bolsonarismo, Cinema, Política

Gado não olha pra cima

Quando postei aqui um texto antigo, sobre o filme Violeta foi para o Céu, observei que falar sobre Violeta Parra é falar em política mesmo sem querer falar em política. Não tenho nenhum talento, habilidade e formação, e, talvez por isso, não tenho também nenhuma vontade de escrever crítica de cinema. Mas gosto de filmes. E gosto de política. E gosto de debater política.

Um filme estrelado por Leonardo DiCaprio e Meryl Streep dificilmente não vai ser bom. Se tiver Cate Blanchet e Jennifer Lawrence também, a possibilidade de ser mais do que bom aumenta. Confesso certa alienação dos assuntos recorrentes na rede, ou trends, e acabei tomando conhecimento do filme num cartaz atrás de um ônibus. Não me chamou muita atenção da primeira vez. Da segunda, também num ônibus, imaginei um filme de ficção filosófica, meio chato, tipo Magnólia. Continuei desinteressado. Na última quinta-feira, estava procurando algo pra assistir e me surpreendi que o filme estava na Netflix. O meu nível de desinformação a respeito era tão grande que nem sabia que é uma produção da própria Netflix. Abri a sinopse e achei interessante, mas pensei em algo mais pra linha do suspense, como Caixa de Pássaros (bem fraquinho, aliás, apesar da Sandra Bullock). Com algumas cenas já passadas, passei a desconfiar que era uma comédia, coisa que já deveria ter ficado clara na frase de epígrafe.

Nos últimos anos, assisti Que Horas Ela Volta, Aquarius, O Som ao Redor, Bacurau, Merlí, todas as temporadas, inclusive as mais chatas, da Casa de Papel, alguns episódios de Black Mirror (o primeiro é sensacional), O Poço, que é uma tijolada, e por aí vai. Todos esses são filmes (e séries) que fazem pensar. E pensar nem sempre é tão fácil quanto parece.

A vantagem deste Não Olhe para Cima é que nem é preciso pensar muito pra ver que pouca coisa da atualidade escapa à crítica ácida e satírica do filme. Começa pela epígrafe: “Quero morrer dormindo como meu avô. Não gritando aterrorizado como os passageiros dele.” Como quase sempre faço quando um filme me chama a atenção, dei uma lida nas críticas. E este tem muitas. Tem gente dizendo que é raso, superficial; tem gente que diz que o roteiro é confuso e que a história não amarra as pontas; outras críticas dizem que é um grande filme; enfim, como sempre, tem de tudo, inclusive as chatíssimas análises que tentam desqualificar o filme pelas questões técnicas.

Eu gostei muito do filme porque machismo, choque geracional, ditadura da beleza ocidental, escracho ao sistema político, a certos valores da classe mé(r)dia mundial e ao american way of life, que também pode ser o braziian way of life, referências sutis, e outras nem tanto, à manipulação das mentes que a moderna tecnologia impõe, essas coisas estão presentes. Mas, acima de tudo, gostei porque o filme escancara o bolsonarismo. Se o palco fosse deslocado dos EE.UU. para o braZil, nenhum ajuste seria necessário no roteiro. O chefe de gabinete imbecil da presidenta poderia facilmente se chamar Carlos. O sujeito que vai comandar a missão oficial de destruição do cometa poderia se chamar Heleno ou Hamilton (ou Walter ou Luiz Eduardo) e não mudaria nada no filme. O megaempresário que determina o sistema, poderia se chamar Luciano ou simplesmente “alguma coisa Santos”. Tudo se encaixaria, mas o que ficaria mais do que adequado é a massa imbecilizada que usa o “não olhe para cima” como palavra de ordem de uma espécie de seita, cujo papel é acreditar no que os messias do poder dizem. E a hierarquia messiânica do poder aqui tem como figura maior o dono de uma indústria, que produz celulares, cuja tecnologia é consumida até por quem não faz parte da massa robotizada que passa a vida brincando de seguir o líder.

