Hierarquização racial, História, Memórias, Política, Porto Alegre

A rua que não há

Num domingo anuviado desses, na esperança de pouca gente pela rua e todo mundo de máscara, fomos, minha esposa, minha filha menor e eu, conhecer a nova atração turística de Porto Alegre, o Cais Embarcadero, que vende a seguinte ideia: “O Guaíba como você nunca viu.” Talvez fosse melhor dizer o Guaíba QUE você nunca viu, já que a muralha erguida nos 1970 por conta dos estragos da Grande Enchente de… 41, faz com que uma boa parte da gente moradora, e mesmo quem anda por aqui só de passagem rumo à Europa brasileira da região das hortênsias, pense que o limite oeste da cidade é o próprio Muro da Mauá. Pois bem, a visita, de que vou falar um pouco mais logo na frente, me trouxe à memória um tempo antigo, de quem nasceu, cresceu, viveu por quase 30 anos na Volta do Gasômetro, que naqueles 70’s não era mais que um grande prédio em franca degradação, que cumpria a nobre função de proteger a Vilinha do Fumaça, e cuja enorme chaminé, com o perdão do trocadilho, já não expelia mais fumaça (sobre isso há controvérsias), e que uma galera corajosa ousava escalar pra fazer a cabeça procurando a foz dos rios que talvez tenha nomeado a vizinha Viamão.

Mais precisamente, morei de 1972, quando nasci, até 2000 no número 330 da General Vasco Alves, que em tempos bem antigos foi chamada de Beco dos Guaranis. Pra ir pro colégio, o velho Paula Soares, subia a Duque de Caxias, às vezes com o Minuano subindo junto pra gelar daquele jeito que se dizia de renguear cusco. A primeira rua que cruzava era a General Portinho e em seguida vinha à esquerda a General Canabarro e à direita a General Cipriano Ferreira. Que nenhum dos excelsos militares venha puxar meus pés à noite, porque quando voltava do colégio as coisas se invertiam e o da direita ia pra esquerda e vice-versa. A próxima rua era a General Bento Martins, que segundo o Sérgio da Costa Franco¹, já teve o curioso e poético nome de Rua dos Nabos a Doze. Logo em seguida a General João Manoel, um caso à parte. Do lado esquerdo e (depois direito) ela descia numa lomba até a beira do rio ou quase. Do outro lado, se transformava num beco sem saída, que terminava numa sinistra escadaria, de trânsito que a mãe me proibia, por razões que eu não sei bem, embora sempre tenha desconfiado que ela tivesse medo que o José Ramos, o Linguiceiro da Rua do Arvoredo, assombrasse algum casarão dos que ainda existem (e resistem) por lá. Rua do Arvoredo que era o antigo nome da Coronel Fernando Machado dos meus tempos de colégio. (A propósito, é um desses casarões, bem no pé da escada, que hoje abriga a Catarse.) Na trilha da minha infância, a próxima rua, à direita, era a do colégio, General Auto, quase em frente ao Palácio Farroupilha e um pouquinho antes do Palácio Piratini, que fica de fronte à Praça Marechal Deodoro. E seguindo em frente – e pros lados – teríamos a Marechal Floriano, a Coronel Genuíno e por aí afora.

Nascer no ano da graça de 1972 é uma alegria para um porto-alegrense convicto e orgulhoso, que por vezes acredita no crepúsculo mais belo do mundo, porque este foi o ano em que se comemorou o bicentenário de Pôrto (nós podemos chamar assim, mas para os de fora é sempre Porto Alegre). As controvérsias que até pouco existiam sobre o aniversário se davam por conta de alguém insistir que o marco foi a chegada do Jerônimo de Ornelas no Morro Santana e outras pessoas entenderem que foram os casais Açorianos que fundaram a cidade, mesmo que a turma vencedora da contenda já tivesse definido que foi quando um tal de Manoel Sepúlveda, que matou um militar em Portugal e veio pra cá transmutado em José Marcelino de Figueiredo, conseguiu a provisão régia que criou a Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais, de 26 de março de 1772. Superado esse debate, o que se tem é a gratidão pelos patrícios portugueses, por terem vencido com coragem, bravura e valentia todas as dificuldades que se impunham, trazido a civilização e criado a nossa mui leal e valorosa (valerosa?) capital. E serão eles os grandes homenageados quando, em 2022, comemoraremos 250 anos. E digo elEs mesmo sabendo que os casais, formados por homens e mulheres, também serão lembrados. Mas elAs são elemento acessório para a oficialidade que vai organizar a festa. Assim como são também acessórios – ou nem isso – os Guaranis que aqui viviam bem antes do povo d’além mar chegar, e que por alguma razão batizaram a minha rua da infância pelo seu antigo nome; também não serão homenageados nas comemorações oficiais os negros e as negras que vieram nas correntes pra trabalhar nas terras que os Ornelas, depois Dorneles, da vida ganharam pra povoar a cidade; não teremos, por certo, uma rua batizada ou rebatizada para Mestre Borel ou Bataclã, muito menos Olívio Alfaiate. Não, as ruas continuarão cheias de medalhas e títulos honoríficos nas placas.

