bolsonarismo, Mídia, Política

Jovens conservadores e o amor que diz pouca coisa: os paradoxos da política braZileira

“Dormia a nossa pátria, mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”. Quando Chico Buarque escreveu esse verso, não foi para Bolsonaro. Bolsonaro não existia.

“Se um só traidor tem mais poder que um povo, que esse povo não esqueça facilmente”. Quando Raul Ellwanger verteu essa estrofe para o português, não pensava em Bolsonaro. Também não pensava em Bolsonaro León Gieco, quando escreveu o verso original: “Si un traidor puede más que unos cuantos, que esos cuantos no lo olviden fácilmente”. Existiam Jorge Videla, Augusto Pinochet, Ernesto Geisel e João Figueiredo, mas Bolsonaro não existia.

A gente sabe de trás pra frente o que acontecia nos países da América Latina na época em que essas canções foram escritas. Por que, então, temos que passar por coisas desse tipo de novo? Estaria certa a definição de Marx sobre a história e sua repetição? Os novos generais seriam apenas versões renovadas ou farsantes, como os napoleões de Marx revivendo o Brumário? (Em verdade, muitos deles nem são tão novos e já andavam por aí na época daqueles outros, mas chamemos de novos em termos de protagonismo.)

Dia desses revi o documentário “Intervenção – Amor não quer dizer grande coisa”, de Tales Ab’Sáber, Rubens Rewald e Gustavo Aranda (disponível aqui: https://vimeo.com/264475519). O filme abre com um jovem Kim Kataguiri anunciando uma fala de Reinaldo Azevedo, que trata sobre o chamado controle social da mídia. (Guardem esta palavra: jovem.) Vou reproduzir aqui algumas palavras do jornalista, ditas a mais ou menos 1min45seg do filme: “Que país curioso! Eu debatia a liberdade de expressão num clube militar e num órgão civil de defesa de uma categoria, uma outra súcia defendia censura.” Súcia era uma referência a um grupo que participava de uma reunião concomitante, que ocorria no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, onde, segundo ele, se projetavam mecanismos de implementação de censura. Grifei a construção “outra súcia”, na fala de Reinaldo. Por que ele fala em “outra” súcia? A “súcia” que defendia mecanismos de controle da mídia pela sociedade que protestava no clube militar era a mesma, obviamente, que participava da reunião no sindicato. Eu vejo aqui uma espécie de ato falho. No fundo, Reinaldo sabe que a plateia da sua palestra no clube militar era, esta sim, a verdadeira súcia, e por isso ele usou “outra súcia”. Acerca de atos falhos, Reinaldo Azevedo, o primeiro que chamou petistas de PeTralhas em grande escala, é o mesmo que observou a trapalhada de Sérgio Moro sobre a Lava Jato e seus verdadeiros objetivos, quando disse, em entrevista recente, que a operação combateu o PT. Os princípios constitucionais da administração pública, que se aplicam ao Judiciário (legalidade, moralidade, impessoalidade etc.), assim como as regras mais básicas do direito criminal, como se vê, foram solenemente ignoradas pela força tarefa lavajatiana, que incluiu inclusive, e principalmente, o próprio julgador.

Já que falamos em Sérgio Moro, ele é a tentativa frustrada da Globo de encontrar a terceira via. E essa tentativa só é frustrada porque ele mesmo, o paladino da justiça, bravo guerreiro da cruzada anticorrupção, não se ajuda, seja pela total falta de carisma ou por ser idiota ao ponto de escancarar em uma frase a farsa da Lava Jato, cavalo de batalha da Globo cujo objetivo era derrubar o PT e quebrar setores fundamentais para a autonomia do país, liberando ao aluguel, como Raulzito já dissera em 1980.

Neste ponto, preciso dizer que considero que comete um grave equívoco boa parte das pessoas de Esquerda que afirmam não ver o Jornal Nacional e a programação jornalística da Rede Globo. Tudo o que o editorialismo da casa dos marinhos – e os que mandam nele – querem é que pessoas com capacidade crítica não vejam os seus jornais. Pelo contrário, é preciso, sim, assisti-los, principalmente o JN, de alcance fenomenal, para que se possa entender um pouco melhor como funcionam as coisas na política do braZil. Simplesmente bater no peito e se dizer contra a Globo é deixar o campo livre para as articulações da imprensa golpista que a rede capitaneia. Talvez graças aos espíritos críticos que assistem o JN é que Moro, em que pese ser ele próprio um tiro no pé, não tenha conseguido se consolidar como alternativa viável ao golpismo global – ou globista.

Voltemos uma vez mais aos conceitos históricos marxistas. A Globo apoiou o regime militar desde o primeiro momento. Melhor dizendo, foi nele que a Globo nasceu e se consolidou. Mas, assim como o pré-candidato ao governo do estado do RS, Onyx Lorenzoni, se arrependeu do caixa 2 e foi perdoado pelo próprio Sérgio Moro, também a Globo se mostrou arrependida e reconheceu o erro. Mas, vejam que interessante, esse mea culpa foi anunciado em 2013, algumas semanas depois do auge da onda de protestos que viria a desencadear o golpe de 2016. É bom lembrar que naquelas manifestações a Globo foi um dos alvos da massa descontente. Aqui em Porto Alegre, a esquina da Avenida Ipiranga com a Érico Veríssimo, onde funciona a Globo RS, foi isolada em várias quadras no entorno, protegida por um esquema de segurança digno dos maiores eventos ocorridos na cidade. A alegação do governo do estado para ter designado um aparato tão pesado para fazer a defesa de uma entidade privada (sim, as organizações Globo são privadas), passou, entre outras desculpas bem questionáveis, pela proximidade do prédio da RBS com o da Polícia Federal, que poderia ser alvo de ataques. Antes que algum crítico de plantão aponte, não estou esquecendo que o governador do RS era Tarso Genro, do PT. E isso diz muita coisa, claro que diz. Senão vejamos.

As Jornadas de 2013 tinham como bandeira o apartidarismo e mesmo o antipartidarismo. E para o maior partido do país não era interessante que ganhasse corpo um movimento que se dizia autônomo e prescindia da organização feita pelas instituições partidárias. Só que a estratégia utilizada para neutralizar a ação, que passou pela tentativa de desqualificar e tirar a legitimidade dos pleitos, se mostrou absolutamente equivocada e resultou no golpe que três anos depois derrubaria o próprio PT do governo central.

Ao contrário da Esquerda, que não soube na época avaliar com clareza o poder daqueles atos, a Direita, que desde a ascensão dos governos do PT estava na inusitada condição de oposição, faturou. No ano seguinte, Kim Kataguiri, Fernando Holiday e outros e outras JOVENS, fundaram o MBL. Daí para o aparecimento de tantos grupos de jovens… conservadores foi um pulinho. O filme que citei antes, que, tecnicamente falando, é apenas uma colagem de imagens e vídeos esparsos, retrata bem o papel dessa juventude conservadora na virada à direita que o país deu a partir de 2013. E quem deu a maior força a essa retomada da “conscientização” da juventude brasileira? Plim Plim! A resposta é… Rede Globo!

E, pra não fugir da tese marxista da repetição dos fatos históricos, vamos um pouquinho mais pra trás. Quem era Fernando Collor antes de ser presidente da república? Na res publica não era ninguém. Na vida privada, era diretor de um jornal ligado às organizações Globo. Caçou marajás – menos os seus – e ganhou da Globo um presentinho: a cadeira do Planalto. Com o tempo se mostrou perigosamente autônomo, disposto a voos solo, e teve as asinhas cortadas. (Mas foi só um tempinho de reciclagem. A Globo não desperdiça seus quadros.) Quem exerceu protagonismo na queda de Collor foi uma multidão de jovens, que a Globo, apelidou de “caras-pintadas”. A Globo e a juventude na linha de frente não é, portanto, nenhuma novidade.

Neste momento é interessante retomar uma ideia que já andou sendo pensada aqui na coluna: Bolsonaro está no fim, o bolsonarismo não. E o bolsonarismo é um sistema velho com uma cara jovem. A própria imagem do demente que governa o país passa uma ideia de jovialidade. Mas quando precisa, ele tira (ou põe) a máscara e mostra a própria decrepitude, que chega ao coração das pessoas na figura de um homem saudável que se tornou doente pelo atentado que sofreu por defender o país da ameaça vermelha. Um mártir, um mito que um dia está na praia de jetsky e no outro, hospital, sonda e cara de doente terminal.

Essa dicotomia, milimetricamente desenhada, é reproduzida nas entrelinhas do documentário que embasa a reflexão de hoje. Observem, no filme, as sutis diferenças entre os discursos das pessoas de mais idade e daquelas que estão da casa dos 40 anos para baixo, que, em política, podem ser chamadas de jovens. Enquanto a gente mais antiga propõe uma retórica baseada na experiência de quem viveu tempos melhores, interrompidos pela “trágica experiência comunista dos anos petistas”, e que sofreu as duras penas dessa inflexão histórica, a ala jovem vem com um discurso pesado, que não economiza incitação a ações violentas. Ora, é próprio da juventude um espírito mais aguerrido, que muitas vezes confunde agressividade com violência física. Essa é uma das misturas da receita básica do bolsonarismo: mesclar a suposta sabedoria advinda da experiência de quem já sobreviveu ao “comunismo”, com o temperamento incendiário da massa jovem, que quer tirar os “corruptos vermelhos” do poder nem que seja a pau. Os treinamentos paramilitares promovidos nos templos evangélicos, que aparecem ao longo de todo o filme, mostram que a lavagem cerebral que cria a inconciliável imagem do/a jovem reacionário/a, está em pleno curso.

