aberta conjunta de entidades que pregam a manutenção do estado democrático de direito, que não servirão para mais do que provocar boas doses de risadas do exército bolsonarista, que, como disse o seu messias, caga pra essas coisas.

É preciso mais do que nunca abandonar os eufemismos e dar nomes claros e entendíveis às coisas, para que se possa entender a verdadeira dimensão que elas têm. Rachadinha, de que, a propósito, já não se fala (as bombas de fumaça…), é ROUBO e CORRUPÇÃO; ruptura institucional é DITADURA; voto impresso e auditável é GOLPE. Está na hora do campo político progressista entender a retórica do bolsonarismo e encontrar o caminho em meio à fumaceira dos balões de ensaio que a cada dia são disparados na mídia e nas redes e que têm o objetivo único de desviar a atenção da destruição do país pela cavalgada fascista ultraliberal. A pensão das filhas solteiras é distorcida e se constitui numa vergonha nacional, isso não se discute, mas enquanto este for o assunto dominante, estamos cada vez mais próximos de um golpe oficializado. O plano do voto impresso, ao mesmo tempo em que funciona como mais uma das tantas manobras diversionistas dos criminosos que comandam o país, tece lentamente e com cuidado a teia que vai sustentar a quartelada de outubro de 2022. O povo tem pouco mais de um ano para entender essa lógica e fazer o que é preciso para derrubar o governo facínora. A alternativa é continuar se debatendo entre fakenews e cortinas de fumaça e acreditando que o talento das instituições para produzir notas e manifestos bonitos e bem escritos vai salvar o país do abismo para que ele está sendo empurrado em marcha acelerada.

Imagem copiada de: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50810066. Acesso em: 9/8/2021.

¹LOBATO, Monteiro. O presidente negro. Jandira, SP: Ciranda Cultural, 2019. p. 93.

Imagem de destaque: acervo do autor





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Agronegócio, bolsonarismo, Direitos Humanos, Política, Rio Grande do Sul

A neve nos campos de soja: ou o estado das três capitais

O que não tem faltado ultimamente é assunto para a crônica política. Hoje poderia especular, por exemplo, o que está por trás do suposto desentendimento entre Bolsonaro e o chicago boy na taxação das elites. Poderia fazer um crossover de esporte e política, pensando que a rede goebbels, ops, Globo, poderia terminar de vez com o discurso quadrienal hipócrita da superação e do heroísmo dos e das atletas olímpicas do BraSil – que se superam e são heróis e heroínas – e usar todo o seu poder para cobrar incentivos reais dos governos e da classe empresarial para que o esporte seja realmente um caminho para melhorar o país. Seria legal ir mais especificamente a um ponto alto desta olimpíada, onde tem aqui sim um crossover maravilhoso que une Bach e MC João. E o Mário Frias? Não daria pano pra manga falar sobre a desgraceira cultural no braZil com essa gente no poder?

Imagem copiada de https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/07/4940245-planalto-homenageia-dia-do-agricultor-com-imagem-de-homem-armado.html

Só que esta semana um amigo me mandou por WhatsApp algo que ele escreveu. Este meu amigo é uma das referências mais importantes no meu envolvimento com coisas da política, desde as lutas sindicais do serviço público federal nos anos 90 e da formalização do Diretório Acadêmico Osvaldo Oppitz, no velho colegião do Direito da Ritter dos Reis, em Canoas, ainda nos 90’s. A análise que ele faz da conjuntura política do enclave europeu em terras brazilis é preciosa. Pedi autorização para compartilhar o texto e ele disse que sim, mas que por algumas razões não queria que fosse revelada a autoria dele. Sugeriu que eu assinasse como meu. Jamais faria isso! Seria uma sacanagem com ele, que mesmo com a sua decisão de anonimato respeitada, claro, é o autor; mas seria uma sacanagem ainda maior comigo mesmo, porque as pessoas que me leem esperariam daqui pra diante que eu escrevesse dessa maneira e eu preciso de muita estrada pra chegar perto do que o A… – ops, quase entreguei a rapadura! – faz. E, ademais, a proposta aqui é divulgar ideias e não autorias. Então, muito obrigado pela generosidade de partilhar o teu pensamento, meu querido amigo, e me permitir a honra de ser o teu porta-voz neste momento! Segue aí o teu texto, que agora é de todes.

