bolsonarismo, Necropolítica, Política

O bode na sala: ou ainda mais afinidades entre Trump e Bolsonaro

“Segundo todas as evidências, o _________ foi um dirigente execrável: egocêntrico, eivado de preconceitos, incapaz de empatia, vaidoso, inconsciente de suas responsabilidades. Não parava de mentir, inclusive sobre assuntos facilmente verificáveis, e de se comportar como demagogo, fingindo se preocupar com as classes populares. Usou a função suprema para enriquecer, locupletar os amigos e permitir às corporações refazer as leis conforme seus interesses. E negava a legitimidade de toda eleição cujo resultado não lhe conviesse.”

Se no dia de hoje a elipse da afirmação acima fosse preenchida com Jair Bolsonaro, alguém contestaria, exceto pelo fato do uso do verbo no passado? Engana-se, porém, quem pensa que a descrição original seja sobre o presidente do braZil. Trata-se de um artigo intitulado “Nos EUA, o conspiracionismo dos progressistas”, escrito pelo jornalista Thomas Frank e publicado na edição de agosto do Le Monde Diplomatique Brasil.¹ A análise feita pelo articulista se encaixa perfeitamente em muitos pontos na conjuntura que estamos vivendo no braZil de Bolsonaro.

Mais à frente, Frank diz que Trump foi incompetente e agiu como um idiota ao atacar as forças que o abandonavam. Aqui a relação Bolsonaro-Moro surge naturalmente. Diz ainda o artigo que Trump se apresentava como “um homem forte, sempre pronto a usar seu poder”, mas foi omisso diante da gravidade da pandemia. A diferença para Bolsonaro, neste quesito, é que este não está sendo omisso, antes está usando a crise sanitária para levar adiante a sua necropolítica.

Imagem copiada de: https://istoe.com.br/nome-jair-sobrenome-bolsonaro-acredite-ele-quer-te-matar/. Consultado em: 23/8/2021.

O que o jornalista chama de histeria na guerra contra Donald Trump também acontece por aqui. O domínio dos assuntos antibolsonaristas na grande mídia, Rede Globo, principalmente, impede que outros temas sejam tratados, certamente de forma proposital, pois enquanto se discute por horas, dias, semanas, o risível pedido de impeachment de Bolsonaro contra ministros do STF, a boiada vai passando, de forma metafórica e literal. E se nos EUA essa postura geral permitiu a ascensão de políticos tidos como insignificantes, que só tinham por pauta a oposição a Trump, como observa Thomas Frank, aqui acontece algo em sentido contrário, quando sujeitos absolutamente inexpressivos, como Bibo Nunes, Onyx Lorenzoni e Mário Frias, ganham momentos de fama exatamente por apoiar incondicionalmente o comandante em chefe das forças fascistas.

Frank diz que a elite intelectual estadunidense detectou o eleitorado de Trump formado por pessoas brancas e pobres, cuja motivação era o “medo racista de perderem status”. Por aqui também a manutenção ou a retomada do status quo das elites medianas esteve na base da eleição de Bolsonaro. Quando a socialaite disse que não tinha mais graça ir a Paris porque sempre havia o risco de encontrar o porteiro no aeroporto, e isso foi bem antes de Bolsonaro, estava sintetizando o pensamento da classe média – que se acha classe alta – brasileira. Hoje essa gente deve estar feliz, mesmo que não consiga mais ir a Paris com a mesma frequência, afinal, é melhor turistar menos, mas com a garantia de não ter nenhum encontro indesejado.

Há uma afirmação importantíssima no artigo em análise: “A histeria é também fonte de confusão: desorienta as pessoas e impossibilita o pensamento crítico em um país de individualistas que passam a se comportar como manada.” No nosso contexto político, a histeria é projeto. Do lado do governo fascista, um projeto de sustentação; do lado das corporações, um projeto de desviar a atenção das políticas deletérias ao patrimônio e à autonomia nacional. No fim das contas, claro, estão todos do mesmo lado, porque enquanto são enfatizados os aspectos pitorescos do “caso Sérgio Reis”, a boiada passa (de novo). Em termos de histeria, que se reflete na produção frenética de memes, o que dá mais assunto: a prótese peniana paga pelo povo ou o latifundiário da soja que financia o cauboi braZileiro? É de observar o destaque que o JN dará ao nome de Antonio Galvan nas matérias que tratam das investigações sobre Sérgio Reis. Ou se a Associação Brasileira dos Produtores de Soja – Aprosoja será referida.

