bolsonarismo, Direitos Humanos, Política

Gentes

Dizem que os crocodilos derramam lágrimas enquanto devoram suas presas. Daí a expressão “chorar lágrimas de crocodilo” pra dizer que alguém está sendo falso, cínico. Bolsonaro não corre o risco de virar crocodilo (que bom para os animais), afinal (diz que) não tomou a vacina. Mas a lamentação pela morte de Marília Mendonça se encaixa direitinho na definição da expressão.

Como disse o Moisés Mendes, Marília nunca foi uma ativista política e ele mesmo observa que no meio musical em que ela consolidou a sua curta carreira isso seria impossível. Mas ela falou publicamente que não votaria no candidato do fascismo. Não frequento a dita sofrência, sertanejo universitário, baronato da pisadinha ou o nome que tenha o tipo de música que ela fazia, mas tenho razões de sobra pra acreditar que ela tenha sido a única dessa turma a se posicionar assim. E, por óbvio, isso teve consequências, ela foi ameaçada e também a sua família, o que fez com que se recolhesse. Deve ser criticada por isso? Não por mim, porque entendo bem o passo atrás de quem sofre ameaças de assassinos. E que o exército bolsonarista é formado por assassinos, a memória de Marielle e Mestre Moa do Katendê (além de tantos outros e tantas outras) não nos deixa esquecer.

Imagem copiada de: <https://www.conversaafiada.com.br/brasil/sao-paulo-homenageia-mestre-moa-do-katende-e-marielle&gt;. Acesso em: 9 de nov. 2021.

A morte de Marília não vai transformar a música que ela fazia numa coisa boa. E, claro, digo isso apenas a partir da minha perspectiva, porque os e as milhões de fãs da cantora dizem diferente. Mas a morte de uma artista de 26 anos, que construiu a carreira e atingiu o sucesso de forma honesta – essa é a informação que eu tenho – é algo a ser lamentado. Quando se sabe que ela tinha um filho de pouco menos de 2 anos, o lamento vira dor, porque nenhuma criança deveria perder a mãe e muito menos nessas condições trágicas.

A partir da morte da Marília, Moisés Mendes aponta outra questão interessante para uma reflexão. Ele diz que do lado deles ninguém morre, ou morre e ninguém percebe. Como figura de linguagem vale, mas não é de todo verdade. Morre gente deles sim, bastante, e até vítima do vírus da gripezinha. Mas talvez realmente a gente não perceba. Ou se percebe não dá muita bola. Mas o inverso é muito verdadeiro, do nosso lado morre muita gente. A maioria das mais de 600 mil vidas perdidas pela Covid é gente nossa; a maioria das crianças e jovens negras e negros assassinados/as diariamente, sem notícia no JN, é gente nossa. E a nossa gente morre também sem morrer. Cada mulher violentada que tem medo de denunciar é gente nossa morrendo aos poucos; cada gay que é alvo de piadas (e também de violência física), cada pessoa que aparece nas transmissões televisivas das igrejas evangélicas como exemplo do satanismo das religiões de matrizes africanas, é gente nossa que morre; cada jovem da ciência que tem a verba da sua pesquisa cortada é gente nossa morrendo.

Dizer gente nossa aqui não tem necessariamente a intenção de dizer que é gente das nossas amizades e nem mesmo gente de quem gostamos. Tem gente nossa de quem eu gosto pouco ou quase nada. E tem até gente nossa de quem eu não gosto. Gente nossa é uma coisa ampla, é a gente que sofre com o projeto fascista e genocida que se instalou no Planalto e adjacências; é a gente que sabe que se deixar pra ir amanhã no mercado ou no posto de gasolina já não vai pagar o mesmo preço; é a gente que entra num posto de saúde sucateado em que profissionais precisam pagar material do próprio bolso para continuarem salvando vidas, e que depois passa na frente de um prédio do Judiciário que mais parece um Palácio de Versalhes. Se bem que na Justiça Federal, onde estão os prédios mais suntuosos, agora ninguém mais passa sem pagar o pedágio do parque privatizado. Mas, enfim, gente nossa é essa que sofre diariamente pelo abismo que nos separa da gente deles.

E enquanto a nossa gente morre, de verdade e simbolicamente, a gente deles entope as contas no estrangeiro com o dinheiro surrupiado de gente nossa. E sabem o que é pior? Essa gente que é deles de direito e de fato é muito pouca. A maioria da gente deles é, na verdade, gente nossa que só ainda não sabe disso. Espero que essa gente, que é nossa e pensa que é deles, entenda logo qual o lado certo para se (re)posicionar. Antes que só sobre gente deles por aí.

Se chegou até aqui, peço alguns segundos de silêncio em honra à memória da Marília Mendonça, da Marielle Franco, do Mestre Moa do Katendê e de tanta gente nossa que se foi; e um pequeno silêncio também para gerar um grande campo de vibração para nos fortalecer nas lutas contra a gente deles, porque… tá difícil, oh se tá! Mas nós não vamos desistir!

Imagem copiada de: <https://pcdob.org.br/noticias/enfermeira-e-atacada-por-funcionario-do-ministerio-de-damares/&gt;. Acesso em: 9 de nov. 2021.

*Imagem de destaque copiada de: <https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-cobra-apoio-de-ruralistas-na-disputa-pela-presidencia-da-camara/&gt;. Acesso em: 9 de nov. 2021.

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bolsonarismo, Educação, Ideologia, Militarismo, Política

Uma pessoa de terceira categoria

Sei que é uma bela carreira

mas não tenho a menor vocação

se fosse tão bom assim

não seria imposição

Raulzito

Se me perguntarem hoje qual o documento mais importante que eu tenho, digo sem hesitar que é a Carteira de Vacinação (e a carteira do Parque Gigante sempre, obviamente). Mas eu me lembro da emoção quando tirei a primeira identidade. Isso era uma espécie de rito de passagem para a vida adulta (se soubesse que era desse jeito tinha pedido pra ficar na infância, mas enfim…). A emissão da CTPS – Carteira de Trabalho e Previdência Social, que era um livrinho com espaço pra vários carimbos, foi outro momento marcante. Agora já podia bater na porta das firmas pra ver se tinha vaga de boy, profissão que exerci com muito orgulho até os 18 anos. E era justamente o 18 anos que me apavorava. Não que significasse grande coisa passar a ser adulto de fato e de direito pra alguém que já trabalhava desde os 13 (era antes da CF/88) e não tinha muito interesse em ver filme pornô no cinema. O problema é que o ano da maioridade era também o ano do alistamento e muitas noites mal dormidas eu tive pensando que teria que prestar o serviço militar obrigatório. Que pavor! Assim, o momento em que o tenente que coordenava as coisas me disse pra voltar dali a dois ou três dias jurar a bandeira e pegar a “terceira” (certificado de reservista) foi um dos mais felizes da minha vida.

Por que o serviço militar é obrigatório? E por que essa obrigação só existe para as pessoas do sexo masculino? E o que se faz lá dentro do quartel? São perguntas que não têm resposta muito difícil, mas dá muita polêmica, então vamos passar batido por elas.

Há quem aponte a Igreja Católica, mas eu tenho muita convicção em dizer que as Forças Armadas são a instituição mais retrógrada, obsoleta, anacrônica, datada, atrasada etc. etc. etc. que existe. E violenta. Que preparo psicológico e emocional terá um guri de 18, 19 anos pra empunhar um fuzil? Alguém dirá que é justamente essa condição que vai ser trabalhada no quartel. Pode ser, mas uma pesquisa séria sobre os casos de gente que sai transtornada depois de cumprir o serviço militar e outra sobre os casos de acidentes provocados por erro no uso de armamentos e ainda uma terceira sobre o número de suicídios dentro das organizações militares certamente vão flexibilizar um pouco esse entendimento.

Acho que ninguém vai negar que a juventude é um momento de grandes inquietações e transformações na vida de uma pessoa. Quem não tem a característica de ser questionador/a na transição para a vida adulta está no grupo das exceções. Um bom exercício de reflexão, então, é dar uma olhadinha rápida em algumas regras básicas de conduta (aparência) para os alunos e alunas do Colégio Militar de Porto Alegre:

*Acervo do autor
*Acervo do autor

Não acho que seja de todo ruim ter certas regras de disciplina em qualquer fase da vida. Somos seres gregários/as, nos relacionamos com outras pessoas durante toda a vida e, obviamente, algumas normas precisam ser determinadas para que possamos atravessar essa vida numa boa. Mas que diferença vai fazer se o guri andar na rua sem a boina do colégio? E se o rabo-de-cavalo da guria não estiver 100% acordo com a norma, que prejuízo isso vai causar para a imagem dela e do colégio?

Passemos para outra perspectiva das observações sobre a educação militar. No Casarão da Várzea, que é o nome por que é conhecido o Colégio Militar de Porto Alegre, o nome que mais se vê referenciado em placas, portas, salas é Castelo Branco. Às vezes CasteLLo Branco, porque dois L talvez confira mais dignidade. Este herói brasileiro se não torturou pessoalmente (e até acho que sim) mandou torturar ou pelo menos autorizou que se torturasse muita gente. A biblioteca chama-se Castel(l)o Branco e ostenta este quadro na parede atrás das estantes:

*Acervo do autor
*Acervo do autor

Peço que atentem para os detalhes da pintura, as expressões dos personagens, reparem particularmente na imagem do sujeito que está no canto esquerdo inferior. E vejam a descrição que está nesta frase: “Imutáveis, apenas a calça garança e a concentração dos alunos, fruto de cultivado senso de dever e disciplina, tal como hoje.” Honestamente, olhei o quadro ao vivo por vários minutos e a partir de vários ângulos e tudo o que vi foi um bando de jovens deprimidos submetidos a uma situação vexatória, fazendo um exercício sem nenhum sentido, vestindo roupas totalmente inadequadas, ouvindo o que deve ser certamente uma marcha exortando à guerra e à violência, enquanto dois superiores (SUPERIORES) conversam com um ar de… superioridade. Será que a calça garança (seja lá que raio é isso) é que mantém a disciplina e a honra da entidade? Ou será a concentração dos alunos?

