Direitos Humanos, História, Política, Porto Alegre

Porto Alegre é de mais

Segunda-feira, 21 de março, 6 horas da manhã, barullhos que parecem ser de tiros são ouvidos pros lados da zona sul. Logo em seguida a confirmação: troca de tiros, provavelmente entre facções criminosas, no Santa Tereza. Resultado atualizado pelo rádio até às 8h30: uma pessoa morta, duas feridas e o posto de saúde, que se não me engano é o maior da cidade, fechado. Que jeito de abrir uma semana! Pior ainda quando é a semana em que se comemora 250 anos da cidade. Comemorar exatamente o que, sr. prefeito?

Vamos falar um pouco de história. Porto Alegre ainda não tinha porto, mas provavelmente era alegre antes do século 18. Do mesmo jeito que o navegador Cabral não “descobriu” nada quando chegou na Bahia, o estancieiro Jerônimo Dorneles também não descobriu a cidade a partir do Morro Santana. Aqui havia Guaranis, Kaingangues e Charruas. E havia aos montes. O que os abnegados e nobilíssimos portugueses de espírito empreendedor fizeram com essa gente? Tomaram suas terras, violentaram as mulheres, escravizaram, mataram. Heroicos portugueses, exaltados pelos cronistas dos primeiros tempos. Dois séculos e meio passados, em Itapuã, que já é Viamão, mas fica no extremo sul de Porto Alegre, onde estão confinados os guaranis que insistiram em sobreviver, alguém tocou fogo numa casa de orações e num depósito de alimentos. Que repercussão teve? Na mídia grande, zero, afinal, espaços generosos precisavam ser destinados aos preparativos para os 250 anos.

Mas não foram só os “selvagens indígenas” que pereceram nas mãos dos civilizadores europeus. Negras e negros arrancados à força das suas terras foram enfiados nos tumbeiros e se tiveram a “sorte” de não virar comida de tubarão no Atlântico, chegaram aqui para contribuir com a construção desta nossa mui leal e valerosa metrópole. É claro que se no Brasil todo houve um lindo processo de miscigenação que resultou no povo brasileiro típico, como Gilberto Freire teorizou, no sul, particularmente, os portugueses foram muito carinhosos com os seus escravizados/as. Essa narrativa vigeu durante muito tempo na voz de cronistas e historiadores consagrados, como Walter Spalding, que disse: “O estancieiro, embora uma espécie de senhor feudal nos primeiros tempos, melhor: no primeiro século e meio de vida da Capitania de São Pedro, jamais dominou pelo terror.” (SPALDING, Walter. Pequena história de Porto Alegre. Porto Alegre: Sulina, 1967. p. 22-23)

Essa convivência pacífica de que fala o professor Spalding, começou a ser questionada nos últimos anos. Tivemos a oportunidade de conferir que a história não é bem essa, quando, por exemplo, vimos que, em meados do século passado, as comunidades da Ilhota e adjacências (povo pobre e preto) foram despejadas e atiradas num lugar quase inóspito, que recebeu o sugestivo nome de Restinga, e hoje é estigmatizado como um dos mais perigosos bairros da cidade sorriso, embora seja o espaço onde vive uma enorme comunidade trabalhadora, que transformou aquela área de alagamento numa região possível de construir uma vida digna. E vimos de novo quando o carnaval, a festa do povo (preto e pobre), que tantos transtornos trazia a quem mora nas áreas centrais, foi deslocado para o extremo da zona norte, no Complexo Cultural do Porto Seco. O que incomoda em fevereiro não incomoda em setembro, e a gauchada descendente dos herois caudilhos farrapos segue comemorando lindamente a derrota (ops!) na nossa guerra fundadora. O MTG e a RBS agradecem a compreensão da municipalidade com a a grandeza da causa farroupilha.

Neste 2022, chegando aos 250 anos oficialmente contados, Porto Alegre tem a cesta básica mais cara do Brasil (talvez seja a segunda, o que faz pouca diferença); um sistema de transporte coletivo dominado pelo empresariado, com uma das passagens mais caras e com recentes restrições aos benefícios históricos concedidos a quem mais precisa (estudantes, pessoas de mais idade); uma galopante política de privatização dos espaços públicos e elitização das áreas mais nobres da cidade (Cais Embarcadero, Shopping Pontal, Condomínio Golden Lake, Parque da Harmonia); ausência de uma política para áreas (que deveriam ser) de preservação histórica e ambiental (Fazenda do Arado, áreas rurais da zona sul); descaso com as populações vulneráveis, com o aumento em progressão geométrica da população em situação de rua e o despejo violento das ocupações, sem que haja nenhuma destinação que beneficie o povo para os prédios esvaziados (Lanceiros Negros, Saraí); o avanço do mercado imobiliário sobre as áreas populares, quilombolas e indígenas (o já citado Pontal do Arado, Quilombo dos Lemos, Areal da Baronesa); aumento das restrições aos espaços de lazer e diversão (privatização de praças e parques, repressão violenta nos bares do Centro Histórico e da Cidade Baixa); falta de uma política efetiva para o saneamento público (alagamentos frequentes); e por aí vai.

