bolsonarismo, Ideologia, Política, Religiões

estado laico, graças a Deus

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[…]

VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;”

a transcrição aí de cima é da constituição federal brasileira e está expressa, como se vê, no artigo 5º, que é uma das cláusula pétreas da carta, o que significa dizer que só uma assembleia constituinte pode alterá-la. trata-se do dispositivo constitucional que define a laicidade do braZil, ou seja, desvincula a religião do estado.

as pessoas mais velhas vão lembrar do doutor ulysses lendo um belíssimo discurso diante de um plenário cheio e com milhões de pessoas brasil afora emocionadas e esperançosas de um novo tempo. inclusive as que professavam alguma fé religiosa. e também as que não tinham religião nenhuma. mas olha lá o que diz, o preâmbulo da cf: “[…]  promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”

ontem comemorou-se com missas, procissões e feriado nacional o dia de nossa (?) senhora aparecida, padroeira do brasil. não vou enfrentar a polêmica da cor da santa, que isso merece ser tratado em conversa específica. interessa agora dar uma passada pelo caráter laico do estado brasileiro, garantido pela constituição e protegido por deus.

começando pelo calendário de feriados, vamos ver que grande parte deles têm natureza cristã, e, mais ainda, católica apostólica romana: natal, páscoa, corpus christi, nossa senhora aparecida etc. vamos então para as salas de audiência dos foros, para os gabinetes, hospitais e outros espaços públicos, e dificilmente deixaremos de ver uma cruz na parede, com ou sem o cristo. (a propósito, idolatrar instrumento de tortura é bem a cara do braZil moderno.) colégios públicos com nomes de santos e santas existem em profusão pelo país. nada disso afeta a laicidade do estado, por óbvio.

o jornal nacional mostrou que o presidente bolsonaro esteve na missa no santuário de aparecida ontem e até fez uma leitura no ritual. era um evento da agenda oficial do presidente. na missa anterior, ou numa das missas anteriores, já que acontecem muitas nesse dia, o celebrante havia feito algumas críticas indiretas ao governo, com destaque para a frase, muito boa, por sinal, que pátria amada não pode ser pátria armada. foi o mesmo que rezou a missa com a presença do messias presidente, mas a homilia, desta feita, ficou no encargo de outro padre, que, ao que se sabe, não proferiu nenhuma indireta, quanto menos direta. aliás, é bem inusitada a presença do presidente na missa, já que ele professa fé em outra vertente do cristianismo, mas isso também é facilmente explicável pela máxima que o governante deve estar ao lado do povo e, naquele momento, o povo, ou aquela parcela dele que mais interessa, estava na igreja.

populismos à parte, o que será que pensa o presidente messias sobre o estado laico? nas suas próprias palavras: “Muitos tentam nos deixar de lado dizendo que o estado é laico. O estado é laico, mas nós somos cristãos. Ou para plagiar a minha querida Damares [Alves, ministra]: Nós somos terrivelmente cristãos. E esse espírito deve estar presente em todos os poderes. Por isso, o meu compromisso: poderei indicar dois ministros para o Supremo Tribunal Federal [STF]. Um deles será terrivelmente evangélico.”¹ é bom frisar, como fez bolsonaro, que a própria damares, ministra da mulher, da família e dos direitos humanos, é terrivelmente cristã e evangélica, e sua fé é tão grande que o próprio jesus já se apresentou pra ela num pé de goiaba.

a separação entre estado e religião, que se estende a todas as esferas da administração pública, está sempre sob ataque. em 2018, um sujeito, missionário de alguma religião cristã, luiz carlos sperling, começou a reivindicar a retirada da imagem do templo budista no pórtico de entrada de três coroas, sob a alegação que a cidade é cristã. no templo chagdud gonpa, há uma imagem de tara vermelha, a deidade a que se vincula a linha budista lá praticada, que tem ao lado uma imagem de nossa senhora aparecida. já me disseram que esta imagem está lá por determinação expressa do fundador do templo, chagdud tulku rinpoche, que tinha muita admiração pela história da santa e pela devoção que muitas pessoas que visitam o templo, cujo acesso é franqueado independente de religião, têm por ela.