Essas observações ligeiras sobre a questão geral do militarismo podem dizer muita coisa sobre o braZil bolsonarista. A imposição do respeito pelo medo e pela ameaça permanente de punição, que é a norma da educação militar, se reproduz no discurso de Bolsonaro. Que outra razão que não medo teriam as instituições para não darem fim a um governo que diariamente promove a violência, a ruptura do pacto democrático, propaga mentiras em rede que colocam em risco a vida de milhões de pessoas, enfim, por que ainda não caiu o governo que já cometeu tantos crimes, inclusive aqueles de responsabilidade, pressuposto para o processo de impeachment? Será que se o staff militar do governo não fosse tão grande e não estivesse em permanente processo de crescimento Bolsonaro ainda seria presidente? Não fosse Hamilton Mourão o vice-presidente, o governo já não teria sido destituído?

Parece cada vez mais evidente que o que sustenta Bolsonaro no poder é a caserna. E, sendo assim, pensando que o militarismo tem grande responsabilidade pela tragédia braZileira de Bolsonaro, não posso não sentir orgulho de ser uma pessoa de terceira categoria.

*Imagem de destaque copiada de: <https://maraba.pa.gov.br/semed-colegio-militar-rio-tocantins-realiza-formatura-da-1a-turma-do-ensino-medio/&gt;. Acesso em: 26 de out. 2021. (A imagem foi editada para que não seja possível identificar nenhuma pessoa.)

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bolsonarismo, Ideologia, Política, Religiões

estado laico, graças a Deus

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[…]

VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;”

a transcrição aí de cima é da constituição federal brasileira e está expressa, como se vê, no artigo 5º, que é uma das cláusula pétreas da carta, o que significa dizer que só uma assembleia constituinte pode alterá-la. trata-se do dispositivo constitucional que define a laicidade do braZil, ou seja, desvincula a religião do estado.

as pessoas mais velhas vão lembrar do doutor ulysses lendo um belíssimo discurso diante de um plenário cheio e com milhões de pessoas brasil afora emocionadas e esperançosas de um novo tempo. inclusive as que professavam alguma fé religiosa. e também as que não tinham religião nenhuma. mas olha lá o que diz, o preâmbulo da cf: “[…]  promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”

ontem comemorou-se com missas, procissões e feriado nacional o dia de nossa (?) senhora aparecida, padroeira do brasil. não vou enfrentar a polêmica da cor da santa, que isso merece ser tratado em conversa específica. interessa agora dar uma passada pelo caráter laico do estado brasileiro, garantido pela constituição e protegido por deus.

começando pelo calendário de feriados, vamos ver que grande parte deles têm natureza cristã, e, mais ainda, católica apostólica romana: natal, páscoa, corpus christi, nossa senhora aparecida etc. vamos então para as salas de audiência dos foros, para os gabinetes, hospitais e outros espaços públicos, e dificilmente deixaremos de ver uma cruz na parede, com ou sem o cristo. (a propósito, idolatrar instrumento de tortura é bem a cara do braZil moderno.) colégios públicos com nomes de santos e santas existem em profusão pelo país. nada disso afeta a laicidade do estado, por óbvio.

o jornal nacional mostrou que o presidente bolsonaro esteve na missa no santuário de aparecida ontem e até fez uma leitura no ritual. era um evento da agenda oficial do presidente. na missa anterior, ou numa das missas anteriores, já que acontecem muitas nesse dia, o celebrante havia feito algumas críticas indiretas ao governo, com destaque para a frase, muito boa, por sinal, que pátria amada não pode ser pátria armada. foi o mesmo que rezou a missa com a presença do messias presidente, mas a homilia, desta feita, ficou no encargo de outro padre, que, ao que se sabe, não proferiu nenhuma indireta, quanto menos direta. aliás, é bem inusitada a presença do presidente na missa, já que ele professa fé em outra vertente do cristianismo, mas isso também é facilmente explicável pela máxima que o governante deve estar ao lado do povo e, naquele momento, o povo, ou aquela parcela dele que mais interessa, estava na igreja.

populismos à parte, o que será que pensa o presidente messias sobre o estado laico? nas suas próprias palavras: “Muitos tentam nos deixar de lado dizendo que o estado é laico. O estado é laico, mas nós somos cristãos. Ou para plagiar a minha querida Damares [Alves, ministra]: Nós somos terrivelmente cristãos. E esse espírito deve estar presente em todos os poderes. Por isso, o meu compromisso: poderei indicar dois ministros para o Supremo Tribunal Federal [STF]. Um deles será terrivelmente evangélico.”¹ é bom frisar, como fez bolsonaro, que a própria damares, ministra da mulher, da família e dos direitos humanos, é terrivelmente cristã e evangélica, e sua fé é tão grande que o próprio jesus já se apresentou pra ela num pé de goiaba.

a separação entre estado e religião, que se estende a todas as esferas da administração pública, está sempre sob ataque. em 2018, um sujeito, missionário de alguma religião cristã, luiz carlos sperling, começou a reivindicar a retirada da imagem do templo budista no pórtico de entrada de três coroas, sob a alegação que a cidade é cristã. no templo chagdud gonpa, há uma imagem de tara vermelha, a deidade a que se vincula a linha budista lá praticada, que tem ao lado uma imagem de nossa senhora aparecida. já me disseram que esta imagem está lá por determinação expressa do fundador do templo, chagdud tulku rinpoche, que tinha muita admiração pela história da santa e pela devoção que muitas pessoas que visitam o templo, cujo acesso é franqueado independente de religião, têm por ela.

Imagem copiada do acervo do autor.

esta curiosidade, a presença de uma imagem do panteão católico² em meio a um culto bastante distinto, em muitos aspectos será chamada por alguém de tolerância religiosa, mas eu chamo simplesmente de respeito, e explico. muito se fala em tolerância e intolerância religiosa, mas o que está por trás dessa ideia de tolerar ou não alguma coisa? quem nos explica é Sidnei Nogueira: “ouve-se muito que ‘é preciso tolerar a diversidade’. […] Não, não é preciso tolerar ninguém. ‘Tolerar’ significa algo como ‘suportar com indulgência’, ou seja, deixar passar com resignação, ainda que sem consentir expressamente tal conduta. Quem tolera não respeita, não quer compreender, não quer conhecer. […] ‘Tolerar’ o que é diferente consiste, antes de qualquer coisa, em atribuir a “quem tolera” um poder sobre ‘o que se tolera’. Como se dependesse do consentimento do tolerador para existir.”³

como bem observado por Nogueira, a própria ideia de tolerar carrega uma carga ideológica pesada, que pressupõe a supremacia de uma religião sobre outras, não por acaso uma de origem branca e europeia, que tratou de vender ao mundo a imagem do seu ícone máximo de cabelos claros e olhos azuis, mesmo tendo ele nascido na palestina, cujas pessoas têm um fenótipo bastante característico e diferente desse.

Imagem copiada de: <https://andredanielreinke.com.br/a-verdadeira-aparencia-de-jesus/&gt;. Acesso em: 13 de out. 2021.

ainda que por vezes a discriminação tenha como alvo outras culturas (vide o exemplo anterior relacionado ao budismo) e em alguns momentos possa atingir até os símbolos católicos, como no célebre caso do pastor que chutou a imagem de nossa senhora aparecida em rede nacional, em 1995, a perseguição sistemática recai sobre as religiões dos povos negros. uma rápida pesquisa na internet vai mostrar inúmeros casos de violência praticada contra centros e templos de candomblé, de umbanda e outros das culturas que têm origem no continente africano. ou seja, a laicidade é relativa e a “tolerância” é seletiva.

isso tudo, e mais uma série de coisas cuja referência tornaria este texto muito extenso, mostra que o braZil é um estado laico, desde você não professe nenhuma fé vinda ainda que remotamente da áfrica.

¹Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/10/bolsonaro-diz-que-vai-indicar-ministro-terrivelmente-evangelico-para-o-stf.ghtml&gt;. Acesso em: 13 de out. 2021.

²É importante essa distinção entre o que é cristão, de modo geral, e o que é católico, principalmente se considerarmos o avanço do cristianismo neopentecostal no braZil de bolsonaro.

³NOGUEIRA, Sidnei. Intolerância religiosa. Coleção Feminismos Plurais, coordenação Djamila Ribeiro. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2020. p. 58

*Imagem de destaque copiada de: <https://domtotal.com/noticia/1414543/2020/01/para-agradar-evangelicos-bolsonaro-quer-pagar-conta-de-luz-de-igrejas-com-dinheiro-publico/&gt;. Acesso e: 13 de out. 2021.