“Hoje no Rio de Janeiro, faz 32 graus e quem pode, se mandou para a praia. Mais tarde, os infelizes cariocas vão tomar uma cerveja antes de dormir, escutando os inúmeros tiroteios que já fazem parte da ecologia acústica local. Quem sobreviver à Guerra Civil, poderá ver reality shows idiotas com pessoas mascaradas cantando.

O gaúcho empobrecido não se importa em andar de Havaianas no meio da chuva congelada. Importante mesmo é saber que os estancieiros da Farsul estão produzindo soja pelos poros e pressionando pela dragagem do Super Porto. Enquanto o gaúcho pobre, separatista de Extrema Direita e chauvinista odeia a China e denuncia o seu vírus fabricado em laboratório, os estancieiros gaúchos supremacistas brancos, risonhos e rechonchudos vendem soja para Pequim.

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É fato: os cariocas e os fluminenses são analfabetos políticos porque conseguiram eleger Jair Bolsonaro, seus filhos sádicos e o pastor Marcelo Crivella. Os cariocas gostam de figuras sebosas e criminosas que usam a política para se valer do Foro privilegiado. São portanto diferentes dos gaúchos: os gaúchos são politizados, e elegeram Antônio Britto, Germano Rigotto, Yeda Crusius, Lasier Matins, Ana Amélia Lemos, e o garoto do governo perfeito sem questionamentos, Eduardo Leite. Também conseguiram transformar em deputados Onyx Lorenzoni e Danrlei de Deus, e catapultaram ao senado o líder da SS local, Luis Carlos Heinze.

Heinze é um racista patético, bolsonarista inflamado e que não nega a gloriosa tradição ariana: lidera pesquisas para o governo do estado. Em 2014, então deputado federal, Heinze se referiu aos quilombolas, indígenas e homossexuais como “tudo o que não presta”. Eleito pelos europeus “o racista do ano” naquele longínquo 2014, Heinze agora se tornou famoso por dizer que Cloroquina cura de berne no gado à Covid. Naquele ano, nosso vereador de Rio Grande, Wilson Batista (PMDB), vulgo Kanelão, se nivelou a Luis Carlos Heinze ao dizer que na Democracia rural gaúcha, os negros podiam até comer em restaurantes. Os gaúchos elegem esta gente graças ao seu projeto: uma pátria que seja um Reich. Avante gaúchos da Gestapo!

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Os gaúchos colocaram Heinze no senado porque são politizados e inteligentes. São inteligentes graças à sua genealogia, pois conforme a RBS são todos brancos, não fazem parte do Brasil e estão no topo da ciência vitoriana, com sangue caucasoide. No Rio Grande do sul da RBS, qualquer um que morrer de hipotermia, estará dando a sua vida pelo grande projeto da pátria pampeana: o sonhado Reich local.

Enquanto as multinacionais lavam dinheiro em consórcios nacionais, e compram nossas estatais por preços de terrenos nos subúrbios de Rio Grande, os gaúchos empobrecidos, sem bombachas e sem chimarrão, guardam para si o único souvenir da enorme pátria pampeana que lhes resta: o frio. Há frio para todos aqui. Falo de frio de verdade. Há muito frio hoje no Rio Grande do Sul. O povo gaúcho é frio: odeia o magistério, odeia os indígenas, odeia os sem terra. O gaúcho não tem onde morar, mas defende o direito dos latifundiários armados. O gaúcho também é homofóbico, mas engole Eduardo Leite, porque ele é o gay que não afronta os estancieiros heteronormativos que manobram o relho no interior.

Nossas frentes frias não vêm da Terra do fogo e nem do pampa argentino, mas sim da nossa gênese positivista: os gaúchos acreditam na meritocracia e quem nela não se encaixa, que seja banido pelo Darwinismo social, com a nossa seleção natural. Educados pela Farsul e pela RBS, conglomerado do jornalismo canalha e conservador, boa parte dos gaúchos é separatista e quer expulsar daqui índios e negros. Nesta lógica, a lógica patife da Rede Brasil Sul, o estado terá 3 capitais: Porto Alegre será a capital administrativa, para o empresariado negociar como comprará nossa infraestrutura a preços baixos. Torres será a capital no verão, para receber turistas brancos. Milícias de brigadianos cercarão Gramado, que será a capital de inverno: uma cidade fortificada onde pobres não entram.