Voltando ao caso dos EUA, posso dizer sem medo de errar que Trump X Biden é um caso típico do “bode na sala”. A reeleição do racista genocida seria o pior quadro possível, com poder de transformar o democrata (sim, Biden não é comunista) numa espécie de salvador da humanidade. Lembro, só de passagem, que uma das promessas de campanha da primeira eleição de Obama foi desativar a prisão de Guantánamo. Obama sucedeu George W. Bush, vencendo John McCain, já que o Bush filho não podia mais se reeleger. Biden, que foi vice de Obama, retomou o discurso de desativação da prisão. Alguém acredita nisso?

Trazendo a análise de volta às terras brazilis, a ideia do bode na sala vai impedir, salvo aconteça uma verdadeira revolução popular, qualquer possibilidade de impeachment de Bolsonaro. A Globo seguirá sustentando a narrativa histérica, que passa pela produção de escândalos em nível industrial e a não menos febril confecção de manifestos, notas de repúdio, cartas abertas, tão caras às nossas instituições e grupos de classe. Enquanto isso, os balões de ensaio vão sendo lançados, como o governador gay que não se quer gay governador, cujo ato inaugural da construção da imagem a partir da entrevista no Bial parece ter sido uma explosão de pólvora molhada, que não surtiu o efeito necessário. A mafiomídia deve atentar, porém, que o tempo está passando e talvez o bolsonarismo não tenha um testa de ferro tão burro quanto se quer fazer acreditar.

Disso tudo, o que fica é novamente o alerta que somente o povo tem o verdadeiro poder de mudar o quadro terrível e que se avizinha ainda pior. Delegar esse poder para as instituições é terceirização inútil, que vai servir apenas para dar continuidade à ilusão de que a Rede Globo e o STF estão de fato na trincheira certa.

¹FRANK, Thomas. Nos EUA, o conspiracionismo dos progressistas. Le Monde Diplomatique Brasil. São Paulo, ano 14, n. 169, p. 30-32, ago. 2021.

*Imagem de destaque copiada de: https://horadopovo.com.br/bolsonaro-diz-que-nao-vai-reagir-a-trump-porque-e-o-pobre-da-historia/. Consultado em: 23/08/2021.

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Agronegócio, bolsonarismo, Direitos Humanos, Política, Rio Grande do Sul

A neve nos campos de soja: ou o estado das três capitais

O que não tem faltado ultimamente é assunto para a crônica política. Hoje poderia especular, por exemplo, o que está por trás do suposto desentendimento entre Bolsonaro e o chicago boy na taxação das elites. Poderia fazer um crossover de esporte e política, pensando que a rede goebbels, ops, Globo, poderia terminar de vez com o discurso quadrienal hipócrita da superação e do heroísmo dos e das atletas olímpicas do BraSil – que se superam e são heróis e heroínas – e usar todo o seu poder para cobrar incentivos reais dos governos e da classe empresarial para que o esporte seja realmente um caminho para melhorar o país. Seria legal ir mais especificamente a um ponto alto desta olimpíada, onde tem aqui sim um crossover maravilhoso que une Bach e MC João. E o Mário Frias? Não daria pano pra manga falar sobre a desgraceira cultural no braZil com essa gente no poder?