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bolsonarismo, Política

O messias e o bispo: uma fábula braZileira

Em 20 de setembro é difícil pensar em discutir outro assunto que não seja a esfarrapada farsa farroupilha. Mas o estranho mundo de Bolsonaro não dá trégua. Tem ainda os desdobramentos do sete e principalmente do nove de setembro; tem a bomba de fumaça do momento, promovida pelo Ministério da Saúde; tem tanta coisa. Sobre bombas de fumaça, a propósito, é uma facilidade enorme para este (des)governo produzi-las. Pegue-se como exemplo esta da liberação de vacinas para adolescentes e a posterior desautorização. É o assunto principal da grande mídia – e até da mídia alternativa -, das redes, dos postos de saúde, dos bares. É evidente que se trata de diversionismo puro, mas dada a inépcia de todos os setores do Executivo Federal, há boas razões para quem não acompanha de perto as movimentações políticas achar que se trata de uma esculhambação genuína. Não deixa de ser esculhambação, mas é uma esculhambação programada e apropriada para criar assuntos que se desviem e desviem os olhares do que realmente interessa. Nesse sentido, talvez a frase que melhor defina o governo bolsonaro tenha sido dita pelo ex-ministro do meio ambiente: “Enquanto isso, vamos passando a boiada”.

Por ora, deixo essas manobras diversionistas em espera e os assuntos da data magna do Continente de São Pedro para o Mário Maestri e o Juremir Machado, que têm trabalhos esclarecedores nessa área, e me ocupo de outra farsa, coincidentemente envolvendo arma branca, que, como se sabe, é um fetiche da gauchada.

Na semana passada, a TV 247 lançou o documentário “Bolsonaro e Adélio – Uma facada no coração do Brasil”, dirigido por Joaquim de Carvalho e Max Alvim, que pode, ou melhor, deve ser assistido aqui: https://www.youtube.com/watch?v=vOcBT2js54U&ab_channel=TV247. É um documento jornalístico extraordinário, de valor inestimável para quem quer entender o braZil do bolsonarismo. E todo o povo deveria ter esse interesse.

O filme é longo para as configurações de velocidade e urgência da sociedade moderna, mais de duas horas. Para ajudar, a Cristina Dornelles e eu fizemos uma versão compacta, que, a bem da verdade, continua longa, quase uma hora, mas em função do volume de dados e da maneira como ele foi produzido, indo direto aos pontos importantes, é impossível sintetizar ainda mais. Ao final deste texto coloco uma espécie de índice que fizemos para melhor acompanhamento da versão integral.

O documentário apresenta com uma riqueza de detalhes contundente as provas que tudo foi uma grande armação com vistas a criar um mito. E mitos dificilmente perdem eleições. E assim foi. A história política do Brasil parece estar sempre às voltas com um tipo de sebastianismo tardio, que procura um homem – e aqui a palavra homem não é usada no seu sentido genérico – que se responsabilize por fazer tudo aquilo que cabe, na verdade, ao conjunto das forças sociais realizar. Numa sociedade ideal, o governo é apenas o mediador dos conflitos sociais e o executor das políticas construídas pelas comunidades. Aqui não, estamos sempre transferindo esse papel e delegando poderes. Pelo menos desde Getúlio isso é muito claro, com um hiato a partir de 64, período que reproduz outro tipo de história e, portanto, demanda outro tipo de análise. Mas logo ao fim do regime inaugurado pelo Golpe de Primeiro de Abril, uma velha raposa mineira, presente na cena desde o Estado Novo, trouxe novamente a figura messiânica à ordem do dia. A partir daí vieram o Caçador de Marajás, o pai do Real e Lula, todos com a capacidade de avocar a imagem do salvador da pátria, afinal, governo após governo sempre há uma pátria a ser salva. Dilma também foi outro caso, porque foi eleita na esteira das políticas de bom resultado social dos governos Lula. O patriarcado e as elites aguentaram a duras penas e com farta produção de noticias falsas e distorcidas um mandato de uma presidenta altamente capaz no aspecto técnico, mas com algumas dificuldades no traquejo político. Assim, já na largada do segundo governo estava definido o golpe, com Supremo e tudo, que interrompeu abruptamente a caminhada (menos rápida do que seria ideal, diga-se) rumo a um equilíbrio das esferas sociais.

Esta rápida digressão é necessária para amarrar a corda que liga a retirada violenta e ilegítima de Dilma do governo aos eventos de Juiz de Fora. Neste segundo momento, as forças de resistência haviam conseguido um nível mínimo de rearticulação em cima de um governo absolutamente antipopular de Temer e da farsa (mais uma) da Lava Jato. E a agenda fascista capitaneada por Bolsonaro não estava garantida, porque do outro lado, Ciro Gomes à parte, a Esquerda parecia ter alcançado um bom conjunto, unindo Haddad, que supria o requisitos de cultura e formação acadêmica, além de ter um histórico de boas administrações em São Paulo e no Ministério da Educação, e Manuela, mulher, jovem, mas com uma estrada política respeitável, associada a lutas sociais importantes, como a emancipação feminina e as causas LGBTQIA+. Do outro lado, Bolsonaro tinha o antipetismo e um discurso que agradava às classes médias que se acham altas, principalmente no que diz respeito à segurança e à luta anticorrupção. Mas depois de 3 governos e meio, o risco de consolidação de uma plataforma política voltada para as questões sociais era muito alto e tudo deveria ser feito para romper essa trajetória do país. A possibilidade da eleição se encerrar no primeiro turno era bastante remota, Ciro Gomes à parte. E o risco de Bolsonaro botar tudo a perder em um único debate no segundo turno era muito grande. Por isso, nunca um câncer foi tão celebrado. A necessidade de uma intervenção cirúrgica caiu como uma luva para a articulação da farsa, que contou com a ajudinha de um gênio do mal, Steve Bannon, e sua versão braZileira, Olavo de Carvalho. O que aconteceu a partir daí está explicado, sem economia de detalhes sórdidos, no documentário. O que posso dizer para finalizar por ora é: ASSISTAM!

O índice abaixo tem a intenção de facilitar o acesso aos pontos que consideramos mais claros, mas é importante que o documentário seja assistido integralmente e com muita atenção, preferencialmente mais de uma vez:

00h02m58s – Gustavo Bebbiano fala no programa Roda Viva sobre a ausência do chefe de segurança e a presença de Carlos Bolsonaro no carro de Jair Bolsonaro até Juiz de Fora, e dos alertas sobre os riscos do não uso do colete à prova de balas

00h05m36s – Apresentação de “seguranças voluntários” no local da primeira visita de Bolsonaro, um hospital de combate ao câncer mantido por mulheres, incluído no roteiro para melhorar a imagem dele com o público feminino. Bolsonaro já recebia proteção da Polícia Federal (PF) por ser candidato

00h09m08s – Opção voluntária de não usar colete à prova de balas e uso de camiseta especialmente preparada para o evento

00h10m10s – Imagens do almoço no hotel Trade encontradas no celular de Adélio Bispo

00h12m13s – Ataques ao PSOL e PCdoB já na primeira entrevista coletiva de Bolsonaro

00h13m32s – Culto evangélico em que Bolsonaro recebe benção para proteger de doença no estômago e relato de problemas semelhantes acontecidos anteriormente

00h14m39s – Presença do médico Paulo Gonçalves, da Santa Casa, que atenderia Bolsonaro após a facada, no discurso que ele faz aos apoiadores na sede do hotel. Bolsonaro não fica no hotel para almoçar

00h18m49s – Adélio anda em atitude suspeita, vestindo uma jaqueta preta mesmo com o calor que fazia no dia, atrás do carro onde Bolsonaro discursava, portando um jornal em que supostamente estava enrolada a faca, sem ser importunado pelos seguranças, e Carlos evita o contato com ele. Em entrevista à Leda Nagle, Carlos descreve a cena e diz que Adélio esteve com ele no Clube de Tiro .38, em Florianópolis. Aqui é interessante observar que o documentarista diz que a imagem é rara, então como é que Carlos Bolsonaro a viu e descreveu os fatos na entrevista?

00h22m14s – Pensão em que Adélio se hospedou em Juiz de Fora, cuja dona morreu algum tempo depois do fato. Adélio pagou a estada adiantado e em dinheiro e tinha registrado em seu celular o roteiro de Bolsonaro na cidade, inclusive a visita a uma Fundação que não constava do programa da visita

00h25m16s – Tentativa frustrada de Adélio contra Bolsonaro. Bolsonaro toca a mão de um homem na multidão e este faz uma espécie de contagem regressiva, após o que Adélio investe ostensivamente contra Bolsonaro, em frente aos seguranças, que nada fazem para impedi-lo

00h27m30s – Adélio interage com os seguranças após a tentativa frustrada e logo em seguida há uma troca de sinais entre Bolsonaro e um dos seguranças. Um homem adverte Adélio dizendo para que tenha paciência e dizendo “calma, cara, agora não dá”

00h28m58s – Diretor da Associação Comercial, Guilherme Duarte, retira o presidente da Associação da cena onde ocorreria logo em seguida a suposta facada. Duarte, que organizou o evento juntamente com Marcelo Álvaro Antônio, diz que vai conversar com a reportagem, mas depois recua da decisão e não fala mais.