Imagem copiada de: https://www.suder.com.br/luxo-e-seguranca-veja-os-melhores-condominios-em-porto-alegre. Acesso em: 21 de mar 2022.

Diante disso tudo, parece que há muito mais motivos para preocupação do que para comemoração no próximo sábado. Mas a prefeitura vai trazer a filha da Elis para cantar na Redenção, ou melhor, no Parque Farroupilha, e o Porto voltará a ser Alegre.

Realmente, Porto Alegre é de mais. De mais pobreza, de mais desigualdades, de mais tristeza.

*Imagem de destaque: acervo do autor.

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Hierarquização racial, História, Memórias, Política, Porto Alegre

A rua que não há

Num domingo anuviado desses, na esperança de pouca gente pela rua e todo mundo de máscara, fomos, minha esposa, minha filha menor e eu, conhecer a nova atração turística de Porto Alegre, o Cais Embarcadero, que vende a seguinte ideia: “O Guaíba como você nunca viu.” Talvez fosse melhor dizer o Guaíba QUE você nunca viu, já que a muralha erguida nos 1970 por conta dos estragos da Grande Enchente de… 41, faz com que uma boa parte da gente moradora, e mesmo quem anda por aqui só de passagem rumo à Europa brasileira da região das hortênsias, pense que o limite oeste da cidade é o próprio Muro da Mauá. Pois bem, a visita, de que vou falar um pouco mais logo na frente, me trouxe à memória um tempo antigo, de quem nasceu, cresceu, viveu por quase 30 anos na Volta do Gasômetro, que naqueles 70’s não era mais que um grande prédio em franca degradação, que cumpria a nobre função de proteger a Vilinha do Fumaça, e cuja enorme chaminé, com o perdão do trocadilho, já não expelia mais fumaça (sobre isso há controvérsias), e que uma galera corajosa ousava escalar pra fazer a cabeça procurando a foz dos rios que talvez tenha nomeado a vizinha Viamão.

Mais precisamente, morei de 1972, quando nasci, até 2000 no número 330 da General Vasco Alves, que em tempos bem antigos foi chamada de Beco dos Guaranis. Pra ir pro colégio, o velho Paula Soares, subia a Duque de Caxias, às vezes com o Minuano subindo junto pra gelar daquele jeito que se dizia de renguear cusco. A primeira rua que cruzava era a General Portinho e em seguida vinha à esquerda a General Canabarro e à direita a General Cipriano Ferreira. Que nenhum dos excelsos militares venha puxar meus pés à noite, porque quando voltava do colégio as coisas se invertiam e o da direita ia pra esquerda e vice-versa. A próxima rua era a General Bento Martins, que segundo o Sérgio da Costa Franco¹, já teve o curioso e poético nome de Rua dos Nabos a Doze. Logo em seguida a General João Manoel, um caso à parte. Do lado esquerdo e (depois direito) ela descia numa lomba até a beira do rio ou quase. Do outro lado, se transformava num beco sem saída, que terminava numa sinistra escadaria, de trânsito que a mãe me proibia, por razões que eu não sei bem, embora sempre tenha desconfiado que ela tivesse medo que o José Ramos, o Linguiceiro da Rua do Arvoredo, assombrasse algum casarão dos que ainda existem (e resistem) por lá. Rua do Arvoredo que era o antigo nome da Coronel Fernando Machado dos meus tempos de colégio. (A propósito, é um desses casarões, bem no pé da escada, que hoje abriga a Catarse.) Na trilha da minha infância, a próxima rua, à direita, era a do colégio, General Auto, quase em frente ao Palácio Farroupilha e um pouquinho antes do Palácio Piratini, que fica de fronte à Praça Marechal Deodoro. E seguindo em frente – e pros lados – teríamos a Marechal Floriano, a Coronel Genuíno e por aí afora.