Imagem copiada do acervo do autor.

esta curiosidade, a presença de uma imagem do panteão católico² em meio a um culto bastante distinto, em muitos aspectos será chamada por alguém de tolerância religiosa, mas eu chamo simplesmente de respeito, e explico. muito se fala em tolerância e intolerância religiosa, mas o que está por trás dessa ideia de tolerar ou não alguma coisa? quem nos explica é Sidnei Nogueira: “ouve-se muito que ‘é preciso tolerar a diversidade’. […] Não, não é preciso tolerar ninguém. ‘Tolerar’ significa algo como ‘suportar com indulgência’, ou seja, deixar passar com resignação, ainda que sem consentir expressamente tal conduta. Quem tolera não respeita, não quer compreender, não quer conhecer. […] ‘Tolerar’ o que é diferente consiste, antes de qualquer coisa, em atribuir a “quem tolera” um poder sobre ‘o que se tolera’. Como se dependesse do consentimento do tolerador para existir.”³

como bem observado por Nogueira, a própria ideia de tolerar carrega uma carga ideológica pesada, que pressupõe a supremacia de uma religião sobre outras, não por acaso uma de origem branca e europeia, que tratou de vender ao mundo a imagem do seu ícone máximo de cabelos claros e olhos azuis, mesmo tendo ele nascido na palestina, cujas pessoas têm um fenótipo bastante característico e diferente desse.

Imagem copiada de: <https://andredanielreinke.com.br/a-verdadeira-aparencia-de-jesus/&gt;. Acesso em: 13 de out. 2021.

ainda que por vezes a discriminação tenha como alvo outras culturas (vide o exemplo anterior relacionado ao budismo) e em alguns momentos possa atingir até os símbolos católicos, como no célebre caso do pastor que chutou a imagem de nossa senhora aparecida em rede nacional, em 1995, a perseguição sistemática recai sobre as religiões dos povos negros. uma rápida pesquisa na internet vai mostrar inúmeros casos de violência praticada contra centros e templos de candomblé, de umbanda e outros das culturas que têm origem no continente africano. ou seja, a laicidade é relativa e a “tolerância” é seletiva.

isso tudo, e mais uma série de coisas cuja referência tornaria este texto muito extenso, mostra que o braZil é um estado laico, desde você não professe nenhuma fé vinda ainda que remotamente da áfrica.

¹Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/10/bolsonaro-diz-que-vai-indicar-ministro-terrivelmente-evangelico-para-o-stf.ghtml&gt;. Acesso em: 13 de out. 2021.

²É importante essa distinção entre o que é cristão, de modo geral, e o que é católico, principalmente se considerarmos o avanço do cristianismo neopentecostal no braZil de bolsonaro.

³NOGUEIRA, Sidnei. Intolerância religiosa. Coleção Feminismos Plurais, coordenação Djamila Ribeiro. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2020. p. 58

*Imagem de destaque copiada de: <https://domtotal.com/noticia/1414543/2020/01/para-agradar-evangelicos-bolsonaro-quer-pagar-conta-de-luz-de-igrejas-com-dinheiro-publico/&gt;. Acesso e: 13 de out. 2021.

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A cruz de Adolf – ou De como um símbolo sagrado virou sinônimo do mal nas mãos do Führer*

Em tempos de recriação da Arena e de bbb, lembrei de uma outra edição do programa em que o Marcelo Dourado participou (e ganhou). A saber, o Marcelo é conhecido da Patrícia, foi namorado de uma amiga dela de juventude e esfregou o Sagrado Manto Colorado na cara da globo quando ganhou o bbb. Uma das polêmicas em que ele se envolveu durante o programa (parece que foram muitas) diz respeito a uma suástica que ele tem tatuada. Parece que ele tentou explicar as coisas, mas não foi entendido.

