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Bet: que bicho é esse?

Na semana passada, o prefeito de Porto Alegre participou do programa Dus2 Podcast, apresentado pelos jornalistas Cristiano Silva e Geison Lisboa. Entre outras coisas, defendeu a liberação do Jogo do Bicho no Brasil. O argumento não é novo: o jogo é sério e os prêmios nunca deixam de ser pagos. Não conheço o suficiente dos meandros do Bicho pra saber se isso é assim mesmo, mas do pouco que sei, a corrupção não está no sistema de apostas propriamente, que, em última análise, trata apenas de sorte e azar, em que pese o que dizem os estatísticos, mas no submundo do jogo, que envolve violência extrema, tráfico (drogas, armas, influência), propinas, lobby etc. Não estou entrando no mérito da opinião do prefeito, se o jogo deve ou não deixar as sombras, isso é assunto pra outro momento. Quero pensar um pouco sobre outra situação que envolve jogos de azar.

Atualmente, vemos o universo do futebol dominado pelas casas de apostas. E elas investem alto. Despejam contêineres de recursos em publicidade nos programas esportivos e patrocinam 19 dos 20 clubes que disputam a série A do campeonato brasileiro neste ano. Alguns inclusive estampam o patrocínio na camisa. Mas que interesses movimentam esse mercado?

De João Havelange a Rogério Caboclo, a história de corrupção no futebol brasileiro é longa. Em 2005, numa das tantas vezes em que deixou de ser campeão brasileiro por fatores extracampo, o Inter foi vítima de uma rede de manipulação de resultados que dentro de campo beneficiou o Corinthians. O Timão, porém, era uma espécie de testa de ferro de um esquema sujo que de novidade não tem nada e muito menos acontece somente no terceiro mundo. Cruzando o oceano, nos anos 1980, o carrasco do escrete canarinho de 82, Paolo Rossi, foi condenado com outros atletas e dirigentes por participação em sistemas fraudulentos semelhantes. Já no século 21, ainda na Itália, a Vecchia Signora, Juventus, foi rebaixada de divisão no campeonato nacional pelos mesmos motivos. E falamos aqui de um dos berços da civilização ocidental. Fazendo o caminho de volta ao país do futebol, no campeonato brasileiro de 2020, que terminou em 2021, novamente o Inter foi prejudicado pela arbitragem e impedido de levantar a taça. Se naquele 2005 a fraude foi comprovada e assumida por alguns dos participantes, desta vez eu penso que a coisa tem alguma relação com os interesses em torno do mundo das bets. Mas é só uma hipótese. Por enquanto.

Engana-se quem pensa que isso só interessa ao espaço do futebol e, portanto, se restringe à esfera privada. Jogos de azar são proibidos no Brasil desde que a primeira-dama da época, 1946, esposa do presidente Eurico Gaspar Dutra, muito católica que era, entendeu que as apostas iam contra os preceitos divinos. O mandatário decretou e os cassinos foram para a clandestinidade. Toda uma época de glamour começou a decair. Na esteira daquelas coisas que só acontecem no Brasil, onde, por exemplo, a agiotagem é proibida, com exceção daquela praticada pelos banqueiros, alguns anos depois a única forma de jogo legalizada passou a ser administrada pelo governo, por intermédio da Caixa Federal. O que temos hoje, porém, é a abertura da concorrência com a jogatina oficial pela atuação das casas de apostas, que praticam jogos de azar amparadas por uma lei do final do governo golpista de 2016 e já na iminência do governo fascista de 2019: Lei 13.756/2018. Acontece que enquanto o serviço não é regulamentado, as operações financeiras do negócio são feitas fora do país, inclusive nos paraísos fiscais, para onde, a propósito, o ministro da economia costuma mandar os seus dólares. É dinheiro do povo brasileiro viajando para o exterior, lavadinho e (mal)cheiroso, livre, leve e solto.