00h30m26s – Equipe do documentário é ameaçada pela polícia

00h32m18s – Fotógrafo Felipe Couri, que registrava toda a movimentação, foi distraído nos instantes cruciais e não conseguiu tirar as fotos do momento da “facada”

00h34m51s – Em vez de conter Adélio, os seguranças fazem a sua proteção para que não seja linchado pela multidão

00h36m19s – Bolsonaro é levado para uma pastelaria para receber atendimento, mas não estava inconsciente e nem aparentava qualquer tido de sofrimento, de acordo com um funcionário da pastelaria, que ainda diz não ter restado nenhum resquício de sangue no local

00h36m59s – Sem esperar por uma ambulância, Bolsonaro é levado sem o menor cuidado para o carro que o levaria à Santa Casa

00h37m27s – Um segurança da confiança de Bolsonaro faz uma espécie de sinal quando ele é levado para o carro

00h41m01s – Hospital Albert Einstein se recusa a apresentar o prontuário médico à PF; AE atendeu Queiroz, que pagou pelos procedimentos em dinheiro vivo; Antônio Macedo, ONCOLOGISTA que realizou a cirurgia em Bolsonaro, rompeu com o AE e passou a atender no hospital que Bolsonaro frequenta atualmente

00h43m20s – Cicatriz da “facada” aparece em local diferente

00h47m07s – A faca é encontrada por um policial, Renato, e entregue a um vendedor de frutas, que se recusa a falar sobre o assunto

00h50m45s – Entrevista de Renato, segurança que achou a faca

00h55m20s – Momento da suposta facada: Adélio não está em posição possível para introduzir 15cm da faca no corpo de Bolsonaro

00h56m28s – Entrevista com esposa de Marcelo Bormevet, policial que organizou a segurança privada

00h57m25s – Esposa de Hugo, segurança que imobilizou Adélio e posteriormente morreu de infarto, diz que não fala mais

00h58m55s – Participação de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro

01h00m01s – Entrevista com Zanone Manuel de Oliveira Júnior, que foi o primeiro advogado de Adélio e atualmente é seu curador; manobras da defesa de Adélio para favorecer Bolsonaro

01h05m38s – Entrevista com a irmã de Adélio, que sequer sabe se ele está vivo

01h14m21s – Adélio fez curso no clube de tiro .38, mas a porta-voz do clube nega

01h19m08s – Publicação do facebook do clube de tiro .38 no dia da suposta facada

01h19m15s – Promoções dos seguranças de Bolsonaro, apesar das falhas no dia da “facada”

01h21m55s – Bebbiano fala no Roda Viva sobre a influência de Carlos Bolsonaro

01h24m51s – Facebook de Adélio é desativado apesar dele estar preso

01h29m19s – Postagem de Carlos Bolsonaro no facebook sobre atentado contra Donald Trump antes da eleição estadunidense de 2016

01h32m12s – Militância de Adélio na Direita

01h34m21s – Narrativas criadas para ligar Adélio à Esquerda

01h35m04s – Paulo Marinho fala de visita que fez a Bolsonaro no Albert Einstein

01h36m27s – Steve Bannon antecipa que Bolsonaro sofrerá um atentado e Joice Hasselmann diz que o próprio Bolsonaro falou em levar uma facada

01h37m24s – Camiseta usada por Bolsonaro desapareceu

*Imagem de destaque copiada de: <https://brasilagora.net.br/bolsonaro-gargalha-ao-saber-que-kassio-nunes-vai-analisar-pedido-de-impeachment-de-alexandre-de-moraes-veja-video/&gt;. Acesso em: 21 de set. 2021.

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bolsonarismo, Política

FALTA ENVIDO!!

Numa das modalidades do Truco, uma dupla pode pedir a Falta Envido. A dupla adversária tem duas opções: não aceitar e perder um ponto, ou comprar a parada e ir pra disputa, caso em que a dupla vencedora ganhará pontos equivalentes aos que faltam para a que está na frente vencer o jogo. Pode parecer meio complicado, mas, como todo jogo de cartas, depois de algumas partidas a gente vai pegando a manha. Mas como no Xadrez, em que saber mover as peças não significa saber jogar, também no Truco não basta conhecer as regras determinadas, porque só a vivência do jogo vai fazer o bom jogador ou a boa jogadora. E do mesmo jeito que acontece no Pôquer, saber blefar é certamente o maior diferencial para ganhar. A Falta Envido, na perspectiva de quem está perdendo o jogo, é um ato de desespero. É o tudo ou nada. Se uma dupla está com 10 pontos à frente, por exemplo, faltando pouco para vencer, a dupla que está atrás pede a Falta Envido a cada rodada, mesmo sem ter jogo (blefe), contando que a outra vai fugir e assim poderá ir avançando ponto por ponto. Caso perca, azar, já estava perdido mesmo…

Ontem Bolsonaro pediu Falta Envido. E, como manda a tradição do truco, gritando.

Os sinais de isolamento estão cada vez mais evidentes. Faz tempo que Bolsonaro e Mourão já não falam a mesma língua, se é que algum dia falaram. O general (ou marechal?) esteve na Expointer na véspera do Dia Sete e exaltou o avanço no número de pessoas vacinadas, que foi fundamental para a realização da Feira com a presença de público, ao lado da adoção dos protocolos sanitários, como observou. Bolsonaro sabota a vacina, incentiva o não uso da máscara, faz questão de promover aglomerações, então a manifestação do vice-presidente teve tom notório de provocação.

Em algum momento de ontem, Mourão disse que por questões éticas não comentaria as declarações de Bolsonaro, como também já evitou em momentos anteriores. É evidente que ao se valer de princípios éticos para não comentar declarações de outra pessoa, está dizendo que é contrário a essas falas. Muitos pares de caserna de Mourão têm adotado a mesma postura, fazendo questão de se distanciar das loucuras bolsonaristas e desvincular as Forças Armadas das diatribes golpistas do estrategicamente tresloucado presidente.

Brazilian President Jair Bolsonaro (L) and his Vice-President Hamilton Mourao attend a ceremony marking the first 100 days of their government at Planalto Palace in Brasilia, on April 11, 2019. (Photo by EVARISTO SA / AFP)
Imagem copiada de: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/breves/julgamento-tse-cassacao-bolsonaro-e-mourao/. Acesso em: 8/9/2021.

O fato de Mourão não ter estado ao lado de Bolsonaro nos palanques que o presidente frequentou ontem, assim como a ausência de outros ministros da linha de frente, mostra que os atos sempre foram articulados pró-bolsonaro e não pró-governo. Aceitar o contrário seria reconhecer que Mourão foi isolado do governo ou que não se importa com os rumos que ele vai tomar, mas a verdade é que quem deixou o governo é Bolsonaro. Se bem que para que isso seja verdade é preciso aceitar que algum dia Bolsonaro esteve à frente do governo, que é exatamente onde ele nunca esteve, uma vez que governa só para o seu cercadinho.

Bolsonaro foi o sujeito certo na hora certa que as elites encontraram para ocupar o espaço deixado pelas Esquerdas nas Jornadas de 2013, quando não souberam – ou acharam desnecessário – disputar o protagonismo dos atos e permitiram que se consolidasse o discurso que é melhor sem partidos. Bolsonaro se adequou tanto para ser a bola da vez que até este requisito cumpriu, sendo eleito por um partido de aluguel.

Não obstante seja um fantoche, Bolsonaro não é um imbecil. Um dos fatos que mais ocupou os/as analistas ontem, e certamente continuará hoje e pelos próximos dias, é a “convocação” pública do Conselho da República. Por que ele largou isso de forma quase aleatória, em meio a um discurso repleto de absurdos, em Brasília, e não repetiu quando se dirigiu a um público bem maior em São Paulo? Repito, Bolsonaro não é imbecil, e lançou um anzol para os peixes da grande mídia. Sabia que as produções dos jornais sairiam em desabalada corrida atrás das assessorias das autoridades que integram o Conselho da República, demandando precioso tempo nisso, e que os/as comentaristas entrevistariam juristas, cientistas políticos e toda a sorte de gente que adora ocupar o palanque midiático explicando durante horas coisas de importância bem menor. Tradução: cortina de fumaça.

Paralelamente, Bolsonaro acirrou o discurso de ódio e exortou o seu exército a atos extremos. Quando diz que não vai cumprir as decisões de Alexandre de Moraes, ele sabe que não está se referindo ao ministro de forma singular, mas sim ao Judiciário na totalidade. E, dizendo isso, sabe que a imbecilidade que o apoia vai se achar no direito de fazer o mesmo. Ele joga com a possibilidade de criar um caos absoluto na ordem social, o que vai atrair os holofotes da mídia e a opinião pública. Tradução: cortina de fumaça.

Poderia escrever folhas e folhas destacando cada frase de Bolsonaro cuidadosamente pensada com a intenção de provocar confusão, e cada ato previamente estudado para distrair o povo, como a aparição de Queiroz no meio do público. Mas isso não parece necessário. O que se tem aí de exemplo já é mais do que suficiente para mostrar que o desespero cresce na mesma proporção em que o clubinho começa a ficar restrito. Bolsonaro blefa porque sabe que quem tem o jogo na mão é a dupla adversária, então qualquer avanço de um ponto é motivo de comemoração. Enquanto ganha tempo com essas manobras aparentemente desvairadas, vai chuleando as próximas cartas para ver se a sorte lhe sorri.

Nesse Truco, o povo é a dupla que está na frente. Se souber jogar, o que significa recrudescer a pressão sobre as instituições e, principalmente, os agentes políticos, tomando as ruas em proporção cada vez maior, lotando as caixas de email de deputados e deputadas, senadoras e senadores, usando as ouvidorias dos órgãos, Ministério Público, Judiciário e outros, enfim, avançando em marcha acelerada contra o genocida, estará dando um passo importante para derrotar o bolsonarismo e recolocar o país no trilho da democracia. Entretanto, quem está acostumado a jogar Truco sabe que muitas vezes um bom blefador é capaz de virar um jogo perdido. Bolsonaro agoniza, mas enquanto não der o último expiro não podemos largar as cartas.

Imagem copiada de: https://www.notibras.com/site/multidao-ocupa-ruas-para-pressionar-forabolsonaro/. Acesso em: 8/9/2021.

*Imagem de destaque copiada de: https://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/bolsonaro-raivoso-irritado-amargo.html. Acesso em: 8/9/2021.