O paradoxo político brasileiro está posto neste ano eleitoral. De um lado, a incompetência absoluta de Bolsonaro e sua família põe em risco a manutenção do projeto ultraliberal protofascista; de outro, essa mesma incompetência está sendo tratada nos círculos que determinam o poder como a reação contrarrevolucionária para frear a reestruturação das forças de Esquerda. Não é de graça que ao mesmo tempo em que Bonner e Renata, que, a propósito, ostentam imagens e linguagem bastante joviais, desciam a lenha em Bolsonaro na mídia televisiva, preferida do público bolsonarista, o jornalismo escrito, que chega em público diferente, em tese mais politizado, atacava Lula com a mesma virulência. No meio dessa briga, fomentada por ela mesmo, a Globo ganha tempo pra achar a terceira via.

Spoiler: Michel Temer anda sumido e Eduardo Leite foi retirado da linha de frente. Recuos estratégicos de um plano já arquitetado? Temer é culto, se veste impecavelmente, tem uma esposa bela, recatada e do lar, é bom de voto, principalmente em São Paulo, e Leite é o jovem conservador (como é difícil aceitar essa imagem!) adequado ao padrão. É certo que a Globo tem estimulado a polarização em dois lados com muitos e evidentes problemas, Lulismo e Bolsonarismo, que são explorados na mesma medida. Enquanto isso, vendo o barco do ex-juiz e ex-ministro, atualmente consultor para a recuperação de empresas que ajudou a quebrar, naufragar antes mesmo de deixar o porto, nada melhor do que resguardar possíveis candidatos, retirando-os da exposição massiva e mantendo a carta na manga para a hora certa, quando o eleitorado já estiver cansado e desesperançado e assim pronto para aceitar qualquer coisa que se lhe apresente como alternativa. Mesmo que sejam as mesmas velhas raposas velhas, acompanhadas por novas raposas velhas.

Que a Esquerda não seja como a pátria mãe, tão distraída…

*Imagem de destaque copiada de: <https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2015/03/em-culto-da-universal-jovens-gladiadores-se-dizem-prontos-para-a-batalha-4710883.html.&gt; Acesso em: 10 de jan. 2022.

Padrão
bolsonarismo, Cinema, Política

Gado não olha pra cima

Quando postei aqui um texto antigo, sobre o filme Violeta foi para o Céu, observei que falar sobre Violeta Parra é falar em política mesmo sem querer falar em política. Não tenho nenhum talento, habilidade e formação, e, talvez por isso, não tenho também nenhuma vontade de escrever crítica de cinema. Mas gosto de filmes. E gosto de política. E gosto de debater política.

Um filme estrelado por Leonardo DiCaprio e Meryl Streep dificilmente não vai ser bom. Se tiver Cate Blanchet e Jennifer Lawrence também, a possibilidade de ser mais do que bom aumenta. Confesso certa alienação dos assuntos recorrentes na rede, ou trends, e acabei tomando conhecimento do filme num cartaz atrás de um ônibus. Não me chamou muita atenção da primeira vez. Da segunda, também num ônibus, imaginei um filme de ficção filosófica, meio chato, tipo Magnólia. Continuei desinteressado. Na última quinta-feira, estava procurando algo pra assistir e me surpreendi que o filme estava na Netflix. O meu nível de desinformação a respeito era tão grande que nem sabia que é uma produção da própria Netflix. Abri a sinopse e achei interessante, mas pensei em algo mais pra linha do suspense, como Caixa de Pássaros (bem fraquinho, aliás, apesar da Sandra Bullock). Com algumas cenas já passadas, passei a desconfiar que era uma comédia, coisa que já deveria ter ficado clara na frase de epígrafe.

Nos últimos anos, assisti Que Horas Ela Volta, Aquarius, O Som ao Redor, Bacurau, Merlí, todas as temporadas, inclusive as mais chatas, da Casa de Papel, alguns episódios de Black Mirror (o primeiro é sensacional), O Poço, que é uma tijolada, e por aí vai. Todos esses são filmes (e séries) que fazem pensar. E pensar nem sempre é tão fácil quanto parece.

A vantagem deste Não Olhe para Cima é que nem é preciso pensar muito pra ver que pouca coisa da atualidade escapa à crítica ácida e satírica do filme. Começa pela epígrafe: “Quero morrer dormindo como meu avô. Não gritando aterrorizado como os passageiros dele.” Como quase sempre faço quando um filme me chama a atenção, dei uma lida nas críticas. E este tem muitas. Tem gente dizendo que é raso, superficial; tem gente que diz que o roteiro é confuso e que a história não amarra as pontas; outras críticas dizem que é um grande filme; enfim, como sempre, tem de tudo, inclusive as chatíssimas análises que tentam desqualificar o filme pelas questões técnicas.

Eu gostei muito do filme porque machismo, choque geracional, ditadura da beleza ocidental, escracho ao sistema político, a certos valores da classe mé(r)dia mundial e ao american way of life, que também pode ser o braziian way of life, referências sutis, e outras nem tanto, à manipulação das mentes que a moderna tecnologia impõe, essas coisas estão presentes. Mas, acima de tudo, gostei porque o filme escancara o bolsonarismo. Se o palco fosse deslocado dos EE.UU. para o braZil, nenhum ajuste seria necessário no roteiro. O chefe de gabinete imbecil da presidenta poderia facilmente se chamar Carlos. O sujeito que vai comandar a missão oficial de destruição do cometa poderia se chamar Heleno ou Hamilton (ou Walter ou Luiz Eduardo) e não mudaria nada no filme. O megaempresário que determina o sistema, poderia se chamar Luciano ou simplesmente “alguma coisa Santos”. Tudo se encaixaria, mas o que ficaria mais do que adequado é a massa imbecilizada que usa o “não olhe para cima” como palavra de ordem de uma espécie de seita, cujo papel é acreditar no que os messias do poder dizem. E a hierarquia messiânica do poder aqui tem como figura maior o dono de uma indústria, que produz celulares, cuja tecnologia é consumida até por quem não faz parte da massa robotizada que passa a vida brincando de seguir o líder.

Em algum momento da vida, quando li bastante sobre animais em geral, descobri que bois, vacas e outros tipos de gado só olham para a frente e sempre que enxergam qualquer lado é pela visão periférica. Ou seja, nunca olham pra cima. E a disposição dos olhos, um de cada lado da cabeça, é típica dos animais que são presas, já que os predadores têm os olhos numa posição frontal. O gado não olha pra cima. O sujeito bolsonarista também não. O nome do filme é, por via diversa, uma metáfora do tipo bolsonarista, que só olha pra onde o messias manda. Me incomoda chamar a massa bolsonarista de gado. Qualquer associação de coisa ruim com animais me parece injusta, mesmo que seja apenas para identificar um certo tipo de irracionalismo, que impede a pessoa de fazer qualquer coisa por vontade própria. Aceitando só com esse último sentido a ideia de chamar o povo bolsonarista de gado, o filme retrata o bolsonarismo e seu gado.

Bolsonaro é tão megalomaníaco que é capaz de pensar que o filme foi inspirado nele e se orgulhar disso. Não foi, embora tudo esteja perfeitamente adequado ao bolsonarismo. Só que está adequado não porque Bolsonaro seja referência. Não é. O bolsonarismo, que pode ser dito como bolso-olavismo, não é um fenômeno genuinamente braZileiro. Nem pra isso Bolsonaro serve, ele não criou um sistema, simplesmente é uma marionete, uma figura caricata que preenche os requisitos necessários à implementação do sistema que, por conveniência e alguma boa sonoridade, leva o seu nome. E aqui se pode comparar a presidenta do filme a ele. Também ela chegou ao cargo pelo estereótipo que representa e não pelos méritos próprios da política. E o fim dela está à altura da sua figura, bizarrice em último grau. Quem viver verá o fim de Bolsonaro da mesma forma.

E por falar nele, no momento em que este texto é publicado, encontra-se hospitalizado por problemas possivelmente decorrentes da… fa(ke)cada. Oremos!

*Imagem de destaque copiada de: <https://www.terra.com.br/diversao/tv/blog-sala-de-tv/famosos-que-defendem-bolsonaro-de-tudo-e-todos-parte-3,52bb582d99876ace688d56d752cbe7d27xosk8g9.html.&gt; Acesso em: 6 de jan. 2022.

Imagem copiada de: <https://sul21.com.br/noticias/politica/2021/07/bolsonaro-sera-transferido-para-sao-paulo-onde-pode-passar-por-cirurgia/.&gt; Acesso em: 6 de jan. 2022.

Padrão
bolsonarismo, Futebol, Política

Bet: que bicho é esse?

Na semana passada, o prefeito de Porto Alegre participou do programa Dus2 Podcast, apresentado pelos jornalistas Cristiano Silva e Geison Lisboa. Entre outras coisas, defendeu a liberação do Jogo do Bicho no Brasil. O argumento não é novo: o jogo é sério e os prêmios nunca deixam de ser pagos. Não conheço o suficiente dos meandros do Bicho pra saber se isso é assim mesmo, mas do pouco que sei, a corrupção não está no sistema de apostas propriamente, que, em última análise, trata apenas de sorte e azar, em que pese o que dizem os estatísticos, mas no submundo do jogo, que envolve violência extrema, tráfico (drogas, armas, influência), propinas, lobby etc. Não estou entrando no mérito da opinião do prefeito, se o jogo deve ou não deixar as sombras, isso é assunto pra outro momento. Quero pensar um pouco sobre outra situação que envolve jogos de azar.

Atualmente, vemos o universo do futebol dominado pelas casas de apostas. E elas investem alto. Despejam contêineres de recursos em publicidade nos programas esportivos e patrocinam 19 dos 20 clubes que disputam a série A do campeonato brasileiro neste ano. Alguns inclusive estampam o patrocínio na camisa. Mas que interesses movimentam esse mercado?

