História, Política

Ora pro nobis

Imagem copiada de: http://nodeoito.com/povos-indigenas-massacre/. Acesso em: 21 de fev. 2022.

Lá pelos anos de 1500, quando o império português começou a mandar gente (dizem que da pior qualidade) para terras brazilis, os bravos representantes da Coroa não encontraram uma terra abandonada ou deserta. Mas isso pouco interessou. A expansão ultramarina estava em pleno curso e a todo vapor. Aqui chegaram, aqui invadiram, aqui se estabeleceram e aqui se tornaram proprietários. Aos habitantes locais, que foram chamados genericamente de índios, ofereceram o benefício de trabalhar para os novos donos em troca de algum lugar pra dormir, quando possível, e algum resto de comida, quando sobrasse. Os tais índios, na maioria, não aceitaram muito bem isso, e em consequência começaram a ser assassinados, dizimados. Depois, El Rey entendeu por bem mandar os padres pra civilizar aquelas espécies. Saber orar é fundamental. De qualquer sorte, precisando de mais força pra trabalhar, trouxeram gente da África, em condições iguais ou piores que os selvagens aborígenes. Essa é, resumidamente, a história de como o Brasil virou um grande Portugal antes mesmo que virasse Brasil.

O velho Pedro Segundo, incensando como uma das mais brilhantes e visionárias mentes da história política brasileira, conhecia bem a história da queda dos impérios europeus, e já tinha se precavido há algumas décadas desse risco, instituindo um negócio chamado de laudêmio, que ficou conhecido como taxa do príncipe, pelo que a família real, incluindo todos os seus integrantes ad aeternum, teria (como tem) direito a um percentual sobre todas as negociações imobiliárias realizadas nas adjacências da tal Fazenda do Córrego Seco, que hoje corresponde à área nobre da chamada cidade imperial, Petrópolis. Isso, e algumas outras benesses, garantem aos herdeiros da Casa de Bragança o direito de nunca precisar derramar uma gota de suor em trabalho pela terra que tanto amam.

No final do século 19, os marechais resolveram acabar com a festa da Corte e numa quartelada acabaram com o regime imperial. Estava nascendo a república, do latim, res publica, ou coisa pública. A família imperial teve sorte diferente dos antigos donos da terra. Por um breve período de tempo, a lei do banimento manteve Pedro Segundo e sua turma fora do país, uma saída honrosa, como se poderia dizer. Mas, na prática, isso foi logo resolvido, os herdeiros voltaram ao país, e na consolidação do novo regime, os imperiais mantiveram o pleno gozo dos direitos adquiridos em tempos de fartura – eufemismo para vagabundagem.

Pois vejam agora a magnanimidade desses homens de sangue azul. Ante a tragédia que destruiu a sua cidade e a vida daquelas pessoas que regiamente garantem a subsistência dos príncipes, ofereceram… suas orações. Vale transcrever o trecho final da carta assinada pelo Príncipe Imperial do Brasil, que, em nome de seu irmão, o nó da família imperial, Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, oferece a solidariedade “à boa gente petropolitana”: “A Família Imperial, tão estreitamente ligada à Petrópolis, encontra-se sempre disposta a servir ao seu povo, oferecendo ainda as nossas orações e solidariedade a todos que vêm sofrendo. Rogo a Deus Nosso Senhor, por intercessão do Padroeiro São Pedro de Alcântara, que proteja e dê alento à boa gente petropolitana nesta hora de aflição.” Assina Dom Bertrand de Orleans e Bragança.

Alguém precisa dizer ao nobre imperial que oração é bom e importante, mas não bota comida na mesa e nem reconstrói casa derrubada. Mas, acima de tudo, alguém precisa acabar com os privilégios das elites sanguessugas, que parasitam o Brasil desde que a frota cabralina atracou aqui. Infelizmente esses absurdos só aparecem nos piores momentos, mas que pelo menos eles sirvam pra ver que as coisas precisam mudar no país e que a primeira mudança possível é a organização dos de baixo, até para influenciar fortemente nas urnas. Eleger governantes e, sobretudo, parlamentares comprometidos com os interesses do povo e não com a manutenção de privilégios históricos e a construção de novos, é fundamental.

Imagem copiada de: https://revistaforum.com.br/brasil/2022/2/18/petropolis-taxa-imoral-paga-familia-imperial-numa-cidade-enterrada-na-lama-110378.html. Acesso em: 21 de fev. 2022.

Depois de votar e eleger, é preciso acompanhar, fiscalizar e cobrar. Uma dica para o momento: o projeto de lei que acaba com essa farra do boi, ou melhor, com essa farra do príncipe, pode ser consultado aqui: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2238509

*Imagem de destaque copiada de: https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/brasil/2022/02/laudemio-entenda-o-que-e-a-taxa-paga-a-familia-real-em-petropolis.html. Acesso em: 21 de fev. 2022.

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bolsonarismo, Brasil, Política

(Des)Ordem e Regresso

Este blog originou-se de um antigo, chamado Na Cidade de Cabeça pra Baixo, que é o nome de uma música do Raulzito. Muito me apraz olhar as coisas sob uma perspectiva de cabeça pra baixo, olhando o teto como capacho. E por isso me apaixonei desde o primeiro momento em que soube do Mapa de Torres-García.

Já o Continente de São Pedro, também conhecido como Rio Grande do Sul, por diversos motivos, alguns legítimos, outros fantasiosos e outros muitos mentirosos, sempre avocou a condição de vanguarda brasileira (o estado mais politizado, menor índice de analfabetismo, povo guerreiro etc. etc. etc.).

Mas desta vez parece que estamos com a razão em nos achar na frente de todo o país. O Palácio Farroupilha, sede do Legislativo sul-rio-grandense – ou gaúcho, como queiram -, resolveu mostrar as coisas como elas andam no país. E não estou falando do gay governador que se quer governador gay, porque isso é assunto pra outra hora, mas da bandeira de cabeça pra baixo. Mesmo que tenha sido apenas uma falha da pessoa que hasteou, acho que ficou bem assim. Aliás, bandeira brasileira que o bolsonarismo conseguiu transformar num elemento negativo. Se bem que eu nunca acreditei nela como uma coisa positiva. Essa história de verde das matas e amarelo do ouro só serve se estivermos falando de como eram as nossas matas antes dos salles da vida, e de como brilhava o nosso ouro antes dos heróis d’além mar. De minha parte, prefiro ver nessa bandeira o que ela realmente representa: a submissão do gigante que se deita eternamente, mas em berço já não tão esplêndido. Submissão ao império português (Casa de Bragança e outros quetais) e depois da derrocada deste, a qualquer imperialismo que apareça por aqui a fim de mostrar que um filho “teu” foge à luta, sim, principalmente se tiver sido batizado como Jair Messias Bolsonaro.

Meu querido e saudoso Moraes Moreira, sendo ou não o que tu quis dizer, o braZiu bolsonariano segue firme ladeira abaixo.

Foto feita na data de hoje

*Todas as fotos são do acervo do autor.

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