Tempos atrás descobri um livro muito legal, que está referido ao final da transcrição, que continha esta passagem, e que talvez explique o que o Dourado não conseguiu:

“A VERDADE SOBRE A SUÁSTICA  

 

Esta cruz – falou Tsarong – é um dos mais antigos símbolos sagrados do Oriente. Os budistas chamam-na ‘Wan’. Nos templos tibetanos é comum encontrarmos este símbolo, gravado nos portais ou nas pedras. – Na Índia, também podem ver a Suástica sobre a cabeça da serpente Ananta, no Templo de Ouro, em Amritsar – falou Vessantara. Os brâmanes chamam a Suástica de Cruz Jaina. – Aliás, existem duas Suásticas – retrucou Tsarong. Uma positiva e outra negativa. Ambas são sagradas,  sendo que a positiva é usada pela magia branca e a negativa pela magia negra. – E qual a diferença entre ambas? – perguntei, sumamente interessada.

 

 

 

Apontando para o desenho que o velho estava traçando no chão, Tsarong disse: – Repare, aquela á positiva. Tem os braços dobrados no sentido dos movimentos dos ponteiros de um relógio. A negativa é o contrário. A positiva representa o contínuo movimento das fôrças do Cosmos. Simboliza a rotação da Terra nos eixos do mundo, porque as linhas que se cruzam significam o espírito e a matéria perfeitamente equilibrados. Aplicada ao homem, representa o elo entre este e a divindade, emblema de que o Criador está na humanidade e está no Criador, como as gôtas de água no oceano. – então Hitler usou a Suástica positiva? – indagou Pierre Julien. – Sim, meu amigo – retrucou Vessantara -, Hitler era um grande mago negro e sabia o poder da Suástica oriental. Por isso escolheu como símbolo a Suástica positiva, apenas inclinou-a a 45 graus, tornando-a um símbolo maléfica. Basta que você examine as fotos da guerra e compare-as com a Suástica positiva. O movimento dos braços é idêntico. Hitler degradou este poderoso símbolo e pereceu vítima da sua própria maldade. – Mas como conseguiu tornar a Suástica positiva maléfica, apenas com a inclinação de 45 graus? – perguntei perplexa.

 

 