De João Havelange a Rogério Caboclo, a história de corrupção no futebol brasileiro é longa. Em 2005, numa das tantas vezes em que deixou de ser campeão brasileiro por fatores extracampo, o Inter foi vítima de uma rede de manipulação de resultados que dentro de campo beneficiou o Corinthians. O Timão, porém, era uma espécie de testa de ferro de um esquema sujo que de novidade não tem nada e muito menos acontece somente no terceiro mundo. Cruzando o oceano, nos anos 1980, o carrasco do escrete canarinho de 82, Paolo Rossi, foi condenado com outros atletas e dirigentes por participação em sistemas fraudulentos semelhantes. Já no século 21, ainda na Itália, a Vecchia Signora, Juventus, foi rebaixada de divisão no campeonato nacional pelos mesmos motivos. E falamos aqui de um dos berços da civilização ocidental. Fazendo o caminho de volta ao país do futebol, no campeonato brasileiro de 2020, que terminou em 2021, novamente o Inter foi prejudicado pela arbitragem e impedido de levantar a taça. Se naquele 2005 a fraude foi comprovada e assumida por alguns dos participantes, desta vez eu penso que a coisa tem alguma relação com os interesses em torno do mundo das bets. Mas é só uma hipótese. Por enquanto.

Engana-se quem pensa que isso só interessa ao espaço do futebol e, portanto, se restringe à esfera privada. Jogos de azar são proibidos no Brasil desde que a primeira-dama da época, 1946, esposa do presidente Eurico Gaspar Dutra, muito católica que era, entendeu que as apostas iam contra os preceitos divinos. O mandatário decretou e os cassinos foram para a clandestinidade. Toda uma época de glamour começou a decair. Na esteira daquelas coisas que só acontecem no Brasil, onde, por exemplo, a agiotagem é proibida, com exceção daquela praticada pelos banqueiros, alguns anos depois a única forma de jogo legalizada passou a ser administrada pelo governo, por intermédio da Caixa Federal. O que temos hoje, porém, é a abertura da concorrência com a jogatina oficial pela atuação das casas de apostas, que praticam jogos de azar amparadas por uma lei do final do governo golpista de 2016 e já na iminência do governo fascista de 2019: Lei 13.756/2018. Acontece que enquanto o serviço não é regulamentado, as operações financeiras do negócio são feitas fora do país, inclusive nos paraísos fiscais, para onde, a propósito, o ministro da economia costuma mandar os seus dólares. É dinheiro do povo brasileiro viajando para o exterior, lavadinho e (mal)cheiroso, livre, leve e solto.

Todo esse contexto aponta para algo daquela mistura que caracteriza as relações entre o público e o privado desde que o escrivão de Cabral por aqui passou, e que foi estudada por Sérgio Buarque de Holanda na primeira metade do século passado. Além da atuação representativa da letra B de bola das bancadas BBB do Congresso Nacional, a lei, que beneficia entidades privadas – e somente elas, porque nesse tipo de aposta o povo sempre perde -, passou pelo ministério atualmente chefiado pelo Paulo Guedes. Em dezembro de 2018, o presidente genocida (dito pela CPI e a ser avaliado pelo tribunal penal internacional), que é palmeirense mas torce pelo Flamengo, já tinha escolhido o seu superministro. Se não me falha a memória, e dificilmente ela me falha nesses casos, o mundo sabia quem seria o chefe da economia bolsonarista já bem antes da divulgação do resultado das urnas. Dizem até que isso até andou ajudando na vitória do capitão. Dessa forma, o acompanhamento e a “fiscalização” dos trabalhos desse novo sistema seria feito pelo Chicago Boy, e, consequentemente, os frutos da lei que libera a carpeta com grife começariam a ser colhidos na nova gestão.

O mundo do futebol de elite no Brasil envolve um mercado bilionário, que é gerenciado por uma das instituições mais corruptas da história do país e que sempre acaba conseguindo se esquivar de uma investigação aprofundada e séria pelos órgãos competentes. É nesse terreno fértil para negócios obscuros que atuam as casas de apostas. Com o aval do governo, elas despejam dinheiro em todos os segmentos do futebol, inclusive nos clubes, e exportam dinheiro brasileiro para o outro lado do Atlântico, numa história que se repete desde que os portugueses (os navegadores, não os técnicos de futebol) avistaram a nossa costa.

Sabemos da paixão do povo brasileiro pelo futebol. Tirando os clubes de aluguel, que existem para os empresários engordarem suas contas e os banqueiros garantirem o seu caviar, torcedores e torcedoras fazem muitos sacrifícios para acompanhar o time do coração. Que ninguém tenha a arrogância de dizer que isso é bobagem, porque a relação de uma pessoa com um time de futebol envolve coisas muito mais profundas do que se pode expressar na máxima pão e circo. O mundo do futebol mexe com o que de mais humano têm as pessoas, futebol envolve amor e vida. Muitas vezes de forma irracional, é verdade, mas não é só a razão que move o ser humano. Só que hoje tudo se resolve em e por interesses que nada têm a ver com esses sentimentos puros e genuínos que atravessam as gerações. É a mercantilização da paixão, a monetização (ah, o linguajar moderno…) do amor. Tudo está no pacote do futebol moderno.

De Aristóteles a Kant, passando pelos teóricos do conceito moderno de estado, não sei se algum estudioso conseguiria dar luz às implicações éticas imbricadas no tipo de relação que se estabeleceu entre clubes, federações, empresários, mídia, governo e casas de apostas. O que sei é que no dia em que se desvelarem as estruturas de funcionamento desse sistema, os criminologistas terão bastante trabalho.

*Imagem de destaque copiada de: <https://noticias.r7.com/economia/protesto-na-faria-lima-poe-guedes-em-nota-de-us-95-milhoes-08102021&gt;. Acesso em: 2 de dez. 2021.

Padrão
bolsonarismo, Direitos Humanos, Política, Povos originários

Brasil de Jesus X braZil de Messias: nações em chamas

Na madrugada de 13 para 14 de novembro, uma semana atrás, um incêndio destruiu a casa de orações da Aldeia Guarani Pindó Mirim, aqui em Itapuã. Não deu no Fantástico, não teve espaço na editoria local do G1.

Este crime, que também atingiu um local usado para a guarda de alimentos, não é um fato isolado. Na página do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) podem ser encontradas várias notícias de atentados recentes contra áreas indígenas. Raríssimos desses casos têm alguma repercussão na grande mídia e, quando isso acontece, é de passagem e sem que se dê o devido acompanhamento aos desdobramentos, principalmente no âmbito penal, se é que os há.

Proponho um teste rápido para ilustrar a minha afirmação: qual a primeira lembrança que traz o nome Galdino Jesus dos Santos? Apesar do sobrenome, Galdino é um cidadão indígena, nascido na nação Pataxó. E por que ele é chamado de Jesus dos Santos? Porque os indígenas precisam adotar um nome ocidental para o registro civil na terra que desde sempre foi deles. Trata-se de uma das mais cruéis expressões de violência humana, pois age diretamente na subjetividade, na construção identitária da pessoa, que é obrigada a ser reconhecida por um nome que não tem nenhuma relação com a sua cultura. Mas não é exatamente este o ponto que quero tocar agora. Interessa lembrar que em 19 de abril de 1997, data que integra o calendário civil brasileiro como Dia do Índio (“todo dia era dia de índio”, diziam Pepeu e Baby), Galdino se abrigou em uma parada de ônibus da capital federal, já que por conta do horário não tinha conseguido retornar para a pensão em que estava hospedado. Estava em Brasília para tratar com o governo FHC de questões indígenas. E, naquela madrugada, dormindo na parada de ônibus foi que encontrou o seu trágico destino, pelas mãos de alguns jovens de classe média, que resolveram “tirar uma onda” e tacaram gasolina e fogo nele. Galdino morreu no dia seguinte, com 95% do corpo queimado. No julgamento, os “meninos” alegaram que pensavam se tratar de um “mendigo” e resolveram fazer uma brincadeira com ele. Vale dar uma olhada na sentença que desclassificou o crime para “lesão corporal seguida de morte” (https://archive.md/lijQe).

Imagem copiada de: <https://www.brasildefato.com.br/2021/08/31/governo-bolsonaro-designou-assassino-do-indio-galdino-para-cargo-de-confianca-na-prf&gt;. Acesso em: 24 de nov. 2021.

Revoltante essa história, né? E que tal saber que um dos assassinos, Gutemberg Nader de Almeida Júnior, exerceu um cargo de confiança na Polícia Rodoviária Federal, na gestão do paladino da justiça Sérgio Moro à frente do Ministério da Justiça? Pois é, definitivamente o Brasil de Galdino Jesus não é o mesmo braZil de Messias Bolsonaro.

Vamos pegar um fato mais recente pra ver se alguma coisa mudou do final dos anos 90 pra cá. Lembram do então deputado que discursou para ruralistas dizendo que “índios, quilombolas e homossexuais são tudo o que não presta”? Minha memória, assim como meus dentes, às vezes me trai, mas disso eu me lembro: chama-se Luiz Carlos Heinze, foi eleito senador, é uma das vozes mais inflamadas na defesa do governo bolsofascista e é pré-candidato ao governo do RS. Na minha perspectiva, com boas chances de ser eleito, diante do poder da classe que representa, afinal, o agro é pop.