Todo esse contexto aponta para algo daquela mistura que caracteriza as relações entre o público e o privado desde que o escrivão de Cabral por aqui passou, e que foi estudada por Sérgio Buarque de Holanda na primeira metade do século passado. Além da atuação representativa da letra B de bola das bancadas BBB do Congresso Nacional, a lei, que beneficia entidades privadas – e somente elas, porque nesse tipo de aposta o povo sempre perde -, passou pelo ministério atualmente chefiado pelo Paulo Guedes. Em dezembro de 2018, o presidente genocida (dito pela CPI e a ser avaliado pelo tribunal penal internacional), que é palmeirense mas torce pelo Flamengo, já tinha escolhido o seu superministro. Se não me falha a memória, e dificilmente ela me falha nesses casos, o mundo sabia quem seria o chefe da economia bolsonarista já bem antes da divulgação do resultado das urnas. Dizem até que isso até andou ajudando na vitória do capitão. Dessa forma, o acompanhamento e a “fiscalização” dos trabalhos desse novo sistema seria feito pelo Chicago Boy, e, consequentemente, os frutos da lei que libera a carpeta com grife começariam a ser colhidos na nova gestão.

O mundo do futebol de elite no Brasil envolve um mercado bilionário, que é gerenciado por uma das instituições mais corruptas da história do país e que sempre acaba conseguindo se esquivar de uma investigação aprofundada e séria pelos órgãos competentes. É nesse terreno fértil para negócios obscuros que atuam as casas de apostas. Com o aval do governo, elas despejam dinheiro em todos os segmentos do futebol, inclusive nos clubes, e exportam dinheiro brasileiro para o outro lado do Atlântico, numa história que se repete desde que os portugueses (os navegadores, não os técnicos de futebol) avistaram a nossa costa.

Sabemos da paixão do povo brasileiro pelo futebol. Tirando os clubes de aluguel, que existem para os empresários engordarem suas contas e os banqueiros garantirem o seu caviar, torcedores e torcedoras fazem muitos sacrifícios para acompanhar o time do coração. Que ninguém tenha a arrogância de dizer que isso é bobagem, porque a relação de uma pessoa com um time de futebol envolve coisas muito mais profundas do que se pode expressar na máxima pão e circo. O mundo do futebol mexe com o que de mais humano têm as pessoas, futebol envolve amor e vida. Muitas vezes de forma irracional, é verdade, mas não é só a razão que move o ser humano. Só que hoje tudo se resolve em e por interesses que nada têm a ver com esses sentimentos puros e genuínos que atravessam as gerações. É a mercantilização da paixão, a monetização (ah, o linguajar moderno…) do amor. Tudo está no pacote do futebol moderno.

De Aristóteles a Kant, passando pelos teóricos do conceito moderno de estado, não sei se algum estudioso conseguiria dar luz às implicações éticas imbricadas no tipo de relação que se estabeleceu entre clubes, federações, empresários, mídia, governo e casas de apostas. O que sei é que no dia em que se desvelarem as estruturas de funcionamento desse sistema, os criminologistas terão bastante trabalho.

*Imagem de destaque copiada de: <https://noticias.r7.com/economia/protesto-na-faria-lima-poe-guedes-em-nota-de-us-95-milhoes-08102021&gt;. Acesso em: 2 de dez. 2021.

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Futebol, Política

O futebol moderno: ou no tempo em que a coreia era coréia

O futebol é feito de fases. Na fase atual, os times não atacam e nem defendem: ou estão na fase ofensiva ou na fase defensiva. E o velho e bom contra-ataque, que por aqui já foi chamado de esquema “pega-ratão”, hoje é transição. Falando em esquemas táticos, são um caso à parte. Que coisa linda são os esquemas táticos! Que profusão de emoções provoca nos acadêmicos do futebol moderno passar horas debatendo a complexa e quase hermética matemática dos esquemas: 3-5-2; 4-4-2; – ah, que espetáculo! – ou um 3-6-1, com os três volantes fazendo a diagonal e o extrema esquerdo jogando na extrema direita e o extrema direito jogando na extrema esquerda pra confundir o adversário (e o próprio time…); que maravilha! Mas, atenção, esquema tático é uma coisa, modelo de jogo é outra, por favor, não confunda funda com bunda! Jogo de posição, modelo reativo etc. e tal não devem nunca invadir as conversas sobre esquemas táticos. Os manuais explicam isso direitinho. E se precisar tem vídeo no youtube. De minha parte, tenho grande curiosidade de saber como seria o esquema com esta escalação: Ivo, Alfeu e Nena; Assis, Ávila e Abigail; Tesourinha, Russinho, Vilalba, Rui e Carlitos. 1-5-5? 6-5? 1-10. Na verdade já sei: não seria.