Ao lembrar que logo será setembro, e que milícias de bombachudos gaúchos sairão a dar relhadas em gays que se atreverem a desfilar com a bandeira LGBT, lembro enfim do que fizeram deste estado e da propaganda do McDonald´s: Eu odeio muito tudo isto.”

Imagem copiada de https://www.portaldasmissoes.com.br/noticias/view/id/3608/pobre,-mestico,-sem-terra,-marginalizado…–o-gau.html

*Imagem de destaque copiada de https://domtotal.com/artigo/7517/2018/06/latifundio-violencia-campesinato-classe-social-que-luta-pela-terra/

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bolsonarismo, Necropolítica, Política

A promissória do diabo

Das versões do Fausto que li, a que mais gostei é a do Thomas Mann, que conta a história do fictício compositor Adrian Leverkhün. O músico é inoculado com o veneno demoníaco na única relação sexual que mantém na vida, com a prostituta que ele chama em seus delírios sifilíticos de Esmeralda. Tempos depois é visitado pelo próprio Diabo, que propõe um acordo, oferecendo-lhe 24 anos de genialidade absoluta, em troca, claro, da danação eterna. O biógrafo e narrador é o seu amigo e profundo admirador Serenus Zeitblom, que escreve durante o Terceiro Reich, anos depois dos fatos que descreve. As reflexões do erudito professor, aliadas a outros tantos elementos simbólicos do livro, acabam se constituindo numa crítica pesada à Alemanha nazista.

Mesmo que por vezes não nomeado, o mito do Fausto inspirou inúmeras obras literárias mundo afora. De Dostoievski a Guimarães Rosa, passando por Machado de Assis, Ariano Suassuna e a literatura de cordel, muitos são os escritores e escritoras e até roteiristas de telenovelas que se valeram da lenda, que, por tratar de questões ligadas a crenças, fés, superstições, criou um imaginário muito rico, havendo até quem defenda a existência de um Fausto real, que teria vivido em algum tempo entre o meio e o fim da Idade Média. Para o bem e para o mal, mitos existem, enfim.

Quando os bolsonaristas elevaram o seu Messias à condição mitológica, eram os ecos de outro mito que estavam latentes. Bolsonaro seria a reencarnação brasileira d’El Rei Dom Sebastião, que ressurgia de batalhas antigas e heroicas para redimir o povo e restaurar a grandeza da pátria, aviltada pelos governos que foram se avermelhando cada vez mais desde que os homens de farda largaram o osso (ou não).

Talvez Bolsonaro se imagine um rei, porque isso tem tudo a ver com uma mente doentia, megalomaníaca em grau elevadíssimo, e também vai ao encontro do fanatismo do seu exército de sequazes, dignos de figurar na lista da Loucura de Erasmo. Mas eu vejo a trajetória do sujeito o afastando cada vez mais de qualquer semelhança com o messianismo sebastianista e chegando muito mais perto de configurar um tipo faustiano. Não podemos deixar de pensar no curto espaço de tempo que separa a epifania macabra de Bolsonaro como salvador da pátria das ameaças cada vez mais concretas de que venha a sentar no bando de réus do tribunal penal internacional por crime de genocídio. Antes da sua ascensão meteórica, pouca gente sabia ou sequer tinha ouvido falar de Bolsonaro, salvo por uma ou outra aparição na mídia, motivada pelas atrocidades que já dizia quando era um um obscuro e inexpressivo parlamentar. Hoje se sabe que desde essa época já se pode questionar a sua propagandeada honestidade, só não tinha ainda a fama de ladrão que muita gente lhe atribui hoje, porém mais do que buscar provas do seu passado de crimes, importa investigar como se deu a sua escalada ao poder.