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Só que esta semana um amigo me mandou por WhatsApp algo que ele escreveu. Este meu amigo é uma das referências mais importantes no meu envolvimento com coisas da política, desde as lutas sindicais do serviço público federal nos anos 90 e da formalização do Diretório Acadêmico Osvaldo Oppitz, no velho colegião do Direito da Ritter dos Reis, em Canoas, ainda nos 90’s. A análise que ele faz da conjuntura política do enclave europeu em terras brazilis é preciosa. Pedi autorização para compartilhar o texto e ele disse que sim, mas que por algumas razões não queria que fosse revelada a autoria dele. Sugeriu que eu assinasse como meu. Jamais faria isso! Seria uma sacanagem com ele, que mesmo com a sua decisão de anonimato respeitada, claro, é o autor; mas seria uma sacanagem ainda maior comigo mesmo, porque as pessoas que me leem esperariam daqui pra diante que eu escrevesse dessa maneira e eu preciso de muita estrada pra chegar perto do que o A… – ops, quase entreguei a rapadura! – faz. E, ademais, a proposta aqui é divulgar ideias e não autorias. Então, muito obrigado pela generosidade de partilhar o teu pensamento, meu querido amigo, e me permitir a honra de ser o teu porta-voz neste momento! Segue aí o teu texto, que agora é de todes.

“Hoje no Rio de Janeiro, faz 32 graus e quem pode, se mandou para a praia. Mais tarde, os infelizes cariocas vão tomar uma cerveja antes de dormir, escutando os inúmeros tiroteios que já fazem parte da ecologia acústica local. Quem sobreviver à Guerra Civil, poderá ver reality shows idiotas com pessoas mascaradas cantando.

O gaúcho empobrecido não se importa em andar de Havaianas no meio da chuva congelada. Importante mesmo é saber que os estancieiros da Farsul estão produzindo soja pelos poros e pressionando pela dragagem do Super Porto. Enquanto o gaúcho pobre, separatista de Extrema Direita e chauvinista odeia a China e denuncia o seu vírus fabricado em laboratório, os estancieiros gaúchos supremacistas brancos, risonhos e rechonchudos vendem soja para Pequim.

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É fato: os cariocas e os fluminenses são analfabetos políticos porque conseguiram eleger Jair Bolsonaro, seus filhos sádicos e o pastor Marcelo Crivella. Os cariocas gostam de figuras sebosas e criminosas que usam a política para se valer do Foro privilegiado. São portanto diferentes dos gaúchos: os gaúchos são politizados, e elegeram Antônio Britto, Germano Rigotto, Yeda Crusius, Lasier Matins, Ana Amélia Lemos, e o garoto do governo perfeito sem questionamentos, Eduardo Leite. Também conseguiram transformar em deputados Onyx Lorenzoni e Danrlei de Deus, e catapultaram ao senado o líder da SS local, Luis Carlos Heinze.

Heinze é um racista patético, bolsonarista inflamado e que não nega a gloriosa tradição ariana: lidera pesquisas para o governo do estado. Em 2014, então deputado federal, Heinze se referiu aos quilombolas, indígenas e homossexuais como “tudo o que não presta”. Eleito pelos europeus “o racista do ano” naquele longínquo 2014, Heinze agora se tornou famoso por dizer que Cloroquina cura de berne no gado à Covid. Naquele ano, nosso vereador de Rio Grande, Wilson Batista (PMDB), vulgo Kanelão, se nivelou a Luis Carlos Heinze ao dizer que na Democracia rural gaúcha, os negros podiam até comer em restaurantes. Os gaúchos elegem esta gente graças ao seu projeto: uma pátria que seja um Reich. Avante gaúchos da Gestapo!

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Os gaúchos colocaram Heinze no senado porque são politizados e inteligentes. São inteligentes graças à sua genealogia, pois conforme a RBS são todos brancos, não fazem parte do Brasil e estão no topo da ciência vitoriana, com sangue caucasoide. No Rio Grande do sul da RBS, qualquer um que morrer de hipotermia, estará dando a sua vida pelo grande projeto da pátria pampeana: o sonhado Reich local.

Enquanto as multinacionais lavam dinheiro em consórcios nacionais, e compram nossas estatais por preços de terrenos nos subúrbios de Rio Grande, os gaúchos empobrecidos, sem bombachas e sem chimarrão, guardam para si o único souvenir da enorme pátria pampeana que lhes resta: o frio. Há frio para todos aqui. Falo de frio de verdade. Há muito frio hoje no Rio Grande do Sul. O povo gaúcho é frio: odeia o magistério, odeia os indígenas, odeia os sem terra. O gaúcho não tem onde morar, mas defende o direito dos latifundiários armados. O gaúcho também é homofóbico, mas engole Eduardo Leite, porque ele é o gay que não afronta os estancieiros heteronormativos que manobram o relho no interior.