Nessa altura, alguém já estará dizendo que é uma injustiça (ou mimimi) afirmar que a grande mídia não se interessa pelas causas humanitárias, afinal o próprio Fantástico andou denunciando crimes e problemas graves em terras Yanomamis. Parece até que depois dessas matérias o Ministério Público Federal resolveu cobrar das autoridades providências para a saúde das comunidades noticiadas. Vamos colocar alguns pingos em alguns is e, pra não perder o hábito, lançar uma dúvida: (1) o MPF tem gente e estrutura suficiente, inclusive de inteligência, para não depender do Fantástico para agir nesses casos; (2) considerando que os crimes contra os povos originários não começaram a acontecer na semana passada, talvez seja interessante investigar o que está por trás do súbito interesse da casa dos marinhos na questão indígena. Diz a sabedoria popular que não há almoço de graça, enfim.

Pelo menos desde que os astecas pagaram caro a ingenuidade de Montezuma ao receber Hernan Cortez como um deus, os velhos habitantes do novo mundo são assassinados. Algumas vezes de forma ostensiva e coletiva, como se fazia na época das conquistas ultramarinas, outras pelo fogo, que é ateado contra a própria pessoa ou que destrói os seus locais sagrados e os reservatórios de alimentos nos espaços onde estão aldeados. Acontece que nos séculos passados o povo não podia decidir nada, a não ser pelas armas. Hoje também precisamos de arma, mas temos uma mais poderosa do que qualquer outra, que devemos a quem lutou e até morreu para que pudéssemos dispor dela: o voto. A questão que se impõe agora é que temos pouco menos de um ano para decidir, pelo voto, como queremos passar à história frente à questão indígena: se na condição de copartícipes do extermínio das nações que já estavam por aqui muito antes de nós, em pleno curso há 500 anos e em marcha acelerada no governo fascista atual; ou como pessoas que lutaram para o restabelecimento da democracia e dos caminhos para a construção de uma sociedade mais justa, em que todas e todos, independente de etnia ou cor, gênero ou afetos, filosofia ou credo, tenham direito a uma vida digna. Está nas nossas mãos dar um passo na direção de um país em que pessoas, mesmo que de fato sejam moradoras de rua (ou mendigas, como preferem aqueles ex-jovens mas sempre assassinos), não tenham seu corpo carbonizado por mera diversão. E em que mulheres não sejam estupradas apenas por não merecer, e em que quilombolas e homossexuais não sejam tratados como lixo, e por aí vai.

No caminho do voto, tudo aponta que Bolsonaro, acusado pela CPI de genocida de indígenas, seja candidato. Moro, seu ex-aliado de primeira hora, em cuja gestão como ministro da… justiça, um assassino cruel ganhou cargo de confiança, também será. Na esfera estadual, Heinze, que disse aquelas barbaridades antes citadas e considera a demarcação das terras indígenas um crime contra o país, disputará o pleito. E assim como esses, tantos e tantas candidatos/as comprometidos/as com os (mais sórdidos) interesses das elites concorrerão aos cargos no legislativo. Urge, então, que as forças de resistência assumam o compromisso de combater de forma séria e organizada essa escalada nazifascista e ponham termo ao incêndio que destrói a mata, as terras, as comunidades e as pessoas.

Enquanto nós, que temos o poder de usar o voto para mudar esse quadro, continuarmos acreditando que o massacre dos povos originários e as barbaridades cometidas contra as pessoas que a elite nazi considera diferentes não nos diz respeito, ou apenas olharmos com algum sentimento de pena e sem nenhuma intenção de assumir a culpa que temos pela omissão frente aos fatos revoltantes, como o assassinato de Galdino ou o atentado sofrido pelos Guaranis de Itapuã na semana passada, o risco da história nos carimbar como apoiadores de assassinos nos assombrará. E não adianta terceirizar a luta para o Fantástico ou o Jornal Nacional, que as pautas das editorias da rede são muito voláteis (ah, os eufemismos…) e talvez daqui a um ano ou menos os Yanomamis já tenham caído no esquecimento (de novo), como caíram Galdino e seus assassinos.

Quanto ao crime em Itapuã, nem no Jornal do Almoço…

*Imagem de destaque copiada de: <https://www.abrasco.org.br/site/comissaodecienciassociaisehumanasemsaude/o-que-se-trama-contra-os-povos-indigenas/716/&gt;. Acesso em: 24 de nov. 2021.

Padrão
bolsonarismo, Esquerda, Política

O Brasil entre a consolidação do fascismo e a retomada do caminho democrático: o que os números mostram

“Meus amigos essa noite eu tive uma alucinação, sonhei com um bando de número invadindo o meu sertão, vi tanta coincidência que eu fiz esta canção.” Assim Raulzito começa a explanação sobre as coisas dos números, que passa pela Bíblia e as crenças populares, o maniqueísmo ocidental e por aí afora.

Eu, a única vez que rodei de ano foi em Matemática. Teve outras, por faltas e desistências, mas isso é outra conversa. A minha administração financeira é caótica e tenho certeza que se não fossem os compassos compostos eu seria um músico razoável. Mas ao contrário do que isso possa indicar, eu gosto dos números e, fundamentalmente, tenho grande respeito e admiração por quem os trata bem, sejam os estatísticos que fazem os cálculos sobre todas as coisas, ou os engenheiros que calculam a exata quantidade de explosivos necessária para abrir um túnel em meio à montanha. Os números dizem coisas interessantes, tanto nas aplicações práticas quanto nas zonas menos racionalmente explicáveis do conhecimento. A Numerologia, gostem ou não, tem estudos sérios. E lembremos que os gregos, Pitágoras e outros, diziam que o Arché, o elemento fundamental, era um número. Talvez não seja bem isso, Filosofia Clássica também não é o meu forte, mas é alguma coisa por aí.

O meu amigo Douglas, letrado e historiador, colabora muito com as ideias colocadas por aqui, mesmo que às vezes ele nem saiba. Dia desses ele disse mais uma frase muito boa. Indo direto ao ponto, como costuma fazer, sem meias palavras: “Se apertou 17 em 2018, que se dane!” Me fez dar uma atenção especial a alguns números. Em 16 o povo sofreu um golpe articulado pelo 15. Já em 18, a facada foi dada pelo 17. Ou seja, os números nos dizem que desde 2016 (pelo menos desde lá) estamos sempre em retrocesso.

Abstrações numéricas à parte, se formos para os números frios e reais não será difícil constatar que a caminhada em marcha à ré é acelerada e se apresenta em regressão geométrica: em relação a 2016, temos hoje muito menos empregos formais, muito menos investimentos em ciência e educação, muito menos comida na mesa, muito menos direitos sociais e muito menos um monte de coisas. Mas, sejamos justos, se a nossa observação tiver outra perspectiva, a constatação é que os números são altos e avançamos nas mesmas proporções: muito mais miséria, muito mais violência de todas as formas, principalmente contra pessoas vulneráveis, muito mais fome, muito mais inflação, muito mais dólares do Chicago Boy nos paraísos fiscais.

O fato é que o número que deveria aumentar exponencialmente é o das pessoas conscientizadas da grande bobagem que fizeram, do crime que cometeram ao apertar 17 em 18. Anuncia-se que o presidente genocida, isso dito pela CPI, vai se filiar a algum partido por esses dias. Talvez até já tenha se filiado. Eu tenderia, no primeiro momento, a dizer que deve ser uma dessas siglas de aluguel. Nenhum partido minimamente sério, mesmo que ultraliberal e com tendências ao fascismo, aceitaria esse sujeito nos seus quadros. Se aceitar, no momento exato da assinatura, mesmo que seja com Bic, o tal partido terá jogado na lixeira da história o mínimo de seriedade possível.

Imagem copiada de: <https://twitter.com/IvanValente/status/1458585513439285249&gt;. Acesso em: 16 de nov. 2021.

Ele andou se oferecendo ao PP, mas a repercussão dentro do partido não foi das melhores. Parece que o caminho é o PL, do Valdemar Costa Neto, que tem uma folha corrida de respeito e é grande aliado do governo ex-17, eleito em 18 para acabar com a corrupção do 13, sem se preocupar com o 45. Nessa miscelânea numérica, o que menos interessa é a sigla, no fim das contas eles, PL e PP, estarão juntos, afinal ambos, como tantos outros, são rebentos da Arena. Arena que, a propósito, uma estudante, cotista social na Universidade de Caxias do Sul, tentou refundar há alguns anos.¹ Parece que não deu muito certo, porque as lideranças do partido novo, quer dizer, Nova Arena andaram se estranhando e o projeto naufragou. O próprio Bolsonaro não conseguiu gente pra endossar a criação de um partido novo. Não o Partido Novo, que este, que se diz novo apesar das velhas práticas, vingou, mas um que não por acaso ele chamaria de Aliança. Voltando aos números, o do PL é 22 e se poderia investigar se isso não é uma tentativa de mudar o padrão. Em 16, o 15; em 18, o 17; o que significa andar pra trás (é a Matemática que diz), então talvez eles queriam se livrar desse estigma e pelo menos ficar na mesma. Só uma hipótese. Mas prefiro pensar a coisa por outro lado.

Bolsonaro precisa de um partido pra tentar a reeleição. Ele já transitou por vários, inclusive o PP, e se elegeu por um alugado, que logo em 2019 chutou. Agora a coisa é um pouco diferente, ao que tudo indica. Diante da tentativa frustrada de ter um partido pra chamar de seu, o que seria uma prova clara de força, o bolsonarismo deve estar pensando que desta vez vai precisar de uma estrutura mais forte. Quando um político tenta a reeleição, especialmente no Executivo, o seu principal cartão de visitas é o trabalho já realizado. Em três anos de mandato presidencial, Bolsonaro só fez autopropaganda negativa, por isso precisa reverter a própria imagem. A chance de fazer isso num partido sem expressão diminui. Por outro lado, um partido maior, mais estruturado, com trajetória consolidada nos estados e municípios e uma ideologia conservadora e autoritária à prova de qualquer refutação, pode dar melhor sustentação ao prosseguimento da implantação da plataforma nazibolsonarista.