Imagem copiada de https://catracalivre.com.br/dimenstein/dimenstein-odio-de-carluxo-contra-globo-faz-bolsonaro-passar-vexame/

Na tentativa de explicar Bolsonaro pelo mito demoníaco, precisamos definir os outros personagens centrais. Na nossa versão braZileira do Fausto, o Diabo se chama Instituto Millenium e a sua emissária atende pelo nome de Rede Globo. Nas eleições de 2018, a rede mafiomidiática amargava quatro insucessos em sequência, protagonizados por políticos do tipo sopa de hospital e por um que é o único caso conhecido de tucano com nariz maior que o bico. Cansada das derrotas recentes, a Globo viu nas justas reivindicações das Jornadas de 2013 a oportunidade de distorcer os fatos e subverter a história, e habilidosamente construiu uma narrativa que elevava o povo à condição de senhor do seu próprio destino. Com esse discurso sofismático, convenceu a classe mé(r)dia que o certo é lutar sem partidos e, a partir do enfraquecimento do instrumento de representação democrática por excelência, articulou um golpe parlamentar, levando ao poder outra figura infernal, o vampiresco Michel Temer, em 2016. Com isso, ganhou 2 anos para pensar em alguém capaz de retomar a implementação da agenda ultraliberal, que havia sido parcialmente interrompida pelos governos anteriores. Para isso, não hesitou em apoiar a política nazifascista de Bolsonaro, escorada na retórica fácil do combate à corrupção e do restabelecimento da ordem e da segurança social, afinal, bandido bom é bandido morto.

Protegido pelo pacto espúrio celebrado com as elites, que já haviam bancado os/as patriotas da Paulista e outros patos braZil afora, Bolsonaro não se preocupou nem mesmo em construir um discurso moderado. Pelo contrário, recrudesceu ainda mais a sua retórica fascista, vomitando arrogância, prepotência e autoritarismo, e transformando a sua massa eleitoral num caso singular na história dos regimes democráticos – ou pseudodemocráticos -, já que ela estava votando num candidato pela plataforma que ele não cumpriria se eleito. Por uma razão lógica, os eleitores e as eleitoras escolhem seus e suas representantes acreditando que se manterão fiéis às suas promessas. Em campanha, Bolsonaro continuou a defender a tortura, disse que pessoas deveriam ser assassinadas apenas por militarem em campos políticos opostos, reafirmou a própria homofobia, se mostrou mais misógino do que nunca, fez discursos racistas, enfim, continuou sendo o mesmo facínora de sempre. Confrontado com esse discurso, o seu eleitorado se limitava a dizer que ele não faria tudo o que se comprometia a fazer, que isso era apenas conversa eleitoral. Ou seja, acreditaram que estava mentindo e por isso votaram nele. Hoje se vê que ele pode ser acusado de muitas coisas, menos de estelionatário eleitoral, porque tratou de cumprir cada promessa virulenta feita na corrida ao Planalto.

Imagem copiada de https://www.cut.org.br/noticias/redes-sociais-bombam-com-depoimentos-de-eleitores-de-bolsonaro-ja-arrependidos-4850

Acontece que o Diabo nunca esquece de liquidar uma fatura e o governo de Bolsonaro se aproxima do fim na mesma velocidade em que se degrada a sua saúde e o seu corpo segue o caminho da sua mente putrefata. No caso da nossa adaptação braZileira do mito, o miserável fausto se acreditou mais poderoso que o Chefe e agora vê o chão começar a se abrir à sua frente e a escuridão do inferno cada vez mais próxima. Reafirmo que não desejo que Bolsonaro morra no hospital. Não, ele precisa viver para pagar a conta. Não a promissória assinada para o capeta, que essa pode ficar pra depois, mas a dívida que contraiu com os milhões de pessoas que sofrem a sua necropolítica e que só faz aumentar. Ele precisa estar bem vivo para sorver lentamente o seu próprio veneno e ver a si próprio e a sua família que adora bandidos (que só são bom mortos, lembremos disso) sofrendo lentamente as consequências dos seus crimes, que a CPI e os noticiários divulgam diariamente. É preciso, sobretudo, mantê-lo com as faculdades mentais intactas (trabalho difícil, mas necessário) para saber que não foi mais do que um imbecil útil, usado e descartado quando já não servia mais.

Chamo atenção para o fato de que o que se aproxima do fim é governo DE Bolsonaro e não O governo bolsonaro. Há uma sutil diferença aqui, porque muito se tem dito, e com certa razão, que a queda de Bolsonaro agora pode piorar a situação do país e do povo, já que os militares assumirão o poder de forma aberta e legitimados pelas circunstâncias. É bem verdade, então, que o bolsonarismo é maior que Bolsonaro, mas é difícil imaginar algo pior do que a familícia neste momento. E, ademais, é preciso aprender a lidar com um problema de cada vez. O alvo a ser abatido é o potencial genocida e os seus filhos notadamente psicopatas. Depois a gente vê o que faz com o pessoal da caserna.