Nossas frentes frias não vêm da Terra do fogo e nem do pampa argentino, mas sim da nossa gênese positivista: os gaúchos acreditam na meritocracia e quem nela não se encaixa, que seja banido pelo Darwinismo social, com a nossa seleção natural. Educados pela Farsul e pela RBS, conglomerado do jornalismo canalha e conservador, boa parte dos gaúchos é separatista e quer expulsar daqui índios e negros. Nesta lógica, a lógica patife da Rede Brasil Sul, o estado terá 3 capitais: Porto Alegre será a capital administrativa, para o empresariado negociar como comprará nossa infraestrutura a preços baixos. Torres será a capital no verão, para receber turistas brancos. Milícias de brigadianos cercarão Gramado, que será a capital de inverno: uma cidade fortificada onde pobres não entram.

Ao lembrar que logo será setembro, e que milícias de bombachudos gaúchos sairão a dar relhadas em gays que se atreverem a desfilar com a bandeira LGBT, lembro enfim do que fizeram deste estado e da propaganda do McDonald´s: Eu odeio muito tudo isto.”

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Política

Entre novas palavras e velhas práticas: os mitos e os vômitos da política braZileira

Bolsonaro nunca leu Guimarães Rosa. Desconfio que se alguém perguntar, o desgovernante vai achar que é algum general de que ele não se lembra. Se bem que, a considerar o amor que tem pelo homens de farda, ele, que foi incompetente até para uma carreira que não exige vocação além do apreço pela violência e o gosto pela submissão, deve saber o nome completo e o CPF de todos os oficiais do Império até hoje. Já Guimarães Rosa, que em suas andanças pelos sertões nunca se separava do seu caderninho de anotações, recolheu as falas do povo e as reproduziu, fundiu, criou, inventou novas palavras, fez o povo brasileiro se reconhecer nos seus contos e romances. Chegou a um nível de brasilidade tão puro na voz de seus personagens que obrigou o seu tradutor alemão a verdadeiros malabarismos linguísticos, a ponto de responder deste jeito a uma pergunta sobre as inovações que imprimiu ao verter Grande Sertão: Veredas para o idioma de Thomas Mann: “O senhor já viu algum centroavante alemão fazer gol de bicicleta?”

A riqueza cultural da obra rosiana é um tema apaixonante, mas vou deixar pra outra hora falar sobre o simbolismo de “nonada”. Hoje o assunto é “motociata”, palavra nova que não foi criada pelo grande escritor e muito menos por Bolsonaro, claro que não. Este semianalfabeto se atrapalha com o parco léxico que as suas limitadas sinapses conseguem manipular, que dirá criar alguma coisa em língua. Pra dizer bem a verdade, pouco me importa descobrir de onde saiu a tal motociata, a palavra, mas quero olhar para o que esta que passou por Porto Alegre no sábado passado foi e, principalmente, para o que ela representa na atual conjuntura. Houve rede de mídia que anunciou um milhão de motos na procissão da morte bolsonarista. Mas ridículo que se mantém no ridículo e caga pra isso, só o próprio presidente fascista. Desmentiram a “notícia” logo em seguida. A propósito de cagar, disse o genocida dia desses que caga pra CPI. Comparável à paixão pelo fuzil, a fixação deste sujeito por merda é tanta que ele não passa um dia, sequer algumas horas sem fazer uma.

As fotos e vídeos divulgadas mostram que de fato muita gente participou do passeio do séquito bolsonarista pela ruas de Porto Alegre, o que comprova que, a despeito do que dizem seus algozes da mafiomídia nas pesquisas recentemente divulgadas, o bolsonarismo ainda vive e está forte. Chego a pensar se a artilharia da Rede Goebbels, ops, Globo, e suas parceiras de consórcio não se enquadram num grande tour de force de desinformação, com o objetivo de desarticular as forças de resistência. Plano que inclui a produção em ritmo industrial de escândalos por parte do (des)governo e que passou, antes da eleição, pela feicada (neologismos, enfim…) que, segundo Renan Calheiros, resultou na costura do intestino à garganta do Messias. Aliás, a que nível triste descemos quando Renan Calheiros vira referência. Delírios conspiratórios? Talvez, o que não chega a ser estranho no país do terraplanismo.