Tudo isso se diz e se analisa em tese, muita coisa ainda vai rolar até as eleições. Mas é preciso que as forças de resistência resolvam esse problema, que é muito mais do que meramente matemático. O nome de Lula está longe de ter a aprovação pacífica da Esquerda. Isso mostra uma certa incapacidade do campo democrático de produzir novas lideranças. Estamos sempre às voltas com as mesmas figuras. Entretanto, sem a Rede Globo e o Instituto Millenium no apoio, construir um nome em pouco menos de um ano é impensável. E aqui há outro ponto nevrálgico: qual a ideia da Globo? Pedro Bial lançou um balão de ensaio com o governador gay que não se quer gay governador, mas a coisa não andou, ao que parece. Talvez estejam pensando na refundação da república de curitiba, com os lavajatianos paladinos da cruzada moralizadora. É difícil saber o que passa na casa marinho, mas é preciso atenção, porque a rede mafiomidiática costuma resolver o X da equação a partir dos ajustes na sua matemática privada.

Assim, talvez devamos fazer uma concessão aos aspectos subjetivos e supersticiosos dos números e aceitar o 13 como a possibilidade de travar a escalada fascista. A partir daí, em 2023 começamos a fazer cálculos para traçar a rota rumo ao retorno da democracia. É um caminho longo, não podemos nos iludir, mas em algum momento precisaremos botar o pé nessa estrada. Os números do tempo correm contra nós.

¹(Para maiores informações: https://oximarraoalucinogenocom.wordpress.com/2018/06/12/a-arena-que-nao-e-pro-futebol/)

*Imagem de destaque copiada de: <https://www.metropoles.com/brasil/secretarios-de-saude-lamentam-as-600-mil-mortes-por-covid-negacionismo-perverso&gt;. Acesso em 16 de nov. 2021.

Padrão
bolsonarismo, Direitos Humanos, Política

Gentes

Dizem que os crocodilos derramam lágrimas enquanto devoram suas presas. Daí a expressão “chorar lágrimas de crocodilo” pra dizer que alguém está sendo falso, cínico. Bolsonaro não corre o risco de virar crocodilo (que bom para os animais), afinal (diz que) não tomou a vacina. Mas a lamentação pela morte de Marília Mendonça se encaixa direitinho na definição da expressão.

Como disse o Moisés Mendes, Marília nunca foi uma ativista política e ele mesmo observa que no meio musical em que ela consolidou a sua curta carreira isso seria impossível. Mas ela falou publicamente que não votaria no candidato do fascismo. Não frequento a dita sofrência, sertanejo universitário, baronato da pisadinha ou o nome que tenha o tipo de música que ela fazia, mas tenho razões de sobra pra acreditar que ela tenha sido a única dessa turma a se posicionar assim. E, por óbvio, isso teve consequências, ela foi ameaçada e também a sua família, o que fez com que se recolhesse. Deve ser criticada por isso? Não por mim, porque entendo bem o passo atrás de quem sofre ameaças de assassinos. E que o exército bolsonarista é formado por assassinos, a memória de Marielle e Mestre Moa do Katendê (além de tantos outros e tantas outras) não nos deixa esquecer.

Imagem copiada de: <https://www.conversaafiada.com.br/brasil/sao-paulo-homenageia-mestre-moa-do-katende-e-marielle&gt;. Acesso em: 9 de nov. 2021.

A morte de Marília não vai transformar a música que ela fazia numa coisa boa. E, claro, digo isso apenas a partir da minha perspectiva, porque os e as milhões de fãs da cantora dizem diferente. Mas a morte de uma artista de 26 anos, que construiu a carreira e atingiu o sucesso de forma honesta – essa é a informação que eu tenho – é algo a ser lamentado. Quando se sabe que ela tinha um filho de pouco menos de 2 anos, o lamento vira dor, porque nenhuma criança deveria perder a mãe e muito menos nessas condições trágicas.

A partir da morte da Marília, Moisés Mendes aponta outra questão interessante para uma reflexão. Ele diz que do lado deles ninguém morre, ou morre e ninguém percebe. Como figura de linguagem vale, mas não é de todo verdade. Morre gente deles sim, bastante, e até vítima do vírus da gripezinha. Mas talvez realmente a gente não perceba. Ou se percebe não dá muita bola. Mas o inverso é muito verdadeiro, do nosso lado morre muita gente. A maioria das mais de 600 mil vidas perdidas pela Covid é gente nossa; a maioria das crianças e jovens negras e negros assassinados/as diariamente, sem notícia no JN, é gente nossa. E a nossa gente morre também sem morrer. Cada mulher violentada que tem medo de denunciar é gente nossa morrendo aos poucos; cada gay que é alvo de piadas (e também de violência física), cada pessoa que aparece nas transmissões televisivas das igrejas evangélicas como exemplo do satanismo das religiões de matrizes africanas, é gente nossa que morre; cada jovem da ciência que tem a verba da sua pesquisa cortada é gente nossa morrendo.

Dizer gente nossa aqui não tem necessariamente a intenção de dizer que é gente das nossas amizades e nem mesmo gente de quem gostamos. Tem gente nossa de quem eu gosto pouco ou quase nada. E tem até gente nossa de quem eu não gosto. Gente nossa é uma coisa ampla, é a gente que sofre com o projeto fascista e genocida que se instalou no Planalto e adjacências; é a gente que sabe que se deixar pra ir amanhã no mercado ou no posto de gasolina já não vai pagar o mesmo preço; é a gente que entra num posto de saúde sucateado em que profissionais precisam pagar material do próprio bolso para continuarem salvando vidas, e que depois passa na frente de um prédio do Judiciário que mais parece um Palácio de Versalhes. Se bem que na Justiça Federal, onde estão os prédios mais suntuosos, agora ninguém mais passa sem pagar o pedágio do parque privatizado. Mas, enfim, gente nossa é essa que sofre diariamente pelo abismo que nos separa da gente deles.

E enquanto a nossa gente morre, de verdade e simbolicamente, a gente deles entope as contas no estrangeiro com o dinheiro surrupiado de gente nossa. E sabem o que é pior? Essa gente que é deles de direito e de fato é muito pouca. A maioria da gente deles é, na verdade, gente nossa que só ainda não sabe disso. Espero que essa gente, que é nossa e pensa que é deles, entenda logo qual o lado certo para se (re)posicionar. Antes que só sobre gente deles por aí.

Se chegou até aqui, peço alguns segundos de silêncio em honra à memória da Marília Mendonça, da Marielle Franco, do Mestre Moa do Katendê e de tanta gente nossa que se foi; e um pequeno silêncio também para gerar um grande campo de vibração para nos fortalecer nas lutas contra a gente deles, porque… tá difícil, oh se tá! Mas nós não vamos desistir!

Imagem copiada de: <https://pcdob.org.br/noticias/enfermeira-e-atacada-por-funcionario-do-ministerio-de-damares/&gt;. Acesso em: 9 de nov. 2021.

*Imagem de destaque copiada de: <https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-cobra-apoio-de-ruralistas-na-disputa-pela-presidencia-da-camara/&gt;. Acesso em: 9 de nov. 2021.

Padrão
bolsonarismo, Educação, Ideologia, Militarismo, Política

Uma pessoa de terceira categoria

Sei que é uma bela carreira

mas não tenho a menor vocação

se fosse tão bom assim

não seria imposição

Raulzito

Se me perguntarem hoje qual o documento mais importante que eu tenho, digo sem hesitar que é a Carteira de Vacinação (e a carteira do Parque Gigante sempre, obviamente). Mas eu me lembro da emoção quando tirei a primeira identidade. Isso era uma espécie de rito de passagem para a vida adulta (se soubesse que era desse jeito tinha pedido pra ficar na infância, mas enfim…). A emissão da CTPS – Carteira de Trabalho e Previdência Social, que era um livrinho com espaço pra vários carimbos, foi outro momento marcante. Agora já podia bater na porta das firmas pra ver se tinha vaga de boy, profissão que exerci com muito orgulho até os 18 anos. E era justamente o 18 anos que me apavorava. Não que significasse grande coisa passar a ser adulto de fato e de direito pra alguém que já trabalhava desde os 13 (era antes da CF/88) e não tinha muito interesse em ver filme pornô no cinema. O problema é que o ano da maioridade era também o ano do alistamento e muitas noites mal dormidas eu tive pensando que teria que prestar o serviço militar obrigatório. Que pavor! Assim, o momento em que o tenente que coordenava as coisas me disse pra voltar dali a dois ou três dias jurar a bandeira e pegar a “terceira” (certificado de reservista) foi um dos mais felizes da minha vida.

Por que o serviço militar é obrigatório? E por que essa obrigação só existe para as pessoas do sexo masculino? E o que se faz lá dentro do quartel? São perguntas que não têm resposta muito difícil, mas dá muita polêmica, então vamos passar batido por elas.

Há quem aponte a Igreja Católica, mas eu tenho muita convicção em dizer que as Forças Armadas são a instituição mais retrógrada, obsoleta, anacrônica, datada, atrasada etc. etc. etc. que existe. E violenta. Que preparo psicológico e emocional terá um guri de 18, 19 anos pra empunhar um fuzil? Alguém dirá que é justamente essa condição que vai ser trabalhada no quartel. Pode ser, mas uma pesquisa séria sobre os casos de gente que sai transtornada depois de cumprir o serviço militar e outra sobre os casos de acidentes provocados por erro no uso de armamentos e ainda uma terceira sobre o número de suicídios dentro das organizações militares certamente vão flexibilizar um pouco esse entendimento.