“Um homem sem juízo e sem noção não pode governar esta nação.”¹

¹Refrão da música “Desgoverno”, de Zeca Baleiro e Joãozinho Gomes. Veja o vídeo completo em em https://www.youtube.com/watch?v=tcPVDQUlGr0&ab_channel=RedeTVT

Imagem de destaque copiada de https://m.leiaja.com/cultura/2018/04/28/com-critica-ao-fascismo-e-bolsonaro-bandas-lancam-disco/

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bolsonarismo, Política, Rede Globo

Quando é preciso se aliar com o capeta pra derrubar o diabo

Entre as transformações sociais gigantescas que as últimas décadas apresentaram ao mundo, a televisão é das mais impressionantes. Há algumas décadas, as redes eram conhecidas pelo número (canal 12, canal 5 etc.) e os aparelhos transmitiam imagens em preto e branco, muitas vezes sujeitas a interferências que se resolviam com absoluta criatividade, como botar um pedaço de bombril na ponta da antena para estabilizar a imagem. O advento das parabólicas promoveu uma pequena revolução no mundo das transmissões televisivas. Além de garantir uma boa qualidade de imagem (talvez menos do que razoável nos padrões atuais), uma antena dessas possibilitava assistir programas de outros lugares, à vezes até bem remotos, de outros países, por exemplo. Logo em seguida vieram os serviços de assinatura, pelos quais se pagava para ter acesso a uma programação de maior qualidade. Lembro de uma entrevista que li com o Ratinho anos atrás em que dizia que o negócio dele era apresentar programa “povão” mesmo e quem quisesse programação de qualidade deveria assinar “tv a cabo”. Em um sistema que poderia se dizer, por analogia, de dupla ou tripla tributação, apareceram logo os conteúdos disponibilizados em pay-per-view, literalmente “pague pra ver”. Além de pagar a conta da luz, a pessoa precisava assinar um serviço de transmissão especial, a tal tv a cabo do Ratinho, e, caso quisesse um conteúdo mais específico, tinha que desembolsar mais uma grana para aderir ao pay-per-view. Hoje já estamos em outra fase, com as plataformas de streaming (Netflix, Amazon, Globoplay). Sabe-se lá o que vem pela frente.

Nesse tempo todo, uma coisa não mudou: a Rede Globo continua nadando de braçada no mar da grande mídia. E essa hegemonia faz com que nada lhe escape. Digo isso porque vejo muita gente maravilhada com a cruzada anti-bolsonarista promovida pela rede. Eu me paro muitas vezes em frente à tv me deliciando com os ataques do apresentador e editor do Jornal Nacional ao governo bolsonaro. E acho mesmo que isso deve ser saudado, porque quando o inimigo é o diabo, lutar do lado do capeta não é de todo ruim. Mas, como diria Raulzito, conserve seu medo. Basta reparar com alguma atenção e um olhar mais crítico na linha editorial proposta pelo jornal televisivo de maior audiência no país para perceber que, no meio do tiroteio desferido incessantemente contra Bolsonaro, Weintraub (100 mil mensais no Banco Mundial…), Araújo, Salles, enfim, na artilharia contra (nem) todo o séquito do governo bolsonaro, falta um alvo. Nunca, digo de novo e destaco, NUNCA há qualquer crítica ao chicago boy Paulo Guedes e à plataforma econômica do governo fascista. Então eu lembro que naquela reunião ministerial que deveria derrubar a república, o próprio Bolsonaro disse que não passaria pano pra nenhum ministro. Nenhum, com exceção daquela figura quase caricatural, que bem poderia estrelar um filme do Woody Allen (como tantas neste desgoverno), porque, segundo o próprio genocida presidente, com este não precisa se preocupar.