Vessantara esboçou um leve sorriso e respondeu: – Bem… para explicar isto teremos que entrar no campo da Astrologia. Segundo os entendidos, a cruz positiva, colocada no círculo do Zodíaco sobre a influência dos planetas, está iluminada pelo Sol, que é o doador da vida, positivo, masculino e gerador da fôrça. Se esta mesma cruz for inclinada 45 graus, tal como fez o déspota alemão, sai da casa do Sol e entra na casa da Lua, que é feminina, negativa e criadora das forças maléficas.* – Mas o senhor tem certeza de que Hitler usou mesmo a cruz positiva? – perguntei um pouco incrédula. – Absoluta – respondeu Vessantara serenamente. –Êste foi um dos símbolos que mais estudei na Índia, e muito me surpreendeu observar a Cruz Jaina positiva como símbolo dos nazistas. Sei que alguns estudiosos ocidentais pensam que Hitler usou a Suástica negativa, mas estão errados. Nas inúmeras fotos publicadas nas revistas da época podemos constatar isto perfeitamente. O velho pastor terminou de desenhar a cruz suástica no chão e fez sinal para um môço alto e robusto, que estava à sua direita. O rapaz aproximou-se. Vestia uma túnica de sêda carmesim sobre umas calças fofas, que terminavam escondidas sob as longas botas de couro vermelho. Na cabeça, tinha um barrete de pele de castor. Sentando-se sobre a cruz, ele cruzou as pernas, pousou as mãos sobre os joelhos, cerrou os olhos e começou a cantar. Sua voz era clara e varonil. Subia através do ar dividindo brandamente as palavras da canção. Soubemos que era uma oração mística, cuja origem era impossível saber. Quando terminou de cantar, houve gritos e vivas de todos os presentes. Então, a uma ordem do chefe, começou uma farta distribuição de ‘cheng’, cerveja nepalesa feita de milho e servida em altos cilindros de bambu, chamados ‘paips’. Havia, também, vinho indiano, montanhas de bolos de mel e inúmeros outros quitutes estritamente vegetarianos. Mas não havia ordem. O povo avançava em tudo com verdadeira alegria. Muitos até lambuzavam as vestes e riam contentes. Após o banquete começaram as danças. Um grupo de moças e rapazes dançou em volta da grande fogueira. Cascatas de fitas coloridas flutuavam em seus capacetes dourados. Cada um trazia na mão uma flauta, que simulavam tocar. A música era exótica e harmoniosa. As môças usavam máscaras de deusas tutelares. Aliás, em quase todas as danças asiáticas, os dançarinos atuam mascarados. Isto porque acreditam que a máscara ajuda-os a elevarem-se da sua consciência do EU, libertarem-se de si mesmo a lcançar o êxtase divino. Cêrca de duas horas da manhã terminou a festa. Apesar do cansaço, nenhum de nós percebeu que o tempo passara tão depressa. E assim, regressamos ao palácio do Rajá, levando nos olhos a beleza agreste daquela festa bizarra aos pés dos montes Himalaia. Soubemos mais tarde, através das declarações do célebre astrólogo húngaro, Louis De Wolh – que foi Chefe do Escritório de Investigações Parapsicológicas de Londres e, logo, Capitão do Exército Britânico, graças à proteção de Lorde Halifax – que ‘Hitler se interessava profundamente pelas ciências ocultas e, em especial, pela Astrologia’. Apesar da Astrologia profissional ser proibida pelo governo alemão, soube-se que Hitler, extra-oficialmente e para uso próprio, mantinha uma plêiade de grandes astrólogos trabalhando para ele. Os demais astrólogos que vivam na Alemanha foram perseguidos e a maioria executada, pois as suas previsões astrológicas poderiam vir a prejudicar a propaganda política de Hitler. Conta Louis De Wolh que antes da II Grande guerra morou vários anos em Berlim  e lá fez amizade com Maximiliam Bauer, que era o astrólogo favorito de Gustav Stresseman, Ministro do Exterior da Alemanha. Através de Bauer, Louis De Wolh soube de várias coisas interessantes sobre o Fueher. Entre outras coisas, que ‘a sagrada cruz suástica dos antigos orientais foi escolhida por Hitler para símbolo do Nazismo, sob a influência de uma lama tibetano do Mosteiro de Tulung Tserpung, conhecido como um dos maiores redutos de magos negros do Tibet’. Soube também que em 1923, quando Hitler ainda era desconhecido do povo alemão, certa noite ao sair da famosa Cervejaria de Munique, onde se reunia com amigos para falar sobre política, Hitler encontrou-se com Aub, um velho mago muito conhecido em Munique como vidente. Em companhia de Aub estava um lama tibetano vestindo o hábito vernelho típico da sua seita. Aub conversou com Hitler por algum tempo e logo este segui-o à sua residência. Desde então, consta que Hitler foi iniciado nas ciências ocultas por Aub e o misterioso lama tibetano. Na primavera de 1940, Louis De Wolh publicou em Londres um estudo sobre o horóscopo de Hitler, no qual diz o seguinte: ‘A morte de Hitler será de natureza saturniana, ou seja, uma morte por envenenamento, ou prostração nervosa, ou quiçá se trate de uma morte misteriosa que nunca será esclarecida’. Mais tarde, num dos seus livros, intitulado ‘Astros, guerra e paz’, Louis De Wolh declara: ‘Após o trágico desaparecimento de Hitler – previsto por mim em 1940 – foi constatada a presença inexplicável de alguns lamas tibetanos da seita do chapéu vermelho nas cercanias de Berghof, o palácio montanhês de Hitler, na costa de Obersalzberg. Estes lamas foram presos, mas apesar de toda a vigilância das autoridades policiais, desapareceram misteriosamente da prisão e jamais foram encontrados’. É possível que este fato venha ao encontro das afirmações do astrólogo alemão Maximiliam Bauer de que Hitler, realmente, foi iniciado nas ciências ocultas por um lama tibetano do Mosteiro de Tulung Tserpung, situado perto de Lhasa.” (SING, Chiang. “Mistérios e magias do Tibet – Revelações do ocultismo tibetano, tal como foram observadas pessoalmente pela autora, a primeira mulher brasileira que êsteveentre os místicos e os magos do Tibet”. Rio de Janeiro. Ed. Rodemar. 2ª edição. p. 10-13). (Grifos meus.) (Grafia original.)

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 9/1/2013.

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