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bolsonarismo, olavismo, Política

A resposta? Está no guru

A coluna é escrita com um ou dois dias de antecedência da sua publicação. Escrevo na segunda, dia 6 – a véspera. Não tenho elementos para dizer coisa concreta sobre a terça – o dia – que ultrapasse a fronteira das conjecturas. Acabei de ler um ótimo texto, cuja autoria não consta na postagem que um amigo fez num grupo de WhatsApp, que aborda as movimentações políticas coletivas da semana e antecipa o possível cenário da eleição. Conclui que Lula deve participar ativamente dos atos e que a Jornada Antibolsonarista do Sete de Setembro deve ser forte. São considerações óbvias, é verdade, mas é preciso que alguém as diga. Só que pouco vai adiantar que se chegue a uma espécie de acordo ou pacto sobre Lula ser o nome certo, ou pelo menos o nome possível, e de que precisamos tomar as ruas para exigir a queda de Bolsonaro, se não se entender minimamente o que é o bolsonarismo. Sem isso, o risco de que caia o homem mas não caia a ideia é muito grande. Já disse por aqui que o bolsonarismo é maior que Bolsonaro. Por paradoxal que pareça, se aproxima o momento em que Bolsonaro deverá ser descartado para que o bolsonarismo possa subsistir. Para entender isso, nada mais esclarecedor do que conhecer o pensamento do sujeito que conformou a prática do bolsonarismo e que tem uma dimensão tão grande no processo de construção e consolidação da plataforma protofascista de Bolsonaro que se aventa até a possibilidade que ele tenha morrido e a sua morte seja anunciada amanhã, a fim de criar uma narrativa heroica. Teorias conspiratórias à parte, falo do guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, claro.

O discurso da militância bolsonarista foi articulado por Olavo de Carvalho. A técnica de desqualificar não só os argumentos como as pessoas que têm pensamento diferente, da qual Bolsonaro faz uso permanente, é uma proposição olavista. O Professor João Cezar Castro Rocha se dedica há algum tempo a compreender o bolsonarismo. Os seus estudos sobre o tema originaram o livro “Guerra Cultural e Retórica do Ódio: crônicas de um Brasil pós-político”, lançado no início de 2021 pela editora Caminhos. Trata-se de leitura fundamental. Uma das fontes em relação à matriz narrativa discursiva, sobretudo linguística, é a própria obra de Olavo de Carvalho. Em algum momento o Professor adverte que a leitura de Olavo é tarefa para gente de estômago forte e fígado perfeito, mas para quem quer realmente ter uma compreensão ampla e verdadeiramente sólida do que está acontecendo no braZil de Bolsonaro, é tarefa inescapável.

A síntese do olavismo, extensa muito mais em palavras do que em ideias, está nos livros publicados nos anos 90, que o próprio filósofo autodeclarado considera o mais abrangente conjunto literário sobre o Brasil em todos os tempos. A trilogia é composta por ” A nova era e revolução cultural”, “O jardim das aflições” e “O imbecil coletivo”, de 94, 95 e 96, respectivamente. No último livro, o sujeito inclui uma parte chamada “Manual do usuário de O imbecil coletivo etc.)”, que, segundo ele, é um texto lido por ocasião do seu lançamento, no Teatro da Cidade (Rio de Janeiro), em 22/8/1996. Nesta bula consta a seguinte pérola: “O sentido da série é, portanto, nitidamente, o de situar a cultura brasileira de hoje no quadro maior da história das ideias do Ocidente (…). Que eu saiba, ninguém fez antes um esforço de pensar o Brasil nessa escala. Meus únicos antecessores parecem ter sido Darcy Ribeiro, Mário Vieira de Mello e Gilberto Freyre (…)”. Na sequência explica o porquê de ser a obra dele maior.

Não seria sacana o suficiente para sugerir que alguém lesse os três livros, mas, reforçando a necessidade de que se conheça o pensamento olaviano, “O imbecil coletivo” é bastante elucidativo. Uma das estratégias que estrutura o modus operandi aparece já na abertura do livro. A crítica da crítica (rasteira e virulenta, como é da característica do autor) neste momento é direcionada ao que ele chama de intelligentzia imbecilizada e imbecilizante brasileira, exemplificada com Paulo Roberto Pires, Emir Sader, Leandro Konder, Muniz Sodré, Gerd A. Borhein e André Luiz Barros. Olavo inclui no volume um “Formulário-padrão para a redação de críticas a ‘O imbecil coletivo'”, composto de seis questões, com três opções cada, do qual se pode extrair uma definição, que, segundo ele, já foi feita pelos pensadores citados. A minha, a partir das orientações disponíveis é: “O. de C., autor desta escandalosa polêmica, pretende implodir a cultura brasileira. É um sujeito cheio de incompreensão dos caracteres específicos da cultura brasileira. Torna-se evidente que a mentalidade deste autor é autoritária e prepotente. Ele está manifestamente fora de si. No fundo, ele nos parece movido por ambições políticas sórdidas.” Há outras possibilidades de construção, mas esta me parece ser aquela que o próprio Olavo gostaria de apresentar, pois reúne o que as mentes rasas, que constituem o padrão do sujeito bolsonarista, adoram: agressão violenta a quem pensa diferente, mascarada de humor ácido e ironia sobre si mesmo, mas com o efeito de rebaixar o interlocutor.

Bolsonaro é versado nos recursos retóricos olavistas e tratar adversários/as pelos termos mais baixos é hábito notório. Mesmo quando o adversário é o próprio povo: “país de maricas”, por exemplo. A auto-ridicularização é artifício comum, também. Outro não pode ser o sentido de divulgar imagens em que espanta uma ema com uma caixa de cloroquina. E assim, enquanto a grande mídia gasta o precioso (e caríssimo) tempo de seus espaços jornalísticos dando voz a pilhas de manifestos e notas de repúdios de pessoas e instituições moralmente atingidas pela gosma presidencial, invariavelmente sem nenhum efeito prático, e o público descolado se diverte criando memes, a boiada passa.

É evidente que a contribuição olavista para a ideologia bolsonarista vai muito além de ideias para escancarar a própria imbecilidade, com o perdão do trocadilho. É preciso aprofundar o entendimento das particularidades da guerra cultural promovida pelo olavo-bolsonarismo. No âmbito dos seus interesses mais privados, porém, Bolsonaro já pressente há algum tempo a proximidade da exposição das cabeças da família em bandeja de prata e por isso recorre aos séquitos ainda fiéis na tentativa desesperada de dar contornos clássicos à guerra que imagina possa lhe garantir a permanência no poder e até mesmo a liberdade. A última tentativa de Bolsonaro pode acontecer neste 7 de setembro e tudo vai depender de como as forças militares vão se posicionar. Nesse sentido, encontrando grande resistência nas Forças Armadas, talvez receosas de embarcar em mais uma aventura golpista, mas ainda assim relativamente satisfeitas pela posição de destaque no governo, que possibilita até a promoção ao marechalato, ele tenta arregimentar as polícias estaduais, principalmente as militares, e a grande contingência de civis por ele armados. É possível que não havendo carros de combate nas ruas por conta do cancelamento das paradas militares, vejamos tratores e outros maquinários agrícolas conduzidos por ruralistas autorizados a reprimir ameaças às suas propriedades, ainda que conquistadas de forma ilegítimas, à bala.

Imagem copiada de: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/07/4940245-planalto-homenageia-dia-do-agricultor-com-imagem-de-homem-armado.html. Acesso em 7/9/2021.

O que vai acontecer depois deste dia de celebração da nação (povos originários excluídos) não se sabe, mas é cada vez mais clara a necessidade de compreender o bolsonarismo para poder matar o monstro inteiro e não apenas cortar uma das suas cabeças. Derrubar Bolsonaro é só uma etapa da luta antibolsonarismo. E, como o antídoto parte do veneno, ler o guru, por mais indigesta que seja, é missão imprescindível.

*Imagem de destaque copiada de: https://lavrapalavra.com/2019/06/18/olavo-de-carvalho-o-inimigo-doconhecimento-ou-o-verdadeiro-imbecil/. Acesso em: 6/9/2021.

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América Latina, bolsonarismo, Política

Cristóvão ou Jorge, que santo salvará Bolsonaro?

NENHUM!

Os acontecimentos políticos mais recentes na América do Sul escancaram que o braZil de Bolsonaro insiste em andar na contramão da estrada. Essa desorientação pode ter motivos religiosos. A tradição católica consagra o dia 25 de julho a São Cristóvão, que em algum momento foi designado pelo papa da hora para representar os interesses das e dos motoristas no plano divino. Como se sabe, Bolsonaro é terrivelmente evangélico e, portanto, professa fé numa vertente do cristianismo que não reconhece os santos e as santas do panteão católico. Se bem que, se pensarmos melhor, porque deveria aceitar a ajuda de algum intermediário de segundo escalão se ele é o próprio Messias? Crendo ou não nos santos, a vida de Bolsonaro parece estar sob a guarda das Armas de Jorge, já que nem mesmo um vírus letal ou facas pontiagudas podem derrubá-lo.

Em que pese o motivo, se por falta de ajuda espiritual ou mera incompetência, sem descartar a possibilidade de puro banditismo de quem o dirige, o fato é que o carro brasileiro segue em alta velocidade e sem freio ladeira abaixo, ao contrário do que acontece em alguns vizinhos nossos.