O Gamarra não jogaria no futebol moderno. Pro futebol moderno não basta o cara ser o melhor zagueiro do universo, tem que ser construtor. E até onde sei o Gamarra não tem registro no conselho de engenharia. Mas todo mundo tem que construir no futebol moderno. Lembro quando o Inter trouxe o Oséas e a sua permanência no time se justificava porque ele fazia a parede como ninguém. E o Velho Cabral: Olha aqui ó, dispensa o centro-avante e contrata um pedreiro pagando bem menos. E naquela época o futebol nem era tão moderno…

Lembro também do tempo que atravessar bola na intermediária defensiva era motivo de gancho de 15 dias e que quando a bola era atrasada pro goleiro adversário a gente gritava: “APERTA QUE ELE ENTREGA!”. Hoje o jogador que não sabe trocar passes na frente da área pra atrair o adversário e abrir espaços e não entrega muito não serve: “Ele entrega pouco pro time”, dizem os entendidos do futebol moderno. E o box-to-box? Ah, o box-to-box!!! Chega a causar arrepios pensar num jogador que não saiba fazer o box-to-box. O volante, que já foi centro-médio e tinha só que manter a frente da área limpa, se não fizer o box-to-box não pode estar no time. Seja lá que diabos quer dizer box-to-box (deve ser algo pra não esquecer que o esporte é bretão).

Na hermenêutica do futebol moderno (o futebol moderno não vive sem hermenêutica) o gol é detalhe, mera consequência da maior posse de bola. Se o time tiver 95% de posse de bola durante os 100 e tantos minutos (sim, hoje o jogo não acaba antes dos 100, e isso não tem nada a ver com o saudoso Canal 100), pouco importa se ganhou por 1 a zero, com um frango do goleiro adversário, sem que o centro-avante tenha chutado uma única bola durante todo o jogo. Goleiro, aliás, que pode tomar frango a rodo; tem é que saber jogar com os pés. Se ele deixa a bola entrar bizonhamente na goleira é coisa pra se avaliar depois, o que interessa é que saiba trocar passe com o zagueiro (que deve ser construtor, nunca esqueçamos) e que contribua pra diminuir o espaço do adversário, possibilitando a fase ofensiva ou a fase de transição, que, como visto, já foram grosseiramente chamadas ataque e contra-ataque em tempos de antanho por quem não entende nada de futebol (moderno). Quando o goleiro toca cinco vezes mais na bola que o meia-armador (depois eu posso tentar explicar o que era isso antes do futebol moderno), os teóricos do futebol moderno entram em êxtase: “Este sabe jogar com os pés!” Tudo isso tem uma razão, que se explica pela análise do mapa de calor do camisa 9 (ou 38, ou 44, ou 171) pra ver por onde ele andou em campo e concluir se ele sabe ou não jogar sem a bola. A diferença entre mim e o Pelé é só a bola. (CABRAL, 199…)

No futebol moderno, ala, que já foi lateral e tinha que marcar o ponteiro, é extrema, que, como vimos, pode jogar na direita, na esquerda, no meio, tanto faz, assim como o ponteiro, que também é extrema. Ficou meio confuso? Não te preocupa, vou organizar as referências bibliográficas sobre o assunto e aí tudo vai ficar claro e cristalino. Voltando ao extrema (antigo ala, pré-histórico lateral), se ele não fechar pro meio (ou pro lado, ou pro outro lado, ou pra trás – pra frente, em direção à linha de fundo? Jamais!), pra abrir espaço pro volante – que também tem que ser empreiteiro, ops, construtor – dar aquele passe que quebra as linhas de defesa, pode ter certeza que não vai se criar. Mas se ele fizer isso direitinho, pode ter as próprias linhas quebradas (vulgo bola nas costas) o jogo inteiro que não tem problema nenhum, o importante é o esquema, ou melhor, o modelo (ou será que neste caso é mesmo o esquema?), e, afinal o goleiro está ali pra jogar com os pés. E, convém repetir, o que importa é a posse de bola.