Acho que ninguém vai negar que a juventude é um momento de grandes inquietações e transformações na vida de uma pessoa. Quem não tem a característica de ser questionador/a na transição para a vida adulta está no grupo das exceções. Um bom exercício de reflexão, então, é dar uma olhadinha rápida em algumas regras básicas de conduta (aparência) para os alunos e alunas do Colégio Militar de Porto Alegre:

*Acervo do autor
*Acervo do autor

Não acho que seja de todo ruim ter certas regras de disciplina em qualquer fase da vida. Somos seres gregários/as, nos relacionamos com outras pessoas durante toda a vida e, obviamente, algumas normas precisam ser determinadas para que possamos atravessar essa vida numa boa. Mas que diferença vai fazer se o guri andar na rua sem a boina do colégio? E se o rabo-de-cavalo da guria não estiver 100% acordo com a norma, que prejuízo isso vai causar para a imagem dela e do colégio?

Passemos para outra perspectiva das observações sobre a educação militar. No Casarão da Várzea, que é o nome por que é conhecido o Colégio Militar de Porto Alegre, o nome que mais se vê referenciado em placas, portas, salas é Castelo Branco. Às vezes CasteLLo Branco, porque dois L talvez confira mais dignidade. Este herói brasileiro se não torturou pessoalmente (e até acho que sim) mandou torturar ou pelo menos autorizou que se torturasse muita gente. A biblioteca chama-se Castel(l)o Branco e ostenta este quadro na parede atrás das estantes:

*Acervo do autor
*Acervo do autor

Peço que atentem para os detalhes da pintura, as expressões dos personagens, reparem particularmente na imagem do sujeito que está no canto esquerdo inferior. E vejam a descrição que está nesta frase: “Imutáveis, apenas a calça garança e a concentração dos alunos, fruto de cultivado senso de dever e disciplina, tal como hoje.” Honestamente, olhei o quadro ao vivo por vários minutos e a partir de vários ângulos e tudo o que vi foi um bando de jovens deprimidos submetidos a uma situação vexatória, fazendo um exercício sem nenhum sentido, vestindo roupas totalmente inadequadas, ouvindo o que deve ser certamente uma marcha exortando à guerra e à violência, enquanto dois superiores (SUPERIORES) conversam com um ar de… superioridade. Será que a calça garança (seja lá que raio é isso) é que mantém a disciplina e a honra da entidade? Ou será a concentração dos alunos?

Essas observações ligeiras sobre a questão geral do militarismo podem dizer muita coisa sobre o braZil bolsonarista. A imposição do respeito pelo medo e pela ameaça permanente de punição, que é a norma da educação militar, se reproduz no discurso de Bolsonaro. Que outra razão que não medo teriam as instituições para não darem fim a um governo que diariamente promove a violência, a ruptura do pacto democrático, propaga mentiras em rede que colocam em risco a vida de milhões de pessoas, enfim, por que ainda não caiu o governo que já cometeu tantos crimes, inclusive aqueles de responsabilidade, pressuposto para o processo de impeachment? Será que se o staff militar do governo não fosse tão grande e não estivesse em permanente processo de crescimento Bolsonaro ainda seria presidente? Não fosse Hamilton Mourão o vice-presidente, o governo já não teria sido destituído?

Parece cada vez mais evidente que o que sustenta Bolsonaro no poder é a caserna. E, sendo assim, pensando que o militarismo tem grande responsabilidade pela tragédia braZileira de Bolsonaro, não posso não sentir orgulho de ser uma pessoa de terceira categoria.

*Imagem de destaque copiada de: <https://maraba.pa.gov.br/semed-colegio-militar-rio-tocantins-realiza-formatura-da-1a-turma-do-ensino-medio/&gt;. Acesso em: 26 de out. 2021. (A imagem foi editada para que não seja possível identificar nenhuma pessoa.)

Padrão
bolsonarismo, Ideologia, Política, Religiões

estado laico, graças a Deus

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[…]

VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;”

a transcrição aí de cima é da constituição federal brasileira e está expressa, como se vê, no artigo 5º, que é uma das cláusula pétreas da carta, o que significa dizer que só uma assembleia constituinte pode alterá-la. trata-se do dispositivo constitucional que define a laicidade do braZil, ou seja, desvincula a religião do estado.

as pessoas mais velhas vão lembrar do doutor ulysses lendo um belíssimo discurso diante de um plenário cheio e com milhões de pessoas brasil afora emocionadas e esperançosas de um novo tempo. inclusive as que professavam alguma fé religiosa. e também as que não tinham religião nenhuma. mas olha lá o que diz, o preâmbulo da cf: “[…]  promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”

ontem comemorou-se com missas, procissões e feriado nacional o dia de nossa (?) senhora aparecida, padroeira do brasil. não vou enfrentar a polêmica da cor da santa, que isso merece ser tratado em conversa específica. interessa agora dar uma passada pelo caráter laico do estado brasileiro, garantido pela constituição e protegido por deus.

começando pelo calendário de feriados, vamos ver que grande parte deles têm natureza cristã, e, mais ainda, católica apostólica romana: natal, páscoa, corpus christi, nossa senhora aparecida etc. vamos então para as salas de audiência dos foros, para os gabinetes, hospitais e outros espaços públicos, e dificilmente deixaremos de ver uma cruz na parede, com ou sem o cristo. (a propósito, idolatrar instrumento de tortura é bem a cara do braZil moderno.) colégios públicos com nomes de santos e santas existem em profusão pelo país. nada disso afeta a laicidade do estado, por óbvio.

o jornal nacional mostrou que o presidente bolsonaro esteve na missa no santuário de aparecida ontem e até fez uma leitura no ritual. era um evento da agenda oficial do presidente. na missa anterior, ou numa das missas anteriores, já que acontecem muitas nesse dia, o celebrante havia feito algumas críticas indiretas ao governo, com destaque para a frase, muito boa, por sinal, que pátria amada não pode ser pátria armada. foi o mesmo que rezou a missa com a presença do messias presidente, mas a homilia, desta feita, ficou no encargo de outro padre, que, ao que se sabe, não proferiu nenhuma indireta, quanto menos direta. aliás, é bem inusitada a presença do presidente na missa, já que ele professa fé em outra vertente do cristianismo, mas isso também é facilmente explicável pela máxima que o governante deve estar ao lado do povo e, naquele momento, o povo, ou aquela parcela dele que mais interessa, estava na igreja.

populismos à parte, o que será que pensa o presidente messias sobre o estado laico? nas suas próprias palavras: “Muitos tentam nos deixar de lado dizendo que o estado é laico. O estado é laico, mas nós somos cristãos. Ou para plagiar a minha querida Damares [Alves, ministra]: Nós somos terrivelmente cristãos. E esse espírito deve estar presente em todos os poderes. Por isso, o meu compromisso: poderei indicar dois ministros para o Supremo Tribunal Federal [STF]. Um deles será terrivelmente evangélico.”¹ é bom frisar, como fez bolsonaro, que a própria damares, ministra da mulher, da família e dos direitos humanos, é terrivelmente cristã e evangélica, e sua fé é tão grande que o próprio jesus já se apresentou pra ela num pé de goiaba.

a separação entre estado e religião, que se estende a todas as esferas da administração pública, está sempre sob ataque. em 2018, um sujeito, missionário de alguma religião cristã, luiz carlos sperling, começou a reivindicar a retirada da imagem do templo budista no pórtico de entrada de três coroas, sob a alegação que a cidade é cristã. no templo chagdud gonpa, há uma imagem de tara vermelha, a deidade a que se vincula a linha budista lá praticada, que tem ao lado uma imagem de nossa senhora aparecida. já me disseram que esta imagem está lá por determinação expressa do fundador do templo, chagdud tulku rinpoche, que tinha muita admiração pela história da santa e pela devoção que muitas pessoas que visitam o templo, cujo acesso é franqueado independente de religião, têm por ela.

Imagem copiada do acervo do autor.

esta curiosidade, a presença de uma imagem do panteão católico² em meio a um culto bastante distinto, em muitos aspectos será chamada por alguém de tolerância religiosa, mas eu chamo simplesmente de respeito, e explico. muito se fala em tolerância e intolerância religiosa, mas o que está por trás dessa ideia de tolerar ou não alguma coisa? quem nos explica é Sidnei Nogueira: “ouve-se muito que ‘é preciso tolerar a diversidade’. […] Não, não é preciso tolerar ninguém. ‘Tolerar’ significa algo como ‘suportar com indulgência’, ou seja, deixar passar com resignação, ainda que sem consentir expressamente tal conduta. Quem tolera não respeita, não quer compreender, não quer conhecer. […] ‘Tolerar’ o que é diferente consiste, antes de qualquer coisa, em atribuir a “quem tolera” um poder sobre ‘o que se tolera’. Como se dependesse do consentimento do tolerador para existir.”³

como bem observado por Nogueira, a própria ideia de tolerar carrega uma carga ideológica pesada, que pressupõe a supremacia de uma religião sobre outras, não por acaso uma de origem branca e europeia, que tratou de vender ao mundo a imagem do seu ícone máximo de cabelos claros e olhos azuis, mesmo tendo ele nascido na palestina, cujas pessoas têm um fenótipo bastante característico e diferente desse.