Imagem copiada de https://www.bahtchevolta.com.br/post/o-antigo-nome-das-atuais-ruas-do-centro-hist%C3%B3rico-de-porto-alegre, em 29/6/2021

Do mesmo jeito, o empreendimento que quer devolver o rio à cidade não vai lembrar que boa parte do povo que nela (sobre)vive não tem carro pra chegar lá (é praticamente impossível chegar a pé no Cais) e provavelmente não tem condições de pagar 15 reais por um café ou 18 por uma cerveja. No pouco tempo em que estivemos lá, as gurias tomaram um café e um capuccino, porque temos o privilégio de integrar um segmento social que (ainda) pode pagar por isso, e eu, porque sou implicante, não consumi nada. Vi duas pessoas negras, uma mulher e um homem, entre as que visitavam, e muitas entre as que trabalhavam. Nenhuma pessoa com traços indígenas. Fico pensando se o Gilberto Freire estava certo quando dizia que somos o fruto de um processo miscigenatório cordial e amoroso. Desconfio que não estava. Saí de lá com a forte convicção que o muro não vai ser destruído. Não, ele vai ser mantido, porque é a garantia que nenhum descendente de alguma realeza africana vai aparecer pra… denegrir² a festa do high society. A propósito, alguém sabe onde fica a Rua Príncipe Custódio?

¹FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 2. ed. ampl. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1992.

²O termo é usado com efeito de ironia.

*Imagem de destaque copiada de https://www.geledes.org.br/na-capital-gaucha-viveu-um-principe-negro/, em 29/6/2021

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Memórias, Republicados

Álcool: de 100 pra zero*

Segundo reveion sem álcool. Legal observar a evolução da abstinência. Não da interrupção do álcool em si, porque esta se deu literalmente do dia pra noite, mas como a minha relação com essa nova situação foi se desenrolando.

No início, uma certa desconfiança e até alguma insegurança. A resposta pra negar o copo era mais ou menos sempre a mesma: “não tô bebendo”. O gerúndio aponta pra algo momentâneo, circunstancial. Não bebo neste momento, mas quem sabe mais adiante… A justificativa (sempre tem que ter alguma?) invariavelmente passava pelos remédios, porque isso evitava a insistência. Algumas vezes uma que outra brincadeira com a balada segura. O fato é que não existia a afirmativa: “Parei de beber!” Talvez porque o fato tenha se dado justamente numa virada de ano e no verão seja ainda mais difícil resistir aos apelos da cana.

Mais pra frente, um pouco mais seguro, apareceu o “Parei de beber!” Mas ainda guardando uma relação com o tempo etílico. Parei de beber implica no reconhecimento de que bebi. E em geral com o adicional de quantidade: muito! Os remédio aos poucos deixaram de ser muletas. Às vezes uma deslizada pelo “Dei um tempo!”, mas quase sempre deixando esse tempo em aberto por um bom tempo.

Atualmente, “não bebo”. Só “não bebo”, sem mais. Pra quem me conhece de outros anos novos, isso pouco diz, mas pras novas amizades, até que se aprofunde no assunto, sugere-se que nunca bebi. E isso não carrega nenhum constrangimento. Não há mais a necessidade de mostrar o passado alcoólico. Isso é bom!