Uma breve cronologia (meramente exemplificativa):

  • 8 de novembro de 2020: o nascer do sol viu o povo boliviano reunido na praça Murillo, onde se localiza a sede do governo, celebrando e pedindo a proteção da Pachamama. Naquele momento, a Whipala tremulava forte, altaneira e feliz pelo fim do golpe de 2019 (mais um nessa longa estrada), com a eleição de Luis Arce, professor universitário com histórico político de comprometimento com as causas sociais. O (des)governo brasileiro não mandou representação para a posse;
  • 21 de julho de 2021: Alberto Fernández, que, é bom que se diga, recentemente andou se atrapalhando com palavras e referências, anunciou a reformulação dos registros civis, com um novo DNI (Documento Nacional de Identificação), que vai garantir o direito de não identificação de gênero às pessoas que não se consideram nem homens nem mulheres. Acertando a fala desta vez, o presidente argentino disse: “Existem outras identidades além do homem e da mulher que devem ser respeitadas”. E perguntou: “O que importa para o Estado saber a orientação sexual de seus cidadãos?” Corre à boca pequena que Bolsonaro encaminhou essa pergunta à ministra Damares…
  • 28 de julho de 2021: Pedro Castillo vai tomar posse na presidência do Peru. Se vai fazer um bom governo ou não é coisa que os próximos tempos dirão, mas não é pequeno o simbolismo dele ter derrotado o sangue Fujimori na eleição. Desta vez o Brasil (ou seria o braZiu?) vai estar representado na cerimônia. Bolsonaro designou o general Mourão para o encargo. Um observador incauto poderia pensar que o vice-presidente foi escolhido a fim de prestar um tipo de homenagem ao povo peruano, por conta da sua ancestralidade indígena. Eu tenho cá minhas dúvidas quanto a isso.

Há um fato, porém, que tem uma carga simbólica ainda maior. No ano que vem, quando se espera que pela vacina e conscientização o mundo esteja livre da ameaça do Corona, o Chile vai iniciar um movimento decidido para livrar o país de outro vírus, tão ou mais mortal: o fantasma Pinochet. Em maio foi eleita a assembleia que vai escrever a nova constituição, que substituirá a carta de 1980, um libelo antipovo e lesa-pátria, que só consolidou a política neoliberal do governo fascista e promoveu a entrega do estado às elites econômicas, inclusive, e principalmente, estrangeiras. É bom que nunca esqueçamos que a plataforma entreguista ultraliberal pinochetiana, origem do suicídio de milhares de pessoas que ficaram sem perspectiva diante da destruição das políticas sociais, teve participação efetiva do execrável Paulo Guedes, o “nosso” chicago boy. Mas o Chile está superando essa fase de obscurantismo e violência golpista. Isso se comprova na forte representação popular que terá a constituinte, principalmente dos povos originários. É histórico o fato que a assembleia vai ser presidida por uma Mapuche, a professora universitária Elisa Loncón. Isso mostra que a irresignação do povo diante da opressão pode demorar a mudar o rumo das coisas, afinal as forças do capital são poderosas, mas um dia os ventos mudam de direção. E os ventos que sopram da Cordilheira recolocam o automóvel chileno na estrada da sua história de grandeza.

Imagem copiada de https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2021/07/4936829-elisa-loncon-constituicao-deve-reconhecer-a-pluralidade-do-chile.html

Acervo do autor

Comecei essa conversa com uma efeméride religiosa. Acontece que o mesmo dia de São Cristóvão marca outra celebração, muito mais significativa: 25 de julho é o DIA DA MULHER NEGRA, LATINA E CARIBENHA. No Brasil, a celebração faz referência à Tereza de Benguela. Não vou aprofundar a data e nem a biografia da homenageada, porque implicaria em estender demais o texto. Uma pesquisa na internet é suficiente para conhecer melhor a história dessa celebração e da gigante braSileira que foi Tereza. A relação que faço aqui diz respeito ao que vi no último sábado nas ruas de Porto Alegre: milhares de mulheres negras, caminhando ao lado de outras e outros, e outres, brancas, brancos, negros, negres, indígenas, asiáticas, para derrubar o governo desgovernado de Jair Bolsonaro. O vento sul-americano sopra forte em alguns países vizinhos e aqui está começando a se transformar no furacão que vai varrer o fascismo que resiste no braZil e empurrar o carro que transporta Bolsonaro e seu exército de bandidos para a lata de lixo da história.

¡VIVA EL PUEBLO LATINOAMERICANO!

*Imagem de destaque copiada de https://www.grupoescolar.com/pesquisa/a-america-latina-e-suas-lutas-sociais.html

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bolsonarismo, Necropolítica, Política

A promissória do diabo

Das versões do Fausto que li, a que mais gostei é a do Thomas Mann, que conta a história do fictício compositor Adrian Leverkhün. O músico é inoculado com o veneno demoníaco na única relação sexual que mantém na vida, com a prostituta que ele chama em seus delírios sifilíticos de Esmeralda. Tempos depois é visitado pelo próprio Diabo, que propõe um acordo, oferecendo-lhe 24 anos de genialidade absoluta, em troca, claro, da danação eterna. O biógrafo e narrador é o seu amigo e profundo admirador Serenus Zeitblom, que escreve durante o Terceiro Reich, anos depois dos fatos que descreve. As reflexões do erudito professor, aliadas a outros tantos elementos simbólicos do livro, acabam se constituindo numa crítica pesada à Alemanha nazista.

Mesmo que por vezes não nomeado, o mito do Fausto inspirou inúmeras obras literárias mundo afora. De Dostoievski a Guimarães Rosa, passando por Machado de Assis, Ariano Suassuna e a literatura de cordel, muitos são os escritores e escritoras e até roteiristas de telenovelas que se valeram da lenda, que, por tratar de questões ligadas a crenças, fés, superstições, criou um imaginário muito rico, havendo até quem defenda a existência de um Fausto real, que teria vivido em algum tempo entre o meio e o fim da Idade Média. Para o bem e para o mal, mitos existem, enfim.

Quando os bolsonaristas elevaram o seu Messias à condição mitológica, eram os ecos de outro mito que estavam latentes. Bolsonaro seria a reencarnação brasileira d’El Rei Dom Sebastião, que ressurgia de batalhas antigas e heroicas para redimir o povo e restaurar a grandeza da pátria, aviltada pelos governos que foram se avermelhando cada vez mais desde que os homens de farda largaram o osso (ou não).

Talvez Bolsonaro se imagine um rei, porque isso tem tudo a ver com uma mente doentia, megalomaníaca em grau elevadíssimo, e também vai ao encontro do fanatismo do seu exército de sequazes, dignos de figurar na lista da Loucura de Erasmo. Mas eu vejo a trajetória do sujeito o afastando cada vez mais de qualquer semelhança com o messianismo sebastianista e chegando muito mais perto de configurar um tipo faustiano. Não podemos deixar de pensar no curto espaço de tempo que separa a epifania macabra de Bolsonaro como salvador da pátria das ameaças cada vez mais concretas de que venha a sentar no bando de réus do tribunal penal internacional por crime de genocídio. Antes da sua ascensão meteórica, pouca gente sabia ou sequer tinha ouvido falar de Bolsonaro, salvo por uma ou outra aparição na mídia, motivada pelas atrocidades que já dizia quando era um um obscuro e inexpressivo parlamentar. Hoje se sabe que desde essa época já se pode questionar a sua propagandeada honestidade, só não tinha ainda a fama de ladrão que muita gente lhe atribui hoje, porém mais do que buscar provas do seu passado de crimes, importa investigar como se deu a sua escalada ao poder.

Imagem copiada de https://catracalivre.com.br/dimenstein/dimenstein-odio-de-carluxo-contra-globo-faz-bolsonaro-passar-vexame/

Na tentativa de explicar Bolsonaro pelo mito demoníaco, precisamos definir os outros personagens centrais. Na nossa versão braZileira do Fausto, o Diabo se chama Instituto Millenium e a sua emissária atende pelo nome de Rede Globo. Nas eleições de 2018, a rede mafiomidiática amargava quatro insucessos em sequência, protagonizados por políticos do tipo sopa de hospital e por um que é o único caso conhecido de tucano com nariz maior que o bico. Cansada das derrotas recentes, a Globo viu nas justas reivindicações das Jornadas de 2013 a oportunidade de distorcer os fatos e subverter a história, e habilidosamente construiu uma narrativa que elevava o povo à condição de senhor do seu próprio destino. Com esse discurso sofismático, convenceu a classe mé(r)dia que o certo é lutar sem partidos e, a partir do enfraquecimento do instrumento de representação democrática por excelência, articulou um golpe parlamentar, levando ao poder outra figura infernal, o vampiresco Michel Temer, em 2016. Com isso, ganhou 2 anos para pensar em alguém capaz de retomar a implementação da agenda ultraliberal, que havia sido parcialmente interrompida pelos governos anteriores. Para isso, não hesitou em apoiar a política nazifascista de Bolsonaro, escorada na retórica fácil do combate à corrupção e do restabelecimento da ordem e da segurança social, afinal, bandido bom é bandido morto.

Protegido pelo pacto espúrio celebrado com as elites, que já haviam bancado os/as patriotas da Paulista e outros patos braZil afora, Bolsonaro não se preocupou nem mesmo em construir um discurso moderado. Pelo contrário, recrudesceu ainda mais a sua retórica fascista, vomitando arrogância, prepotência e autoritarismo, e transformando a sua massa eleitoral num caso singular na história dos regimes democráticos – ou pseudodemocráticos -, já que ela estava votando num candidato pela plataforma que ele não cumpriria se eleito. Por uma razão lógica, os eleitores e as eleitoras escolhem seus e suas representantes acreditando que se manterão fiéis às suas promessas. Em campanha, Bolsonaro continuou a defender a tortura, disse que pessoas deveriam ser assassinadas apenas por militarem em campos políticos opostos, reafirmou a própria homofobia, se mostrou mais misógino do que nunca, fez discursos racistas, enfim, continuou sendo o mesmo facínora de sempre. Confrontado com esse discurso, o seu eleitorado se limitava a dizer que ele não faria tudo o que se comprometia a fazer, que isso era apenas conversa eleitoral. Ou seja, acreditaram que estava mentindo e por isso votaram nele. Hoje se vê que ele pode ser acusado de muitas coisas, menos de estelionatário eleitoral, porque tratou de cumprir cada promessa virulenta feita na corrida ao Planalto.