Nascer no ano da graça de 1972 é uma alegria para um porto-alegrense convicto e orgulhoso, que por vezes acredita no crepúsculo mais belo do mundo, porque este foi o ano em que se comemorou o bicentenário de Pôrto (nós podemos chamar assim, mas para os de fora é sempre Porto Alegre). As controvérsias que até pouco existiam sobre o aniversário se davam por conta de alguém insistir que o marco foi a chegada do Jerônimo de Ornelas no Morro Santana e outras pessoas entenderem que foram os casais Açorianos que fundaram a cidade, mesmo que a turma vencedora da contenda já tivesse definido que foi quando um tal de Manoel Sepúlveda, que matou um militar em Portugal e veio pra cá transmutado em José Marcelino de Figueiredo, conseguiu a provisão régia que criou a Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais, de 26 de março de 1772. Superado esse debate, o que se tem é a gratidão pelos patrícios portugueses, por terem vencido com coragem, bravura e valentia todas as dificuldades que se impunham, trazido a civilização e criado a nossa mui leal e valorosa (valerosa?) capital. E serão eles os grandes homenageados quando, em 2022, comemoraremos 250 anos. E digo elEs mesmo sabendo que os casais, formados por homens e mulheres, também serão lembrados. Mas elAs são elemento acessório para a oficialidade que vai organizar a festa. Assim como são também acessórios – ou nem isso – os Guaranis que aqui viviam bem antes do povo d’além mar chegar, e que por alguma razão batizaram a minha rua da infância pelo seu antigo nome; também não serão homenageados nas comemorações oficiais os negros e as negras que vieram nas correntes pra trabalhar nas terras que os Ornelas, depois Dorneles, da vida ganharam pra povoar a cidade; não teremos, por certo, uma rua batizada ou rebatizada para Mestre Borel ou Bataclã, muito menos Olívio Alfaiate. Não, as ruas continuarão cheias de medalhas e títulos honoríficos nas placas.

Imagem copiada de https://www.bahtchevolta.com.br/post/o-antigo-nome-das-atuais-ruas-do-centro-hist%C3%B3rico-de-porto-alegre, em 29/6/2021

Do mesmo jeito, o empreendimento que quer devolver o rio à cidade não vai lembrar que boa parte do povo que nela (sobre)vive não tem carro pra chegar lá (é praticamente impossível chegar a pé no Cais) e provavelmente não tem condições de pagar 15 reais por um café ou 18 por uma cerveja. No pouco tempo em que estivemos lá, as gurias tomaram um café e um capuccino, porque temos o privilégio de integrar um segmento social que (ainda) pode pagar por isso, e eu, porque sou implicante, não consumi nada. Vi duas pessoas negras, uma mulher e um homem, entre as que visitavam, e muitas entre as que trabalhavam. Nenhuma pessoa com traços indígenas. Fico pensando se o Gilberto Freire estava certo quando dizia que somos o fruto de um processo miscigenatório cordial e amoroso. Desconfio que não estava. Saí de lá com a forte convicção que o muro não vai ser destruído. Não, ele vai ser mantido, porque é a garantia que nenhum descendente de alguma realeza africana vai aparecer pra… denegrir² a festa do high society. A propósito, alguém sabe onde fica a Rua Príncipe Custódio?

¹FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 2. ed. ampl. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1992.

²O termo é usado com efeito de ironia.

*Imagem de destaque copiada de https://www.geledes.org.br/na-capital-gaucha-viveu-um-principe-negro/, em 29/6/2021

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Memórias, Porto Alegre, Republicados

Eu gostava mais quando as chuteiras eram pretas*

Era bem melhor quando a gente voltava do colégio sozinho, almoçava, descansava, fazia os temas e saia pra jogar bola ou andar de carrinho de lomba até anoitecer. O pai e a mãe não se preocupavam se a gente passasse a tarde sem aparecer em casa. E nem tinha celular…

Naquela época não tinha internet, ou seja, o mundo não estava ao alcance de um dedo. Em compensação, as pesquisas do colégio eram feitas à base de LEITURA, na Biblioteca Pública.

Aonde eu morava existiam as gangues, que na época a gente chamava simplesmente de turmas. A Turma da Bonze, a Turma da Caixa, a Turma da Matriz. Brigavam de soco e chute (antes do Alex Thomas), mas não passava disso. Drogas eram o loló, talvez alguns comprimidos com uísque, maconha. Não que isso fosse bom, mas se comparado ao inferno do crack e dos horrores dos assassinatos combinados pelas redes sociais…

Música chiclete era Amado Batista, Odair José. Bem diferente de certos michéis e ivetes que andam por aí.

Não vou falar de panorama político. Ditadura/Democracia pode ser tema de outro post, mas era bem mais legal quando os times iam do 1 ao 11.

E as chuteiras eram pretas…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 26/4/2012.

 

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