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E a tal cerveja sem álcool? Troço bem ruim! E perigoso… Quando bebia, cheguei a tomar uma vez que outra, mas só por curiosidade, e como logo em seguida derramava o álcool por cima, a coisa ficava no ar. Dia desses, porém, aceitei uma sem álcool, mais pra não fazer desfeita. Bem gelada, no calorão da noite pré-natal, desceu bem o primeiro gole. Depois enjoa e o cara não chega na segunda lata. Mas aí é que o gato esconde o tapa. No meu tempo de aventuras etílicas cerveja era, na ordem de preferência, polar, brahma, antarctica, skol, kaiser (sim, eu tinha tendências suicidas). Tinha algumas especiais, tipo brahma extra, original, serramalte, boêmia. Alguns lugares, como o Zelig, tinham outras cositas, tipo a bavária premium antiga, long neck, com um papel laminado branco cobrindo a tampa; havia alguma importada, tipo budweiser e a coisa ficava por aí. Sou do tempo que a gente olhava nos filmes os caras amassando uma lata com a mão e ficava impressionado, porque a lata por aqui era de ferro, impossível de amassar sem uma marreta, e só da skol. Mas voltando à vaca fria, hoje chega a dar nojo de tanta cerveja que tem por aí. E mais nojo ainda de tanto mestre cervejeiro dando dica de cor, textura, borbulhas e o escambau!

(Parêntese pra contar uma rapidinha que ilustra a minha grossura: certa vez fomos no aniversário de uma amiga, professora da inglês da UFRGS, num pub desses que se vieram na onda das bacanezas oropeias que aportaram por acá. Gente bonita, papo cabeça, a Patrícia e alguns maloqueiros [sim, Diego e Flávio, é docês que eu tô falando]. E eis que o garção veio com o mení e sugeriu que começássemos apreciando uma mais fraquinha, pra depois avançarmos pelas mais encorpadas. Do alto das minhas décadas de beberagem eu pedi uma heineken, ao que o sujeito, muito solícito e cordial respondeu que tomando logo uma mais forte isso poderia prejudicar a apreciação dos sabores que viriam. E eu disse: “valeu a dica, parceiro, mas a questão não é o gosto do troço, mas o preço, então, se tiver alguma mais fraquinha que seja também mais barata, é nessa que eu vou”. Bueno, não preciso dizer que a fubangagem [vocês de novo, Diego e Flávio] se divertiu e a Patrícia queria se enfiar em baixo da mesa.)

Voltando de novo à vaca, que a essa altura já deve estar gelada, eu não sei se hoje em dia o gosto da cerveja álcool 0 é muito diferente de tantos outros que tem à disposição. Então hoje pode ser que o cara beba esse negócio numa boa enão queira ir pras outras. Mas prum bebedor da média guarda, como eu, o gosto dessa coisa lembra muito pouco o da cerveja que eu tomava, mas dá uma vontade de chamar uma velha polar bem gelada.

Por isso, meus amigos que pretendam enveredar pela abstinência, sugiro que não caiam nessa de tomar essas sem álcool. Primeiro porque não vai matar a saudade, porque isso pode ser qualquer coisa, menos cerveja. E segundo, decorrência disso, vai ser difícil segurar a onda depois.

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Pra encerrar, não sei se já disse isso, mas o melhor de não beber não é ver que eu posso fazer tudo de bom que fazia com álcool na cabeça, mas saber de tudo de ruim que eu deixo de fazer justamente por não estar sob efeito.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 3/1/2013.

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Memórias, Porto Alegre, Republicados

Eu gostava mais quando as chuteiras eram pretas*

Era bem melhor quando a gente voltava do colégio sozinho, almoçava, descansava, fazia os temas e saia pra jogar bola ou andar de carrinho de lomba até anoitecer. O pai e a mãe não se preocupavam se a gente passasse a tarde sem aparecer em casa. E nem tinha celular…

Naquela época não tinha internet, ou seja, o mundo não estava ao alcance de um dedo. Em compensação, as pesquisas do colégio eram feitas à base de LEITURA, na Biblioteca Pública.

Aonde eu morava existiam as gangues, que na época a gente chamava simplesmente de turmas. A Turma da Bonze, a Turma da Caixa, a Turma da Matriz. Brigavam de soco e chute (antes do Alex Thomas), mas não passava disso. Drogas eram o loló, talvez alguns comprimidos com uísque, maconha. Não que isso fosse bom, mas se comparado ao inferno do crack e dos horrores dos assassinatos combinados pelas redes sociais…

Música chiclete era Amado Batista, Odair José. Bem diferente de certos michéis e ivetes que andam por aí.

Não vou falar de panorama político. Ditadura/Democracia pode ser tema de outro post, mas era bem mais legal quando os times iam do 1 ao 11.

E as chuteiras eram pretas…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 26/4/2012.

 

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