Há algumas coisas no futebol moderno que obviamente estão fora das quatro linhas (ainda são quatro, né?). Hoje, quando o teu time fizer um gol, é prudente esperar alguns minutos pra abraçar e beijar aquele sujeito de quem há meio minuto tu queria morder a orelha e cuspir arquibancada abaixo (cuidado com os stewards, que os campos, desculpa, as arenas do futebol moderno estão cheias deles à espreita de qualquer deslize – nome feio nem pensar!). Sempre há chance do bandeira (assistente de arbitragem) levantar o seu instrumento de trabalho e mandar o lance pro VAR (acrônimo de Vamos Ajudar o Rubro-negro, embora alguns autores digam que se originou da ideia: vamos acabar com o futebol de VÁRzea). Vezes há em que o próprio interrompe o contra-ataque, ops, transição, pra chamar o juiz (árbitro principal) pra revisar se aquela pisada que o zagueiro (construtor) deu no pescoço do extrema (que fechava pelo meio) dentro da área foi proposital ou não. Aí, se não for contra o mengão (neste caso a orientação é deixar o var solenemente no vá(r)cuo), o juiz vai lá olhar e durante os próximos 18 minutos ficaremos esperando se foi pênalti ou não. Ou melhor, esperando se o juiz vai dar o pênalti ou não, afinal, a regra é clara mas tem que se interpretada, principalmente se o pênalti for contra o mengão. É tempo suficiente pra ir lá na copa – espaço que os antigos frequentadores chamavam de bar – comprar um cachorro-quente ou uma pipoca, gourmets, que no futebol moderno só se aceita coisa gourmet, e tomar uma ceva. Sem álcool, por óbvio, e de preferência que não seja Brahma, porque Brahma pode trazer reminiscências de tempos de outrora, quando se agradecia à Antarctica pela caixa de Brahma e o centro-médio marcava o meia-atacante. E quem sabe dá tempo até de ir no banheiro, que agora é limpinho e tem até sabão líquido. (Dizem que em algumas arenas se chama toilette e são oferecidos lencinhos umedecidos, mas isso pode ser intriga da oposição.) Na volta, talvez dê tempo até pra ouvir o narrador gritando goooooooool com aquela emoção toda, mesmo que o tento tenha sido anotado há mais de 15 minutos. Ah, importante dizer, ouvir o narrador pelo aplicativo, claro, afinal, radinho de pilha no futebol moderno? Nem pensar! Se o narrador estiver fazendo tubo, melhor ainda.

Outra coisa muito importante no futebol moderno é o marketing. O futebol moderno precisa estar sempre criando cases de sucesso, como camisas amarelas, cor-de-rosa a até pretas. O time há 100 anos é vermelho? Mi mi mi… Essas camisas, roxas, verdes, cor-de-laranja, serão, como se disse, cases de sucesso entre os clientes, que são o equivalente no futebol não moderno aos torcedores. Clientes, a propósito, que podem desfrutar de todo o espaço das arenas (antigos estádios) durante o match day. Se quiserem ou não entrar na arquibancada, quer dizer, cadeira, pouco importa, desde que consumam, consumam, consumam e, no final, consumam mais um pouco. (E.T.: dizem que em certos locais do high society das arenas, o drink é liberado, às vezes até na faixa.)

Por fim, o futebol moderno não admite modelos (ou seriam esquemas?) anacrônicos, idealizados por técnicos ultrapassados que pararam no tempo em que zagueiro e goleiro só tinham que defender a meta e que só por golpe de sorte, ou talvez pela surpresa causada por um sistema tão retrógrado, tenham sido capazes de conquistas mundiais. Não, de jeito nenhum!

Dizem que foi o futebol moderno que levou o acento da coréia.

*Imagem de destaque (Coreia) copiada de https://twitter.com/barrabrava_net/status/1334210367275282432, visitado em 12/6/2021.

E mais uma vez as mulheres mostraram como é que se faz.