Imagem copiada de https://www.cut.org.br/noticias/redes-sociais-bombam-com-depoimentos-de-eleitores-de-bolsonaro-ja-arrependidos-4850

Acontece que o Diabo nunca esquece de liquidar uma fatura e o governo de Bolsonaro se aproxima do fim na mesma velocidade em que se degrada a sua saúde e o seu corpo segue o caminho da sua mente putrefata. No caso da nossa adaptação braZileira do mito, o miserável fausto se acreditou mais poderoso que o Chefe e agora vê o chão começar a se abrir à sua frente e a escuridão do inferno cada vez mais próxima. Reafirmo que não desejo que Bolsonaro morra no hospital. Não, ele precisa viver para pagar a conta. Não a promissória assinada para o capeta, que essa pode ficar pra depois, mas a dívida que contraiu com os milhões de pessoas que sofrem a sua necropolítica e que só faz aumentar. Ele precisa estar bem vivo para sorver lentamente o seu próprio veneno e ver a si próprio e a sua família que adora bandidos (que só são bom mortos, lembremos disso) sofrendo lentamente as consequências dos seus crimes, que a CPI e os noticiários divulgam diariamente. É preciso, sobretudo, mantê-lo com as faculdades mentais intactas (trabalho difícil, mas necessário) para saber que não foi mais do que um imbecil útil, usado e descartado quando já não servia mais.

Chamo atenção para o fato de que o que se aproxima do fim é governo DE Bolsonaro e não O governo bolsonaro. Há uma sutil diferença aqui, porque muito se tem dito, e com certa razão, que a queda de Bolsonaro agora pode piorar a situação do país e do povo, já que os militares assumirão o poder de forma aberta e legitimados pelas circunstâncias. É bem verdade, então, que o bolsonarismo é maior que Bolsonaro, mas é difícil imaginar algo pior do que a familícia neste momento. E, ademais, é preciso aprender a lidar com um problema de cada vez. O alvo a ser abatido é o potencial genocida e os seus filhos notadamente psicopatas. Depois a gente vê o que faz com o pessoal da caserna.

“Um homem sem juízo e sem noção não pode governar esta nação.”¹

¹Refrão da música “Desgoverno”, de Zeca Baleiro e Joãozinho Gomes. Veja o vídeo completo em em https://www.youtube.com/watch?v=tcPVDQUlGr0&ab_channel=RedeTVT

Imagem de destaque copiada de https://m.leiaja.com/cultura/2018/04/28/com-critica-ao-fascismo-e-bolsonaro-bandas-lancam-disco/

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Política

Entre novas palavras e velhas práticas: os mitos e os vômitos da política braZileira

Bolsonaro nunca leu Guimarães Rosa. Desconfio que se alguém perguntar, o desgovernante vai achar que é algum general de que ele não se lembra. Se bem que, a considerar o amor que tem pelo homens de farda, ele, que foi incompetente até para uma carreira que não exige vocação além do apreço pela violência e o gosto pela submissão, deve saber o nome completo e o CPF de todos os oficiais do Império até hoje. Já Guimarães Rosa, que em suas andanças pelos sertões nunca se separava do seu caderninho de anotações, recolheu as falas do povo e as reproduziu, fundiu, criou, inventou novas palavras, fez o povo brasileiro se reconhecer nos seus contos e romances. Chegou a um nível de brasilidade tão puro na voz de seus personagens que obrigou o seu tradutor alemão a verdadeiros malabarismos linguísticos, a ponto de responder deste jeito a uma pergunta sobre as inovações que imprimiu ao verter Grande Sertão: Veredas para o idioma de Thomas Mann: “O senhor já viu algum centroavante alemão fazer gol de bicicleta?”

A riqueza cultural da obra rosiana é um tema apaixonante, mas vou deixar pra outra hora falar sobre o simbolismo de “nonada”. Hoje o assunto é “motociata”, palavra nova que não foi criada pelo grande escritor e muito menos por Bolsonaro, claro que não. Este semianalfabeto se atrapalha com o parco léxico que as suas limitadas sinapses conseguem manipular, que dirá criar alguma coisa em língua. Pra dizer bem a verdade, pouco me importa descobrir de onde saiu a tal motociata, a palavra, mas quero olhar para o que esta que passou por Porto Alegre no sábado passado foi e, principalmente, para o que ela representa na atual conjuntura. Houve rede de mídia que anunciou um milhão de motos na procissão da morte bolsonarista. Mas ridículo que se mantém no ridículo e caga pra isso, só o próprio presidente fascista. Desmentiram a “notícia” logo em seguida. A propósito de cagar, disse o genocida dia desses que caga pra CPI. Comparável à paixão pelo fuzil, a fixação deste sujeito por merda é tanta que ele não passa um dia, sequer algumas horas sem fazer uma.

As fotos e vídeos divulgadas mostram que de fato muita gente participou do passeio do séquito bolsonarista pela ruas de Porto Alegre, o que comprova que, a despeito do que dizem seus algozes da mafiomídia nas pesquisas recentemente divulgadas, o bolsonarismo ainda vive e está forte. Chego a pensar se a artilharia da Rede Goebbels, ops, Globo, e suas parceiras de consórcio não se enquadram num grande tour de force de desinformação, com o objetivo de desarticular as forças de resistência. Plano que inclui a produção em ritmo industrial de escândalos por parte do (des)governo e que passou, antes da eleição, pela feicada (neologismos, enfim…) que, segundo Renan Calheiros, resultou na costura do intestino à garganta do Messias. Aliás, a que nível triste descemos quando Renan Calheiros vira referência. Delírios conspiratórios? Talvez, o que não chega a ser estranho no país do terraplanismo.

Voltando aos motociclistas do inferno, que são muito mais perigosos que os de Altamont , nas primeiras filas eles cavalgavam máquinas que consomem mais gasolina (a mais de 6 reais!) que um Opalão 6 cilindros, como me disse um amigo no sábado. É significativo que a comissão de frente desse entrudo mórbido apresente Ninjas e Hayabusas de ronco forte e acelerador nervoso. Essas motos não estão ao alcance do povo que sofre a plataforma genocida do governo bolsonaro, então ainda se pode entender porque estavam lá. Entretanto, é paradoxal que se vejam algumas desavergonhadas Titans e Factores, poucas, é verdade, mas algumas até com os baús de tele-entrega, em geral cobertos pela bandeira da ordem e do progresso. Isso escancara uma faceta burra da classe mé(r)dia, que se vê afundar na lama chafurdada pela familícia imperial, mas continua sorrindo à semelhança de hienas que se contentam com a carniça, porque o que importa mesmo é a reprodução em loop do discurso da queda o PT.

Por outro lado, dias atrás Eduardo Leite rompeu com o bolsonarismo. Ou isso ou ele é tão demente quanto o líder messiânico que apoiou em 2018. Só que ontem o recém assumido membro da comunidade LGBTQIA+ mandou um recado a quem achou linda a sua saída do armário no palco global, inclusive, e talvez principalmente, para a parte da Esquerda que aplaudiu entusiasticamente o anúncio. Ao justificar a truculência da sua brigada (não por acaso) militar, ele disse que a repressão atuou para garantir a ordem e a segurança de manifestantes de ambos os lados. De ambos os lados, disse ele, mas quem acabou no camburão foi a perigosíssima terrorista que ameaçava mandar pelos ares a manifestação fascista com a sua letal… panela, que sequer era de pressão.¹ Era de baixa qualidade, então, a maquiagem humanitária do governador gay que não se quer gay governador.

Não se trata de desqualificar a importância da declaração de Leite. Mas por que antes ele escondia essa condição, que até negou durante a campanha que o elegeu governador? E por que agora que decidiu abrir o coração na Globo, fez questão de inverter a subjetividade que o constitui ao dizer que é “um governador gay e não um gay governador”? Não é preciso ser conhecedor da obra de Umberto Eco ou versado em semiologia para perceber que governador gay e gay governador são coisas diferentes. O discurso aponta para uma ideia que diz: “Olha, sou gay, mas o povo hétero pode votar em mim também, tá?”, porque ficou muito claro que ele não tem nenhuma intenção de assumir a luta de resistência das causas humanitárias e que o seu anúncio feito em rede nazional, ops, nacional, após uma chamada que já o colocava como terceira via na sucessão presidencial, foi um ato oportunista, um balão de ensaio na luta da grande rede para encontrar o seu candidato. E por falar em semiótica, parece que tem tudo a ver essa conversa de terceira via colada a um possível candidato gay (mas nunca um gay candidato).