Imagem copiada de https://www.jornalgrandebahia.com.br/2018/11/governo-bolsonaro-paulo-guedes-deve-assumir-funcoes-do-trabalho-e-aniquilar-direitos-trabalhistas-e-sociais/

Num tempo em que as instituições ainda tentavam funcionar nos parâmetros republicanos, no já longínquo 1994, um constrangido Cid Moreira, que já foi a própria Voz de Deus, leu, no mesmo Jornal Nacional, um texto escrito por Leonel Brizola, que por determinação judicial conquistou o direito de se defender das acusações que a rede lhe fazia em tempo integral e que certamente o impediram de ter exercido o cargo máximo da república (a história se repetindo). Aqui uma boa matéria sobre o fato, inclusive com o vídeo: http://memorialdademocracia.com.br/card/quando-a-justica-vergou-a-tv-globo

Passado um quarto de século, a luta anticorrupção (?) e a plataforma ultraliberal foram duas colunas de sustentação da eleição de Bolsonaro. Enquanto o discurso de mãos limpas do presidente da república de curitiba falava direto aos corações e mentes da classe mé(r)dia, sedenta pelo sangue da bandidagem, (do colarinho branco e da favela, com preferência para o da última), a plataforma entreguista de Guedes garantia o apoio da elite empresarial, que congrega a tchurma do agronegócio (agro é pop…), da educação, da exploração dos recursos energéticos e outras, com as quais a Rede Globo mantém sólidas relações. A bem da verdade, nessas e em outras áreas, a Globo tem muito mais do que boas relações, tem participação direta, como mostra a série de reportagens veiculadas no Le Monde Diplomatique Brasil em 2018 (https://diplomatique.org.br/investigando-os-donos-da-midia-no-brasil-pos-golpe/).

Tenho pra mim, e converso com pessoas que pensam mais ou mesmo da mesma forma, que os governos Lula e Dilma passaram muito longe do comunismo, e isso é uma obviedade, mas que sequer podem ser considerados modelos de governos de esquerda. Para comprovar isso, basta ver que nomes como Joaquim Levy, Henrique Meirelles, Katia Abreu, Jorge Gerdau Johanpetter, o próprio vice de Lula, José Alencar, entre outros representantes da elite, tiveram trânsito livre e posições de destaque nos anos em que o PT ocupou o Planalto. Sei que alguém dirá, e com certa razão, que é preciso fazer alianças, ceder aqui e ali, abrir mão de algumas coisas em troca de outras mais importantes, enfim, é preciso fazer política em sentido amplo para governar um país. E não tenho dúvidas que os governos de Lula e Dilma foram disparadamente os melhores da história do Brasil. Só que governaram para os dois extremos, o dos muito ricos (os bancos lucraram horrores) e o dos muito pobres (milhões de pessoas deixaram a linha da pobreza absoluta), deixando em segundo plano os interesses mais imediatos de quem não estava em nenhuma dessas pontas. Esse erro acabou sendo fatal, pois na onda das Jornadas de Junho, cujas pautas eram as da classe média (agora sem r no meio), a direita e, pior, a extrema direita, ou pior ainda, o fascismo, soube surfar e o resultado tem nome, Golpe, e sobrenome, Messias Bolsonaro. Da mesma forma que numa concepção clássica do marxismo o socialismo deveria preparar o terreno e fazer a transição para o comunismo, o governo golpista de Michel Temer apenas limpou o mato (e a mata) para o nazifascismo bolsonarista.

Agora, a mesma Globo que vetou Brizola e elegeu Bolsonaro é vista como a salvação da lavoura. De que vai salvar a lavoura há pouca ou nenhuma esperança, mas que ajudará, como ajuda sempre e muito, os donos da lavoura, disso não há nenhuma dúvida. Assim, que aceitemos a ajuda da rede pra derrubar Bolsonaro, mas que fiquemos com as orelhas em pé, sabendo que a turma do Bonner não dá ponto sem nó e que as estratégias que usou no passado vão continuar na ordem do dia neste novo… Millenium.

*Imagem de destaque copiada de https://www.otvfoco.com.br/globo-coloca-bolsonaro-no-bbb-e-coloca-presidente-no-paredao-durante-noite-inteira-na-tv/

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Política, Povos Índigenas, Republicados

Programa de (ou anti?) índio*

Entrevista com o Secretário-Geral do Conselho Indigenista Missionário, Cléber Buzatto ao Jornal Extra Classe (Número 194, junho de 2015, p. 16-17)

EC- Desde que a constituição de 1988 reconheceu os direitos indígenas, quais os avanços mais importantes?