Foto da seleção feminina copiada de https://esportes.yahoo.com/noticias/selecao-feminina-protesta-contra-assedio-sexual-antes-de-partida-192452154.html?guccounter=1&guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLmNvbS8&guce_referrer_sig=AQAAAIzxlmz6q4olnlfjjs9EqGUKVGkt9rfrdKyVUBlxMmLqYDhUDR-V3sPAhblv40M9xJrvvdxMiLVLf0EmVW-FIvYTrPb-CUKi8IyTen0hufOAKaGuBQ-KazH1rsXvnJTIM3pNYQDLkMDevF8AxRzxB0ZbJZdGXSQZnyxgPtldbj0v, visitado em 12/6/2021

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Ouro de Tolo (Será?)*

Esperei o fim da olimpíada para escrever um pouquinho sobre o assunto.

Começo dizendo que a virada das gurias do vôlei em cima da Rússia foi uma das coisas mais emocionantes que eu já vi no esporte, com exceção dos jogos históricos do Inter, é claro, mas isso é conversa pra outro blog (interdetodos.blogspot.com). Assim como também me emocionei ao ver um pódio formado por três jamaicanos. Um tapa na cara de quem acha que a Jamaica é só a terra da Grace Jones! E sempre me emociono quando vejo atletas de países pobres, principalmente os africanos, no pódio, e mesmo só pela sua participação, e aqui chamo o Brasil e faço o gancho para o que eu quero falar.

Lá pelas tantas, no meio das competições, antes de um jogo da seleção masculina de futebol, ouvi um comentário do Edegar Shimidt dizendo que o Mano Menezes andava preocupado com a pressão sofrida pelos jogadores por uma medalha de ouro, diante do “fracasso” dos outros esportes.

Em 07 de agosto saiu no Blog do Prévidi uma postagem com o seguinte título: “FIASCO”. Ele começa dizendo: 

Os governos brasileiros jamais deram bola para os esportes – exceção para o futebol.” 

Depois o cara se contradiz:  

O Governo coloca milhões e mais milhões nesses atletas e os resultados são pífios.”

E encerra com esta pérola:

“GOSTARIA DE SABER QUANTO O GOVERNO BRASILEIRO INVESTE NESSES “ATLETAS”??
NA MAIORIA, UNS INÚTEIS!!

Assim mesmo, em letras garrafais e negrito.

Eu botei um comentário lá dizendo que inútil era o comentário dele. Em 10 de agosto ele disse: 

Tem alguns leitores que não gostaram do meu Bom Dia de terça passada, “Fiasco”, sobre as participações dos brasileiros em Olimpíadas.
Fiz uma pergunta fundamental: Apenas nesse século, o que o Governo federal gastou com os atletas? O que Eletrobras, Petrobras, Caixa, Banco do Brasil e muitas outras estatais gastam por ano – não apenas com os atletas, mas os patrocínios nas TVs, que “incentivam os esportes olímpicos”?Ora, por favor, os resultados são pífios.Para terem uma ideia, até hoje de manhã, os Estados Unidos conquistaram 90 medalhas. Apenas nesta Olimpíada.De 1920 até hoje o Brasil conseguiu um pouco mais de 100 medalhas!!Não é um fiasco?Fiz uma pergunta fundamental: Apenas nesse século, o que o Governo federal gastou com os atletas? O que Eletrobras, Petrobras, Caixa, Banco do Brasil e muitas outras estatais gastam por ano – não apenas com os atletas, mas os patrocínios nas TVs, que “incentivam os esportes olímpicos”?Ora, por favor, os resultados são pífios.Para terem uma ideia, até hoje de manhã, os Estados Unidos conquistaram 90 medalhas. Apenas nesta Olimpíada.De 1920 até hoje o Brasil conseguiu um pouco mais de 100 medalhas!!Não é um fiasco?”

Está tudo lá em previdi.blogspot.com.br, para quem quiser conferir.

Vamos examinar essa questão com um pouco mais de cuidado.