Com tudo isso, neologismos à parte, a política brazilis continua sendo definida em esquemas e tenebrosas transações (Salve, Chico!) feitas ao arrepio dos interesses do povo. Povo que tem que decidir entre cavalgar, ou melhor, pilotar em marcha acelerada rumo ao horizonte finito da terra plana ou retomar o rumo da sua própria história, interrompido pelo golpe parlamentar de 2016. E para os seguidores de Bolsonaro, a dica é já ir pensando no próximo messias. Dizem que a saúde do mito anda meio fraca. Andou passando mal na serra, soluçando, vomitando. Viver é muito perigoso…

Imagem copiada de https://bcharts.com.br/

¹https://sul21.com.br/noticias/geral/2021/07/mulher-e-presa-apos-protestar-contra-motociata-de-bolsonaro-em-porto-alegre/

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Política

Hora de derrubar mitos

Não foi ontem que as pessoas progressistas e amantes das liberdades e da democracia descobriram que as coisas no Brasil vão de mal a pior. Nem foi no golpe engendrado para tirar do governo uma presidenta legitimamente eleita. Presidenta, aliás, que soube que não levaria a cabo o segundo mandato no exato instante em que o TSE proclamou a sua reeleição, em 2014. Naquele momento, o candidato derrotado anunciou que as forças conservadoras tornariam o país ingovernável. E cumpriu o prometido. Só que também não foi naquela ocasião que passamos a entender o que estava acontecendo. A gênese de tudo está no aeroporto, quando a socialite começou a encontrar o porteiro do prédio em Paris, e na Universidade, quando o filho preto da empregada pobre começou a dividir a sala de aula com a filha do patrão. (Sobre isso, recomendo “Que horas ela volta?”, filme brasileiro de 2015, dirigido por Anna Muylaert e magnificamente estrelado por Regina Casé.) “A Casa-Grande pira quando a Senzala vira médica”, foi o que disse a estudante Bruna Sena, ao ser aprovada em primeiro lugar para Medicina na USP, vestibular mais concorrido do país. E num país de elite historicamente escravocrata, como é o  nosso, quando a Casa-Grande pira, as consequências podem ser trágicas.

A eleição de um projeto autoritário e com matizes notadamente fascistas, porém, não é fruto somente de uma insatisfação das elites. Acreditar nisso é seguir trilhando o caminho de um erro que já provocou um resultado devastador. É preciso ir além, é preciso olhar para o nosso interior e detectar precisamente o ponto em que começamos a nos equivocar. A avaliação mais precisa do contexto político que se estabeleceu nas eleições deste ano não foi feita por um cientista político e nem por um jornalista, mas pelo rapper Mano Brown. E aconteceu durante um evento do próprio Partido dos Trabalhadores. Ao dizer que o PT deveria voltar a dialogar com as bases, Mano Brown não fez mais do que a crítica que o próprio partido deveria ter feito internamente há muito tempo e que vinha sendo feita, a bem da verdade, por alguns quadros históricos, como Olívio Dutra. Mas da mesma maneira que a dura reprimenda feita corajosamente por Mano Brown às vésperas do pleito não significou que ele estivesse “passando para o outro lado”, ou “dando um tiro no pé”, como tentaram dizer algumas figuras petistas de expressão, também as reflexões de Olívio não o afastaram das lutas democráticas. Pelo contrário, Olívio, do alto de seus mais de 70 anos, esteve engajado de corpo e alma na campanha pró-Haddad e Manuela, e no último sábado esteve de casa em casa em alguns bairros populares de Porto Alegre, fazendo a luta pela “virada”. E as palavras de Mano Brown, que certamente foram extremamente incômodas a quem sempre fechou os olhos para os erros cometidos pelo PT, estimularam a militância a seguir firme na busca por votos possíveis de inversão. Como depoimento pessoal, posso dizer que conquistei alguns votos para a chapa Haddad/Manuela a partir do discurso dele, pois algo que sempre incomodou e irritou os antipetistas é a incapacidade do partido em assumir os seus próprios erros. Quando o partido reconhece que não foi perfeito, as barreiras e restrições começam a ser relativizadas.

Todavia, a coisa toda não se explica somente por essas constatações. Há que se analisar também o caso do antipetismo, que teria levado milhões de brasileiros e brasileiras a eleger Bolsonaro e sua plataforma antidemocrática pela via da exclusão e da rejeição. Essa é uma meia verdade. Fosse a intenção do eleitorado bolsonarista tão somente barrar o PT, havia outras possibilidades, à direita e ao centro, ainda no primeiro turno. Alckmin, Marina, Amoedo e o próprio Ciro eram candidaturas viáveis a combater a ascensão petista, mas foram preteridas em favor de um discurso extremado, que agradou, sim, ao povo ávido por vingança. Eu escrevi vingança. O que pode agradar mais a chamada classe média do que a promessa de poder se vingar de quem lhe ameaça a segurança? E nesse caso, pouco importa se quem promete nada fez pela segurança pública nas últimas trés décadas, mesmo ocupando um cargo político importante. O cidadão mediano, que vive com medo de ser assaltado na rua, é seduzido pelo canto da sereia que representa a possibilidade poder usar uma arma de fogo para se defender. E empolgado com essa ideia, certamente não vai buscar informações sobre o que realmente está por trás dessa conversa, sobre que interesses serão contemplados com isso. Sequer essa pessoa vai se informar sobre o que acontece em países cuja posse e porte de arma de fogo é facilitada, como os EUA. A ele basta sonhar que vai poder dar um tiro na cara do assaltante, afinal, bandido bom é bandido morto. As causas que levaram esse bandido ao mundo da criminalidade também pouco lhe interessam, pois é suficiente que ele esteja morto. Se morrer um inocente, paciência, o próprio Messias já aliviou essa culpa. Ou seja, se há um componente de antipetismo na eleição do capitão, há muito mais do lado Mr. Hyde que habita o interior de cada “cidadão de bem”, que clama por justiça, mas quer ter o mórbido prazer de executá-la com as próprias mãos. Esse é o pensamento de quem reduz a luta pelos direitos humanos a uma defesa da bandidagem e é o pensamento que elegeu um projeto que afirma abertamente legitimar o justiçamento.

Conforme muito bem observou um amigo, Marcelo Cougo, o eleitor e a eleitora de Bolsonaro são as únicas pessoas que acreditam que ele não vai fazer o que prometeu. Isso leva a uma situação surreal, em que o voto é dado pela certeza do não cumprimento das promessas de campanha. Pessoas minimamente politizadas e conscientes votam em candidatos/as na esperança de que cumpram com o que se comprometeram, caso sejam eleitos/as. Algumas até mesmo deixam de votar em qualquer candidatura por entenderem que nenhum/a agente político é capaz ou tem interesse em cumprir as suas promessas. Mas votar num candidato porque ele não vai cumprir o que prometeu parece ser um caso singular na história democrática do Brasil e talvez do mundo. Ao longo da campanha, circularam inúmeros vídeos que mostram Bolsonaro afirmando com convicção as suas ideias de defesa da tortura e de admiração por torturadores, por exemplo. E não foram falas descontextualizadas. Estão aí disponíveis no Youtube. Também é da própria boca do presidente eleito que se ouviu a exortação à expulsão dos adversários políticos do país, assim como a defesa da tese de que o voto não pode mudar nada, que é preciso um golpe e que se for necessário matar alguns inocentes, não tem problema. Não vou me dar ao trabalho de incluir aqui os links para essas declarações, porque é só jogar no Google. O bolsonarianismo, porém, insiste em dizer que não é bem assim, que ele não disse o que disse, embora esteja tudo gravado e registrado, ou que ele disse isso em contexto diferente, ou ainda pior, que ele estava só brincando. Se alguém se dispõe a brincar de elogiar o maior facínora e mais sádico torturador da história do Brasil no momento mais crítico da história política recente do país (o voto no processo de impeachment da Presidenta Dilma), a coisa é ainda muito mais grave.

Com isso quero dizer que o processo que levou Bolsonaro ao cargo político máximo da República não se explica pela ideia simplista do antipetismo, e também afirmo que o próprio antipetismo não se explica pelas próprias mazelas do Partido dos Trabalhadores. Todos esses elementos estão presentes, por óbvio, na eleição de Bolsonaro, mas o que está na origem de tudo é o desejo de vingança, o ódio que o “cidadão de bem” passou a nutrir por tudo aquilo que ele não pode explicar racionalmente, seja por incapacidade mesmo ou por preguiça intelectual. Ao fugir da análise dos fatos geradores das desigualdades sociais e optar por trilhar o caminho fácil da eliminação da “bandidagem”, o eleitorado bolsonarista escancarou a sua face fascista, gostem ou não os meus amigos e as minhas amigas que votaram no B17. A prova de que a luta não é anticorrupção é o elemento que se tornou simbólico dessa cruzada moralista: a camisa da CBF, uma entidade mergulhada na roubalheira e na corrupção. E a prova de que a questão central nunca foi a segurança é a falta (ou omissão) de conhecimento de que o presidente eleito não apresentou sequer um projeto na área da segurança pública em quase 30 anos de atividade parlamentar.

De um lado, então, cabe à esquerda e as forças do campo democrático uma reflexão séria sobre os próprios equívocos, e a união em torno de um projeto de resistência e reconquista do terreno perdido nas áreas sociais, a fim de que o projeto fascista representado pela eleição de Bolsonaro não consiga se consolidar. E ao eleitorado bolosonarista não assumidamente fascista (porque fascismo não se discute, se combate) cumpre fazer uma reanálise acerca do discurso de ódio que motivou a votação em massa na plataforma autoritária de um candidato que, agora eleito, tem sim as condições de cumprir tudo aquilo que prometeu durante a campanha e ao longo da sua trajetória na vida pública. É preciso, em resumo, derrubar alguns mitos para que possamos recolocar o país no rumo de crescimento em que estava há pouco tempo. A minha esperança é que isso não seja um problema muito difícil de resolver, porque, como ouvi muito durante esses últimos tempos, se ficar ruim a gente tira…

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