CB- Houve passos importantes. algumas terras foram reconhecidas. A política de atenção à saúde avançou – pelo menos no papel, embora haja um passivo ainda muito grande. O problema é que mesmo esses passos incipientes ficam seriamente ameaçados com a perspectiva de derrubada do texto constitucional que reconheceu aos povos esses direitos.

EC- O que preocupa é somente a iniciativa do Legislativo com a PEC 215 e outros projetos?

CB- Não. Há decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), avançando em uma interpretação extremamente restritiva da Constituição, que entende que a terra não pode ser reivindicada por povos que não estavam sobre ela em 1988, na promulgação da Carta, mesmo que eles tenham sido expulsos. Isso foi aplicado inclusive em casos de demarcações já concluídas, como o caso dos Terenas na terra Limão Verde, no Mato Grosso do Sul. É uma perspectiva fundamentalista que retira direitos, o que é preocupante e pode potencializar conflitos que já haviam sido superados.

EC- E o Executivo, os indígenas têm cobrado a presidente Dilma?

CB- Há uma frustração bastante grande, um desapontamento já com Lula que se aprofunda com Dilma, uma vez que a perspectiva adotada desde o seu primeiro mandato é de explicitamente favorecer setores historicamente inimigos. Há inúmeras decisões administrativas que paralisaram demarcações no país, por exemplo.

EC- É um momento histórico especialmente ruim para os povos indígenas. O senhor vê alguma razão para isso?

CB- Está em curso uma articulação de setores da economia que têm interesses comuns, que atua em diferentes frentes e na mesma direção. São os representantes das commodities agrícolas e minerais, que se favorecem  de um modelo de desenvolvimento fortemente dependente do setor primário. Uma mostra disso é que o peso da exportação de matérias-primas no PIB passou de 40% para 60% nos últimos anos.

EC- De que modo essa articulação funciona?

CB- Está presente nos diferentes poderes do Estado brasileiro. Temos situações de lobby junto ao STF, um “frentão” instalado no Executivo, a atuação intensa junto ao Legislativo, financiando dossiês e campanhas parlamentares. Inclusive, na sociedade essa articulação aparece quando se propagam discursos preconceituosos e propaganda anti-indígena para legitimar ataques. O resultado disso é um aumento vertiginoso da violência contra lideranças.

EC- A imprensa contribui para essa propagação do discurso de ódio?

CB- Há setores da imprensa que são instrumentos desse processo, a TV Bandeirantes, por exemplo. Majoritariamente os grandes veículos de comunicação participam dessa estratégia porque têm interesses comerciais. As mesmas grandes empresas que financiam parlamentares que lideram os processos de restrição dos direitos indígenas são as campeãs de propagandas na TV. Um exemplo é o frigorífico JBS.

EC- E como se organizam os indígenas para contrapor essa articulação?

CB- Os povos têm demonstrado uma percepção da realidade bastante apurada e se manifestam permanentemente perante essa situação desde o 2º semestre de 2011. Há uma mobilização tanto nas regiões onde cada povo vive e também em Brasília, nos diferentes poderes do Estado brasileiro. Este ano tivemos uma manifestação com mais de 500 lideranças, em abril, que chegaram a ocupar o plenário da Câmara dos Deputados para chamar atenção. Muitas comunidades também estão retomando seus territórios.

EC- Fazendo a chamada “autodemarcação”?

CB- Exatamente. Há várias situações no Mato Grosso do Sul, com grupos Guarani-Caiowá e Terena. São retomadas bastante fortes, com muitas famílias participando dessas ações além de uma presença permanente de lideranças.

EC- Por que não parlamentares indígenas em Brasília?

CB- No Brasil não há nenhum representante indígena federal ou estadual eleito. O que temos no Congresso Nacional é uma frente parlamentar de apoio aos povos indígenas. O sistema político eleitoral inviabiliza por completo a eleição de representação indígena, porque o perfil dos eleitos é de candidatos que conseguem financiamentos vultosos de empresas privadas que dificilmente se interessariam por financiar lideranças indígenas, especialmente se tiverem a perspectiva de lutar pelos povos indígenas. A dispersão territorial dos indígenas também ajuda. A maioria dos estados, salvo Roraima e talvez algum outro, o percentual de indígenas é bastante baixo em relação à população total.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 14/7/2015.

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