Em algum momento da vida, quando li bastante sobre animais em geral, descobri que bois, vacas e outros tipos de gado só olham para a frente e sempre que enxergam qualquer lado é pela visão periférica. Ou seja, nunca olham pra cima. E a disposição dos olhos, um de cada lado da cabeça, é típica dos animais que são presas, já que os predadores têm os olhos numa posição frontal. O gado não olha pra cima. O sujeito bolsonarista também não. O nome do filme é, por via diversa, uma metáfora do tipo bolsonarista, que só olha pra onde o messias manda. Me incomoda chamar a massa bolsonarista de gado. Qualquer associação de coisa ruim com animais me parece injusta, mesmo que seja apenas para identificar um certo tipo de irracionalismo, que impede a pessoa de fazer qualquer coisa por vontade própria. Aceitando só com esse último sentido a ideia de chamar o povo bolsonarista de gado, o filme retrata o bolsonarismo e seu gado.

Bolsonaro é tão megalomaníaco que é capaz de pensar que o filme foi inspirado nele e se orgulhar disso. Não foi, embora tudo esteja perfeitamente adequado ao bolsonarismo. Só que está adequado não porque Bolsonaro seja referência. Não é. O bolsonarismo, que pode ser dito como bolso-olavismo, não é um fenômeno genuinamente braZileiro. Nem pra isso Bolsonaro serve, ele não criou um sistema, simplesmente é uma marionete, uma figura caricata que preenche os requisitos necessários à implementação do sistema que, por conveniência e alguma boa sonoridade, leva o seu nome. E aqui se pode comparar a presidenta do filme a ele. Também ela chegou ao cargo pelo estereótipo que representa e não pelos méritos próprios da política. E o fim dela está à altura da sua figura, bizarrice em último grau. Quem viver verá o fim de Bolsonaro da mesma forma.

E por falar nele, no momento em que este texto é publicado, encontra-se hospitalizado por problemas possivelmente decorrentes da… fa(ke)cada. Oremos!

*Imagem de destaque copiada de: <https://www.terra.com.br/diversao/tv/blog-sala-de-tv/famosos-que-defendem-bolsonaro-de-tudo-e-todos-parte-3,52bb582d99876ace688d56d752cbe7d27xosk8g9.html.&gt; Acesso em: 6 de jan. 2022.

Imagem copiada de: <https://sul21.com.br/noticias/politica/2021/07/bolsonaro-sera-transferido-para-sao-paulo-onde-pode-passar-por-cirurgia/.&gt; Acesso em: 6 de jan. 2022.

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Política

O Bozo é apenas um palhaço

famiglia

Esclarecimento inicial: ao dizer que o Bozo é apenas um palhaço, não quis de maneira alguma desmerecer a profissão. Pelo contrário, como se verá adiante, a intenção é justamente fazer um desagravo ao palhaço, cujo nome é frequentemente associado ao ser que (des)governa o Brasil (deveria dizer Brazil?) atualmente, e consequentemente a todos os palhaços e palhaças do Brasil.

Uma tradição do cristianismo diz que os fiéis não devem pronunciar o nome do diabo. No Brasil essa orientação deu origem a um sem número de apelidos para o Coisa Ruim: Maligno, Sete-Peles, Inimigo, Tinhoso, Capeta, Capiroto, Peralta, Desgraçado, Maldito, Anjo-Mau, Pai-da-Mentira, Chifrudo, Mafarrico e por aí afora. 

Talvez por motivos semelhantes, e não sem razão, muitas pessoas evitam pronunciar e até escrever o nome do presidente da república. Bozo é um apelido que se consagrou na linguagem popular. É uma tremenda sacanagem com o palhaço Bozo que o seu nome seja usado para referir o fascista que se instalou no Planalto.  Porém, mais do que correr o risco de desagradar ao criador do personagem palhaço, não chamar Bolsonaro pelo próprio nome cria um certo distanciamento entre o homem e o personagem, que neste caso é um palhaço no mau sentido. 