A declaração atribuída ao Mano, cuja autenticidade não posso atestar, pois ouvi de terceiro, é simplesmente ridícula. O futebol masculino é o único esporte que deve obrigatoriamente trazer a medalha de ouro para o Brasil. E há diversas razões pra isso. O Brasil é uma verdadeira fábrica de jogadores (isso talvez até atrapalhe um pouco, mas não deveria). Enquanto as outras seleções são, em regra, formadas por jogadores ainda não suficientemente experimentados, em função do limite de idade, o Brasil leva praticamente o que tem de melhor. Neymar, Oscar, Damião, Sandro, etc., são jogadores da seleção principal. A CBF oferece uma estrutura que duvido alguma outra confederação ofereça. Os salários são milionários. Ou seja, eles só tem que se preocupar em jogar futebol. E embora eu tenha dito que o ouro é obrigação, a derrota até poderia acontecer, é do jogo, mas nunca nas condições em que ela invariavelmente acontece, com uma tremenda badalação em cima dos jogadores e tudo mais. Isso que desta vez a plim-plim nem tinha tanto acesso. É preciso dizer ao seu Mano Menezes que essa estratégia de se vacinar dizendo que há muita pressão em cima dos jogadores é muito batida. Eles são muito bem pagos e muito bem tratados para suportar essa pressão. Além do mais, falar em fracasso dos outros esportes, se é que ele realmente falou isso, é, no mínimo, um pouco de falta de ética. Também não sei se ética é o forte do técnico canarinho, porque depois que sucumbiu aos encantos do Corinthians e da máfia da CBF ele mudou radicalmente a sua postura, mas isso também fica pra outra hora.

Vamos ao seu Prévidi. Ele diz que os governos jamais deram bola pro esporte e depois afirma que o governo coloca milhões e mais milhões nesses atletas, que ele chama de inúteis. Alguém entendeu o que ele quis dizer? Ou o governo investe milhões e mais milhões ou não dá bola. As duas coisas são excludentes.

Adiante ele diz que a Caixa Federal, O Banco do Brasil e outras estatais investem fortunas no esporte olímpico. Só que ele não diz pelo menos por cima o quanto seria essa fortuna. Perguntei isso em um comentário, já que ele é tão bem informado, e não obtive resposta. Seria bem mais fácil fazer uma análise do desempenho dos atletas, se foi ou não satisfatório, sabendo quanta grana eles recebem. Se é que recebem, porque todo mundo sabe que os caminhos percorridos pelos recursos destinados a algum setor no Brasil são por estradas muito escuras, o que faz com que muito se perca pelo caminho. Basta perguntar o que se fez da dinheirama arrecada pela finada CPMF, que deveria financiar a saúde.

Quanto aos atletas, entendo eu que com exceção do citado futebol masculino e de alguns esportes de elite, praticados por gente de classes sociais privilegiadas (iatismo, hipismo, tênis), os que chegam a uma olimpíada são vencedores só por isso. Quando eles sobem ao pódio, independentemente do metal, são verdadeiros heróis nacionais. Disseram que o Cielo fracassou, conquistando “só” o bronze. Como “só” o bronze? Esse bronze quer dizer que ele é o terceiro melhor do mundo naquela modalidade! Isso é pouco? Então, tá, e qual foi a diferença entre ele e o primeiro colocado? Tão pequena que a gente não consegue nem contar a fração de segundo que o separou do ouro.

Os atletas dos esportes menos privilegiados fazem esforços astronômicos para chegar a uma olimpíada. Economizam anos a fio, treinam em condições bem adversas, se privam de muita coisa pra chegar lá. Quanto desse dinheiro fabuloso referido pelo seu Prévidi chega realmente nos centros de treinamento? Eu tenho certeza que é muito pouco.

Durante um curto período que antecede os jogos e enquanto eles estão acontecendo, a mídia pinta uma fantasia muito bonita. Quando um atleta de quem não se esperava nada (considerando que chegar à olimpíada pra essa gente é nada) ganha uma medalha de ouro, se fala em incentivo para os atletas jovens, patrocínios, etc., etc. etc. Passada uma semana da festa de encerramento, lá estão os caras treinando nos seus clubes e em geral pagando pra isso. E o investimento milionário? Deve andar em algum bolso ou bolsa por aí. Quem sabe alguma cueca?…

Vamos ver que espaço o seu Prévidi vai dedicar nos seu prestigiado blog aos esportes olímpicos nos próximos quatro anos.

Enquanto isso, na Jamaica…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 16/8/2012.

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