Voltando aos motociclistas do inferno, que são muito mais perigosos que os de Altamont , nas primeiras filas eles cavalgavam máquinas que consomem mais gasolina (a mais de 6 reais!) que um Opalão 6 cilindros, como me disse um amigo no sábado. É significativo que a comissão de frente desse entrudo mórbido apresente Ninjas e Hayabusas de ronco forte e acelerador nervoso. Essas motos não estão ao alcance do povo que sofre a plataforma genocida do governo bolsonaro, então ainda se pode entender porque estavam lá. Entretanto, é paradoxal que se vejam algumas desavergonhadas Titans e Factores, poucas, é verdade, mas algumas até com os baús de tele-entrega, em geral cobertos pela bandeira da ordem e do progresso. Isso escancara uma faceta burra da classe mé(r)dia, que se vê afundar na lama chafurdada pela familícia imperial, mas continua sorrindo à semelhança de hienas que se contentam com a carniça, porque o que importa mesmo é a reprodução em loop do discurso da queda o PT.

Por outro lado, dias atrás Eduardo Leite rompeu com o bolsonarismo. Ou isso ou ele é tão demente quanto o líder messiânico que apoiou em 2018. Só que ontem o recém assumido membro da comunidade LGBTQIA+ mandou um recado a quem achou linda a sua saída do armário no palco global, inclusive, e talvez principalmente, para a parte da Esquerda que aplaudiu entusiasticamente o anúncio. Ao justificar a truculência da sua brigada (não por acaso) militar, ele disse que a repressão atuou para garantir a ordem e a segurança de manifestantes de ambos os lados. De ambos os lados, disse ele, mas quem acabou no camburão foi a perigosíssima terrorista que ameaçava mandar pelos ares a manifestação fascista com a sua letal… panela, que sequer era de pressão.¹ Era de baixa qualidade, então, a maquiagem humanitária do governador gay que não se quer gay governador.

Não se trata de desqualificar a importância da declaração de Leite. Mas por que antes ele escondia essa condição, que até negou durante a campanha que o elegeu governador? E por que agora que decidiu abrir o coração na Globo, fez questão de inverter a subjetividade que o constitui ao dizer que é “um governador gay e não um gay governador”? Não é preciso ser conhecedor da obra de Umberto Eco ou versado em semiologia para perceber que governador gay e gay governador são coisas diferentes. O discurso aponta para uma ideia que diz: “Olha, sou gay, mas o povo hétero pode votar em mim também, tá?”, porque ficou muito claro que ele não tem nenhuma intenção de assumir a luta de resistência das causas humanitárias e que o seu anúncio feito em rede nazional, ops, nacional, após uma chamada que já o colocava como terceira via na sucessão presidencial, foi um ato oportunista, um balão de ensaio na luta da grande rede para encontrar o seu candidato. E por falar em semiótica, parece que tem tudo a ver essa conversa de terceira via colada a um possível candidato gay (mas nunca um gay candidato).

Com tudo isso, neologismos à parte, a política brazilis continua sendo definida em esquemas e tenebrosas transações (Salve, Chico!) feitas ao arrepio dos interesses do povo. Povo que tem que decidir entre cavalgar, ou melhor, pilotar em marcha acelerada rumo ao horizonte finito da terra plana ou retomar o rumo da sua própria história, interrompido pelo golpe parlamentar de 2016. E para os seguidores de Bolsonaro, a dica é já ir pensando no próximo messias. Dizem que a saúde do mito anda meio fraca. Andou passando mal na serra, soluçando, vomitando. Viver é muito perigoso…

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¹https://sul21.com.br/noticias/geral/2021/07/mulher-e-presa-apos-protestar-contra-motociata-de-bolsonaro-em-porto-alegre/

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