O hábito de dar apelidos às pessoas e coisas é caro ao povo brasileiro e em geral advém de uma manifestação de carinho. Por vezes o próprio apelido é apelidado: Zezinho é Zé, que já é o apelido de José. Em geral quando se chama um José de José há uma conotação mais formal. Na intimidade, o José é simplesmente Zé, e se ela for ainda maior, vira Zezinho. Mas quando a mãe está braba, ela chama o sujeito pelo nome verdadeiro. Se for Zé e tiver outro nome junto, vão os dois: José Carlos! Se a gravidade da chamada for extrema, vai até o sobrenome: José Carlos de Tal!!! 

Há casos em que os apelidos são usados para associar elementos negativos ao verdadeiro nome. A Ação Penal 470 ficou conhecida no Brasil e no mundo por Mensalão. Mensalão é um nome pesado. Em outros momentos o efeito é contrário e se transforma praticamente em eufemismo. Chamar de “rachadinha” o esquema de corrupção praticado por muitos (e muitas) agentes políticos brasileiros, inclusive por Flávio Bolsonaro, de certa forma atenua a gravidade do crime. No mínimo alivia um pouco a carga.  

Temos, você e eu, algum carinho pelo presidente da república ou qualquer intenção de melhorar a imagem dele? Não. Então por que vamos chamá-lo pelo nome de um personagem criado para o público infantil, que tende a despertar certa simpatia nas pessoas? Por outro lado, Bolsonaro não precisa de nenhum apelido para tornar a sua imagem ainda mais nojenta e asquerosa. Então, se começarmos a chamar Bolsonaro de Bolsonaro, é provável que em pouco tempo este nome esteja inapelavelmente associado ao que ele de fato representa: um clã de bandidos. 

O Professor João Cezar de Castro Rocha* vem estudando o bolsonarismo há algum tempo, em especial a guerra cultural, que é por onde se consolida esse projeto de poder, cuja estrutura de linguagem foi criada e sistematizada por Olavo de Carvalho, muitas vezes menosprezado, talvez em face da caricaturização que ele tratou de fazer de si próprio ao longo do tempo, mas que é, na verdade, um homem de inteligência superior, podendo-se mesmo dizer que o bolsonarismo seria melhor caracterizado se chamado de olavismo. Estes dois termos, caricaturização e caracterização, são centrais no pensamento do Professor João Cezar, que defende que devemos justamente passar de uma à outra, ou seja, devemos deixar de tratar o bolso-olavismo, e os próprios personagens (família Bolsonaro, Olavo de Carvalho, ministros aloprados do governo etc.), como caricaturas e passar a caracterizá-los como instrumentos de uma plataforma política nefasta, que tem na produção de escândalos e notícias absurdas um dos mais fortes artifícios para levar em frente a sua implementação. Enquanto o povo se distrai com as pataquadas de Weintraubs e Ernestos Araújos da vida, o chicago boy Paulo Guedes vai passando a boiada do seu plano econômico que atende aos interesses das elites, sem ser importunado nem mesmo pelos neopaladinos da justiça social que apresentam o Jornal Nacional. (Quantas vezes o ministro da economia e a sua pasta foram criticados no telejornal mais assistido no Brasil?)

Chega de dourar a pílula, porque é chegada a hora de dar nomes aos bois, mesmo que eles sejam palhaços (novamente no mau sentido): Bozo é Bozo; Bolsonaro é Bolsonaro. 

*Para conhecer ou aprofundar o pensamento do Professor João Cezar de Castro Rocha, algo que recomendo muito, pode-se começar por aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=kMRFjMDfpMs 

(Foto de destaque copiada de https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50810066, visitado em 7/6/2021)

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