Imagem copiada de: <https://andredanielreinke.com.br/a-verdadeira-aparencia-de-jesus/&gt;. Acesso em: 13 de out. 2021.

ainda que por vezes a discriminação tenha como alvo outras culturas (vide o exemplo anterior relacionado ao budismo) e em alguns momentos possa atingir até os símbolos católicos, como no célebre caso do pastor que chutou a imagem de nossa senhora aparecida em rede nacional, em 1995, a perseguição sistemática recai sobre as religiões dos povos negros. uma rápida pesquisa na internet vai mostrar inúmeros casos de violência praticada contra centros e templos de candomblé, de umbanda e outros das culturas que têm origem no continente africano. ou seja, a laicidade é relativa e a “tolerância” é seletiva.

isso tudo, e mais uma série de coisas cuja referência tornaria este texto muito extenso, mostra que o braZil é um estado laico, desde você não professe nenhuma fé vinda ainda que remotamente da áfrica.

¹Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/10/bolsonaro-diz-que-vai-indicar-ministro-terrivelmente-evangelico-para-o-stf.ghtml&gt;. Acesso em: 13 de out. 2021.

²É importante essa distinção entre o que é cristão, de modo geral, e o que é católico, principalmente se considerarmos o avanço do cristianismo neopentecostal no braZil de bolsonaro.

³NOGUEIRA, Sidnei. Intolerância religiosa. Coleção Feminismos Plurais, coordenação Djamila Ribeiro. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2020. p. 58

*Imagem de destaque copiada de: <https://domtotal.com/noticia/1414543/2020/01/para-agradar-evangelicos-bolsonaro-quer-pagar-conta-de-luz-de-igrejas-com-dinheiro-publico/&gt;. Acesso e: 13 de out. 2021.

Padrão
bolsonarismo, Política

O governo quero-quero¹

Se houvesse Luciano Hang em 1985, nem a fina ironia de Cazuza ousaria dizer que as mães são felizes. E ele também não seria incauto o suficiente pra procurar uma ideologia pra viver. Mas teria muito mais razões pra dizer que a piscina estava ainda mais cheia de ratos.

Imagem copiada de: <https://twitter.com/alvarodias_/status/1440731740037808128?lang=ar&gt;. Acesso em: 28 de set. 2021.

Os poetas têm uma percepção de mundo muito aguçada e são capazes de dizer coisas que só muito tempo depois nós, reles mortais, seremos capazes de atestar. Devo confessar que não sou exatamente fã de Cazuza e até questiono um pouco a sua aura de poeta, mas era um cara muito antenado com as coisas que aconteciam na sua volta e tinha um talento inquestionável pra botar críticas sociais e políticas nas letras das músicas que compunha. Mas eu acho, e só acho, que com o material disponível que teria hoje, ele se atrapalharia. Ou lançaria músicas na mesma proporção em que as instituições lançam manifestos e notas de repúdio.

Segundo especialistas, a CPI já tem elementos de sobra pra colocar abaixo todo o desgoverno de Bolsonaro; a Justiça do Rio de Janeiro já tem elementos de sobra pra botar na cadeia toda a família e seus comparsas das milícias; a Polícia Federal já tem elementos de sobra pra reabrir, de forma séria, as investigações sobre a fakeada de Juiz de Fora; o Ministério Público já tem elementos de sobra pra investigar a atuação de Sérgio Moro quando era juiz e também já tem elementos de sobra pra no mínimo começar a se perguntar por onde anda Abraham Weintraub – se me perguntarem eu digo… – e por que razão Fabrício Queiroz circulou como se fosse Ringo Starr no Sete de Setembro; o Conselho Nacional e a Corregedoria do Ministério Público já têm elementos de sobra pra investigar a atuação de Augusto Aras à frente da Procuradoria-Geral da República; a Polícia Civil de Goiás já tem elementos de sobra pra desconfiar que há algo estranho no Caso Lázaro. A Havan já foi declarada sonegadora pela Receita Federal, mas o dono continua livre, leve e solto como um passarinho, ou como a versão braZileira da estátua.

Poderia encher folhas e folhas com todas as ações que as instituições republicanas deveriam fazer pra transformar o braZil em Brasil. Mas o que ganha os horários nobres dos noticiários televisivos e boas manchetes na mídia alternativa é a risível rinha de dois senadores, ambos com fundadas suspeitas de corrupção, ou a demissão de um patético jornalista que transita nos bastidores da política brasileira desde a linha dura, cuja carreira alavancou ao flagrar parlamentares dormindo no plenário para mostrar no Show da Vida e que no fim da vida se submete ao ridículo de defender aplicações de ozônio no ânus e coisas do tipo. Não que isso não deva estar no noticiário, pelo contrário, tudo é boa matéria jornalística. Mas, enquanto isso, as grilagens e a matança de indígenas e quilombolas correm soltas, a destruição de milhões de quilômetros de mata pra fazer pastagens e campos de soja acontece à luz do sol e ao brilho da lua, as mineradoras e outras atividades predatórias da natureza articulam suas políticas sem qualquer tipo de fiscalização eficaz das autoridades competentes, o Congresso caminha em velocidade avançada pra acabar com os serviços públicos, enfim, a boiada passa pelas porteiras escancaradas pelos tratores do agropop. Isso sem falar que já são quase 600 mil pessoas mortas pela Covid, com estudos que mostram que a maioria pertencia aos segmentos sociais mais vulneráveis. E os defensores da retomada da economia festejam que só estejam caindo dois aviões médios por dia, ou melhor, estejam morrendo “somente” cerca de 500 pessoas diariamente. Este é o braZil de Bolsonaro, o presidente quero-quero, que chefia a comitiva da vergonha nacional nos EE.UU.

Imagem copiada de: <https://findect.org.br/noticias/vergonha-internacional/&gt;. Acesso em: 28 de set. 2021.

Quero-quero é uma simpática – e braba – avezinha muito vista aqui pelo Rio Grande do Sul. As mamães quero-quero podem até não ser felizes como deveriam ser todas as mães, mas são muito espertas. Elas depositam os ovos num lugar e vão cantar pra atrair a atenção dos predadores – ser “humano” incluso – bem longe dali. Me parece que além de todo o suporte teórico que deu ao bolsonarismo, Olavo de Carvalho também estudou com muita atenção esses passarinhos e ensinou direitinho o pupilo a cantar num lugar pra esconder o circo pegando fogo do outro lado.

¹Se eu estivesse escrevendo no Equador ou na Bolívia, estaria correndo sério risco de tomar um processo por dano moral contra os animais neste texto.

*Imagem de destaque copiada de: <https://www.sinergiaspcut.com.br/2021/08/13/entenda-como-o-governo-bolsonaro-desvia-sua-atencao-para-atacar-seu-direitos/&gt;. Acesso em: 28 de set. 2021.

Padrão
bolsonarismo, Política

O messias e o bispo: uma fábula braZileira

Em 20 de setembro é difícil pensar em discutir outro assunto que não seja a esfarrapada farsa farroupilha. Mas o estranho mundo de Bolsonaro não dá trégua. Tem ainda os desdobramentos do sete e principalmente do nove de setembro; tem a bomba de fumaça do momento, promovida pelo Ministério da Saúde; tem tanta coisa. Sobre bombas de fumaça, a propósito, é uma facilidade enorme para este (des)governo produzi-las. Pegue-se como exemplo esta da liberação de vacinas para adolescentes e a posterior desautorização. É o assunto principal da grande mídia – e até da mídia alternativa -, das redes, dos postos de saúde, dos bares. É evidente que se trata de diversionismo puro, mas dada a inépcia de todos os setores do Executivo Federal, há boas razões para quem não acompanha de perto as movimentações políticas achar que se trata de uma esculhambação genuína. Não deixa de ser esculhambação, mas é uma esculhambação programada e apropriada para criar assuntos que se desviem e desviem os olhares do que realmente interessa. Nesse sentido, talvez a frase que melhor defina o governo bolsonaro tenha sido dita pelo ex-ministro do meio ambiente: “Enquanto isso, vamos passando a boiada”.

Por ora, deixo essas manobras diversionistas em espera e os assuntos da data magna do Continente de São Pedro para o Mário Maestri e o Juremir Machado, que têm trabalhos esclarecedores nessa área, e me ocupo de outra farsa, coincidentemente envolvendo arma branca, que, como se sabe, é um fetiche da gauchada.

Na semana passada, a TV 247 lançou o documentário “Bolsonaro e Adélio – Uma facada no coração do Brasil”, dirigido por Joaquim de Carvalho e Max Alvim, que pode, ou melhor, deve ser assistido aqui: https://www.youtube.com/watch?v=vOcBT2js54U&ab_channel=TV247. É um documento jornalístico extraordinário, de valor inestimável para quem quer entender o braZil do bolsonarismo. E todo o povo deveria ter esse interesse.

O filme é longo para as configurações de velocidade e urgência da sociedade moderna, mais de duas horas. Para ajudar, a Cristina Dornelles e eu fizemos uma versão compacta, que, a bem da verdade, continua longa, quase uma hora, mas em função do volume de dados e da maneira como ele foi produzido, indo direto aos pontos importantes, é impossível sintetizar ainda mais. Ao final deste texto coloco uma espécie de índice que fizemos para melhor acompanhamento da versão integral.

O documentário apresenta com uma riqueza de detalhes contundente as provas que tudo foi uma grande armação com vistas a criar um mito. E mitos dificilmente perdem eleições. E assim foi. A história política do Brasil parece estar sempre às voltas com um tipo de sebastianismo tardio, que procura um homem – e aqui a palavra homem não é usada no seu sentido genérico – que se responsabilize por fazer tudo aquilo que cabe, na verdade, ao conjunto das forças sociais realizar. Numa sociedade ideal, o governo é apenas o mediador dos conflitos sociais e o executor das políticas construídas pelas comunidades. Aqui não, estamos sempre transferindo esse papel e delegando poderes. Pelo menos desde Getúlio isso é muito claro, com um hiato a partir de 64, período que reproduz outro tipo de história e, portanto, demanda outro tipo de análise. Mas logo ao fim do regime inaugurado pelo Golpe de Primeiro de Abril, uma velha raposa mineira, presente na cena desde o Estado Novo, trouxe novamente a figura messiânica à ordem do dia. A partir daí vieram o Caçador de Marajás, o pai do Real e Lula, todos com a capacidade de avocar a imagem do salvador da pátria, afinal, governo após governo sempre há uma pátria a ser salva. Dilma também foi outro caso, porque foi eleita na esteira das políticas de bom resultado social dos governos Lula. O patriarcado e as elites aguentaram a duras penas e com farta produção de noticias falsas e distorcidas um mandato de uma presidenta altamente capaz no aspecto técnico, mas com algumas dificuldades no traquejo político. Assim, já na largada do segundo governo estava definido o golpe, com Supremo e tudo, que interrompeu abruptamente a caminhada (menos rápida do que seria ideal, diga-se) rumo a um equilíbrio das esferas sociais.

Esta rápida digressão é necessária para amarrar a corda que liga a retirada violenta e ilegítima de Dilma do governo aos eventos de Juiz de Fora. Neste segundo momento, as forças de resistência haviam conseguido um nível mínimo de rearticulação em cima de um governo absolutamente antipopular de Temer e da farsa (mais uma) da Lava Jato. E a agenda fascista capitaneada por Bolsonaro não estava garantida, porque do outro lado, Ciro Gomes à parte, a Esquerda parecia ter alcançado um bom conjunto, unindo Haddad, que supria o requisitos de cultura e formação acadêmica, além de ter um histórico de boas administrações em São Paulo e no Ministério da Educação, e Manuela, mulher, jovem, mas com uma estrada política respeitável, associada a lutas sociais importantes, como a emancipação feminina e as causas LGBTQIA+. Do outro lado, Bolsonaro tinha o antipetismo e um discurso que agradava às classes médias que se acham altas, principalmente no que diz respeito à segurança e à luta anticorrupção. Mas depois de 3 governos e meio, o risco de consolidação de uma plataforma política voltada para as questões sociais era muito alto e tudo deveria ser feito para romper essa trajetória do país. A possibilidade da eleição se encerrar no primeiro turno era bastante remota, Ciro Gomes à parte. E o risco de Bolsonaro botar tudo a perder em um único debate no segundo turno era muito grande. Por isso, nunca um câncer foi tão celebrado. A necessidade de uma intervenção cirúrgica caiu como uma luva para a articulação da farsa, que contou com a ajudinha de um gênio do mal, Steve Bannon, e sua versão braZileira, Olavo de Carvalho. O que aconteceu a partir daí está explicado, sem economia de detalhes sórdidos, no documentário. O que posso dizer para finalizar por ora é: ASSISTAM!

O índice abaixo tem a intenção de facilitar o acesso aos pontos que consideramos mais claros, mas é importante que o documentário seja assistido integralmente e com muita atenção, preferencialmente mais de uma vez:

00h02m58s – Gustavo Bebbiano fala no programa Roda Viva sobre a ausência do chefe de segurança e a presença de Carlos Bolsonaro no carro de Jair Bolsonaro até Juiz de Fora, e dos alertas sobre os riscos do não uso do colete à prova de balas

00h05m36s – Apresentação de “seguranças voluntários” no local da primeira visita de Bolsonaro, um hospital de combate ao câncer mantido por mulheres, incluído no roteiro para melhorar a imagem dele com o público feminino. Bolsonaro já recebia proteção da Polícia Federal (PF) por ser candidato

00h09m08s – Opção voluntária de não usar colete à prova de balas e uso de camiseta especialmente preparada para o evento

00h10m10s – Imagens do almoço no hotel Trade encontradas no celular de Adélio Bispo

00h12m13s – Ataques ao PSOL e PCdoB já na primeira entrevista coletiva de Bolsonaro

00h13m32s – Culto evangélico em que Bolsonaro recebe benção para proteger de doença no estômago e relato de problemas semelhantes acontecidos anteriormente

00h14m39s – Presença do médico Paulo Gonçalves, da Santa Casa, que atenderia Bolsonaro após a facada, no discurso que ele faz aos apoiadores na sede do hotel. Bolsonaro não fica no hotel para almoçar

00h18m49s – Adélio anda em atitude suspeita, vestindo uma jaqueta preta mesmo com o calor que fazia no dia, atrás do carro onde Bolsonaro discursava, portando um jornal em que supostamente estava enrolada a faca, sem ser importunado pelos seguranças, e Carlos evita o contato com ele. Em entrevista à Leda Nagle, Carlos descreve a cena e diz que Adélio esteve com ele no Clube de Tiro .38, em Florianópolis. Aqui é interessante observar que o documentarista diz que a imagem é rara, então como é que Carlos Bolsonaro a viu e descreveu os fatos na entrevista?

00h22m14s – Pensão em que Adélio se hospedou em Juiz de Fora, cuja dona morreu algum tempo depois do fato. Adélio pagou a estada adiantado e em dinheiro e tinha registrado em seu celular o roteiro de Bolsonaro na cidade, inclusive a visita a uma Fundação que não constava do programa da visita

00h25m16s – Tentativa frustrada de Adélio contra Bolsonaro. Bolsonaro toca a mão de um homem na multidão e este faz uma espécie de contagem regressiva, após o que Adélio investe ostensivamente contra Bolsonaro, em frente aos seguranças, que nada fazem para impedi-lo

00h27m30s – Adélio interage com os seguranças após a tentativa frustrada e logo em seguida há uma troca de sinais entre Bolsonaro e um dos seguranças. Um homem adverte Adélio dizendo para que tenha paciência e dizendo “calma, cara, agora não dá”

00h28m58s – Diretor da Associação Comercial, Guilherme Duarte, retira o presidente da Associação da cena onde ocorreria logo em seguida a suposta facada. Duarte, que organizou o evento juntamente com Marcelo Álvaro Antônio, diz que vai conversar com a reportagem, mas depois recua da decisão e não fala mais.

00h30m26s – Equipe do documentário é ameaçada pela polícia

00h32m18s – Fotógrafo Felipe Couri, que registrava toda a movimentação, foi distraído nos instantes cruciais e não conseguiu tirar as fotos do momento da “facada”

00h34m51s – Em vez de conter Adélio, os seguranças fazem a sua proteção para que não seja linchado pela multidão

00h36m19s – Bolsonaro é levado para uma pastelaria para receber atendimento, mas não estava inconsciente e nem aparentava qualquer tido de sofrimento, de acordo com um funcionário da pastelaria, que ainda diz não ter restado nenhum resquício de sangue no local

00h36m59s – Sem esperar por uma ambulância, Bolsonaro é levado sem o menor cuidado para o carro que o levaria à Santa Casa

00h37m27s – Um segurança da confiança de Bolsonaro faz uma espécie de sinal quando ele é levado para o carro

00h41m01s – Hospital Albert Einstein se recusa a apresentar o prontuário médico à PF; AE atendeu Queiroz, que pagou pelos procedimentos em dinheiro vivo; Antônio Macedo, ONCOLOGISTA que realizou a cirurgia em Bolsonaro, rompeu com o AE e passou a atender no hospital que Bolsonaro frequenta atualmente

00h43m20s – Cicatriz da “facada” aparece em local diferente

00h47m07s – A faca é encontrada por um policial, Renato, e entregue a um vendedor de frutas, que se recusa a falar sobre o assunto

00h50m45s – Entrevista de Renato, segurança que achou a faca

00h55m20s – Momento da suposta facada: Adélio não está em posição possível para introduzir 15cm da faca no corpo de Bolsonaro

00h56m28s – Entrevista com esposa de Marcelo Bormevet, policial que organizou a segurança privada

00h57m25s – Esposa de Hugo, segurança que imobilizou Adélio e posteriormente morreu de infarto, diz que não fala mais

00h58m55s – Participação de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro

01h00m01s – Entrevista com Zanone Manuel de Oliveira Júnior, que foi o primeiro advogado de Adélio e atualmente é seu curador; manobras da defesa de Adélio para favorecer Bolsonaro

01h05m38s – Entrevista com a irmã de Adélio, que sequer sabe se ele está vivo

01h14m21s – Adélio fez curso no clube de tiro .38, mas a porta-voz do clube nega

01h19m08s – Publicação do facebook do clube de tiro .38 no dia da suposta facada

01h19m15s – Promoções dos seguranças de Bolsonaro, apesar das falhas no dia da “facada”

01h21m55s – Bebbiano fala no Roda Viva sobre a influência de Carlos Bolsonaro

01h24m51s – Facebook de Adélio é desativado apesar dele estar preso

01h29m19s – Postagem de Carlos Bolsonaro no facebook sobre atentado contra Donald Trump antes da eleição estadunidense de 2016

01h32m12s – Militância de Adélio na Direita

01h34m21s – Narrativas criadas para ligar Adélio à Esquerda

01h35m04s – Paulo Marinho fala de visita que fez a Bolsonaro no Albert Einstein

01h36m27s – Steve Bannon antecipa que Bolsonaro sofrerá um atentado e Joice Hasselmann diz que o próprio Bolsonaro falou em levar uma facada

01h37m24s – Camiseta usada por Bolsonaro desapareceu

*Imagem de destaque copiada de: <https://brasilagora.net.br/bolsonaro-gargalha-ao-saber-que-kassio-nunes-vai-analisar-pedido-de-impeachment-de-alexandre-de-moraes-veja-video/&gt;. Acesso em: 21 de set. 2021.

Padrão